História de uma música

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Renato Padovese

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em 20/out/2014 - 3 Comentários

Por Renato Padovese

É mesmo impressionante o efeito que a música exerce sobre o ser humano. Os cientistas explicam que a música ativa os centros de prazer do nosso cérebro, estimulando a formação de sinapses neuronais. Por esta razão, acreditam que teria o poder de ajudar no desenvolvimento neurológico de crianças, além de trazer outros benefícios à saúde como a prevenção do mal de Alzheimer e o combate à depressão. Afinal, qual mãe nunca colocou Mozart no quarto de seu bebê? Quem nunca se tranquilizou diante de uma perda ou se lembrou de alguma passagem marcante da vida ao ouvir uma música? Qual casal apaixonado não tem a “sua” música? Alguns casais têm várias, uma para cada fase do relacionamento.

Eu me lembro muito bem de uma vez em que a música exerceu seu efeito mágico em mim. Tinha uns 19 anos, estava a caminho da faculdade, na avenida Amador Bueno, mais ou menos na altura da avenida Tiquatira. No rádio do carro começou uma música maravilhosa, combinação perfeita de melodia, voz, harmonia, arranjos, letra, que exerceu um impacto imediato, uma identificação instantânea. Fiquei curtindo aqueles poucos minutos de êxtase, logo interrompidos pelo locutor que anunciou: “acabamos de ouvir You Make Me Love You, de Roger Hodgson”.

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Ora, Roger Hodgson, principal vocalista e cofundador da banda inglesa Supertramp, tinha sido a grande ausência do primeiro e único show da banda no Brasil em 1988, um tempo onde companhias de cigarro patrocinavam eventos musicais. Eu já era fã de carteirinha da banda, o que explica em parte o meu fascínio. Roger deixou o Supertramp em 1983, por divergências artísticas com o outro vocalista e compositor da banda, Rick Davies. Roger e Rick eram como Lennon e MacCartney, compunham separadamente, mas assinavam juntos a autoria das músicas. Provavelmente, tinha ficado complicado conciliar os dois estilos num mesmo álbum. No ano seguinte, Roger lançou seu primeiro trabalho solo In The Eye Of The Storm.

Naquela época, como podem imaginar, não havia estes aplicativos de smartphone que reconhecem a música e já direcionam ao iTunes Store, onde se pode baixar a faixa por 0,99 dólares. Então, só me restou sair em peregrinação por lojas de discos à procura de algum outro álbum solo do Roger. Porém, passaram-se dez anos e as buscas se mostraram infrutíferas. Nenhum sinal, nenhuma pista. Dez anos e nada. E nada da música sair da minha cabeça. Mas havia uma esperança, eu viajaria ao Reino Unido para um estágio num instituto de pesquisa britânico. Impossível não encontra-la no país natal do meu ídolo.

De fato, foi o que ocorreu. Numa megaloja da Virgin Records, finalmente encontrei o álbum Hay Hay, de 1987, e estava lá, na faixa quatro, a bela canção You Make Me Love You. Depois, fiquei sabendo que, na mesma semana em que o disco foi lançado, Roger sofreu uma queda em casa, fraturando os dois pulsos. Os médicos disseram que ele jamais voltaria a tocar. Mas, depois de um longo período de recuperação, contrariando o prognóstico fatalista, ele não só voltou a tocar como lançou mais um álbum em 2000, chamado Open The Door. Em 2004, reuniu uma nova banda e passou a excursionar pelo mundo, tocando os sucessos de sua brilhante carreira.

Felizmente, para os brasileiros, Roger já esteve no nosso país algumas vezes. Na última delas, em 2012, como o tour incluía nove cidades, decidi assistir a mais de uma apresentação. Além do show em São Paulo, a outra cidade escolhida, pela proximidade, foi Campinas. Também ajudou o fato de o show ser num sábado, assim eu poderia levar a família e passar o fim de semana na cidade. Eu me lembro muito bem, estava ansioso porque já tinha em mãos os ingressos para São Paulo mas o show de Campinas não iniciava a venda. Busquei um e-mail no site oficial do cantor para questionar a suposta demora. Para minha surpresa, a resposta veio rápida, muito educada, me pedindo para aguardar porque, em breve, os ingressos seriam comercializados. Ao agradecer, arrisquei: “ask Roger to play You Make Me Love You”. Desta vez, não houve resposta alguma.

O show em Campinas seguia arrancando suspiros, aplausos e gritos a cada um dos clássicos do Supertramp executados: The Logical Song, Give a Little Bit, Dreamer, It’s Raining Again, Fools Overture, entre muitos outros. Lá pela metade da apresentação, antes iniciar mais um número, ele começou dizendo que iria cantar uma canção que há muito tempo não tocava “especialmente para Campinas”. Os primeiros acordes me remeteram àquela manhã dentro do meu carro, fiquei alucinado, parecia que estava revivendo as mesmas sensações da primeira vez que ouvi You Make Me Love You.
Por algum motivo, o meu singelo e despretensioso pedido, o famoso “se pegar, pegou”, foi atendido. Talvez, para dar a esta história o desfecho perfeito. O problema desta explicação é que… a história ainda não tinha acabado.

No dia seguinte, estava eu circulando pelos corredores do hotel, fazendo hora até o momento de partir, quando encontro Roger Hogdson em carne e osso. Fiquei paralisado, incrédulo. O meu ídolo ali parado, na minha frente, sozinho. Uma felicidade imensa inundou meu corpo. Estava gelado, mas suava, parecia uma adolescente diante do Harry Styles (que vem a ser o integrante mais bonito da banda One Direction, segundo minha filha). Passada a paralisia inicial, consegui pronunciar algumas palavras e, na conversa, ele confirmou que tocara a música a pedido. Outras pessoas foram se juntando a nós e ele, muito simpático, atencioso e amável, atendia a todos.

E para dar, agora sim, a esta história o desfecho perfeito, eu busquei no carro aquele CD comprado na Virgin Records de Glasgow, cuja faixa quatro todos já conhecem, e pedi um autógrafo.

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Autógrafo de Roger Hodgson.

Toda essa introdução foi pra dizer que o Roger Hodgson está novamente em turnê pelo Brasil e, nesta quinta-feira, estará em São Paulo. Ingressos ainda disponíveis em rogerhodgson.com.

Não perca!

Para escutar a música que motivou este post, clique aqui.

Apresentação do Coro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp)

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em 02/set/2013 - Sem Comentários

À Comunidade Acadêmica Cruzeiro do Sul

É com grande satisfação que convidamos a todos os membros dessa conceituada Instituição para a apresentação do Coro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), a realizar-se no dia 20 de setembro de 2013, às 20h, Anfiteatro do Bloco D, Campus São Miguel, Av. Ussiel Cirilo, nº 97, Universidade Cruzeiro do Sul.

A apresentação compõe o conjunto das atividades realizadas pela Universidade Cruzeiro do Sul para o Dia da Responsabilidade Social, estendendo ações e serviços prestados pelos diversos Cursos da Instituição e pelos Programas da Pró-reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (PREAC) à comunidade interna e externa, nos dias 20 e 21 de setembro de 2013.

A apresentação do Coro faz parte do “Projeto Osesp Itinerante” que, na cidade de São Paulo, apresentará sete concertos, com entrada franca. Dedicando-se à missão de democratizar o acesso do grande público à música coralística de qualidade, o programa desses concertos é composto por obras de origem sacra, erudita, folclórica e popular, com regência de Naomi Munakata. Composto por cinquenta e sete vozes o Coro da Osesp é uma das principais referências coralísticas do País, por duas vezes ganhador do Prêmio Carlos Gomes de melhor coro.

Além da presença honrosa, contamos com a colaboração das coordenações, professores e funcionários para que o convite alcance nossos alunos e respectivos familiares.

Esclarecemos que, embora a entrada seja franca, os interessados deverão inscrever-se. CLIQUE AQUI

As inscrições serão aceitas até o limite de vagas/lugares do Anfiteatro D.

Para os alunos inscritos, serão expedidos certificados para comprovação de cumprimento de AACC.

Quadradinho de oito

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Marcelo Paes Barros

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em 17/abr/2013 - 111 Comentários

Prezado leitor, caso você não entenda o título dessa matéria, não se culpe. Agradeça aos anjos, na verdade. Trata-se de um novo “passinho” – coqueluche do momento – na onda funk brasileira, já que nem mais como carioca podemos classificá-la. Apenas no nível didático, a “dançarina” (muitas aspas aqui, por favor) se posta com a região cervical apoiada no chão, pernas entrelaçadas ou cruzadas ao ar, e deve rebolar freneticamente, imitando a posição 274 do Kama Sutra (não adianta ir verificar se a citação está correta, pois não está… chutei, mesmo!). Não sei sua opinião, mas acho lamentável imaginar que a intenção da garota é seduzir o rapaz em movimentos tão explícitos sugerindo o coito. Não há sedução ou insinuações sensuais aqui: há a clara e direta exposição da região genital feminina à apreciação do mancebo. O ato é tão explícito que desconfio que seja possível uma avaliação organoléptica a certa distância!

Dizem os grandes antropólogos que a dança é a mais pura manifestação cultural de um povo. Tal conceito me traz incomensurável vergonha pensando, sob esta premissa, na imagem que o Brasil transmite as outras nações. Na verdade, a dança deve estar coordenda ao ritmo e, obviamente, as letras/temáticas relacionadas àquele estilo musical. O funk brasileiro, como é atualmente promovido, prima em relatar uma realidade perversa da sociedade, principalmente daqueles que têm maiores dificuldades de projeção social. Na maioria das vezes, as músicas enaltecem as contravenções, malandragens e falcatruas criadas por estes “funkeiros” para adquirir uma imagem de prestígio ou causar impacto na sociedade.

Em termos comportamentais, todos nós, humanos, buscamos uma identidade que nos dê um sentido de inclusão a um determinado grupo. Assim sendo, os temas do funk brasileiro giram em torno de sexo, ostentação (por itens capitalistas de status, principalmente automóveis), drogas e contatos/confrontos com a polícia. Quando um jovem rapaz passa pelas avenidas (de carro ou de bicicleta, acreditem) tocando, em alto volume, um funk “proibidão”, ele quer transmitir a seguinte mensagem: “Sou malandrão, pegador e vida louca” (traduzindo: sou degenerado, sigo no caminho torto). As garotas que se atraem por esse estereótipo, captam exatamente a mesma mensagem por que pertencem a esse mesmo grupo, cujos valores são comuns. Garotas de níveis socioculturais diferentes, não sintonizam a mesma frequência e tendem a desprezar esse modelo masculino. Contudo, o ser humano possui um espírito transgressor, de anseio em quebrar regras e barreiras. Tal fato justifica o porquê de encontrarmos alguns indivíduos de grupos ou contextos diferentes também inseridos na temática “proibidona”.

Não vou negar que o RAP americano compartilha da mesma filosofia do funk brasileiro e que celebridades milionárias como 50Cent, Snoopy Dog, etc. são referências mundiais no estilo. A premissa aqui é exatamente a mesma. Tais referências instantaneamente se transformam em ídolos e, infelizmente, também em exemplos a serem seguidos pelos jovens em formação. A mensagem truncada transmitida por esse funk agressivo aos jovens (ainda em formação de caráter) é que este estilo – musical e de vida louca – representa uma excelente estratégia de enriquecimento rápido a baixo custo e esforço. Mas qual é a porcentagem de indivíduos inseridos neste contexto que obtêm real êxito? Baixíssima. Quantos padecem durante o percurso de baixo custo e esforço? A estrondosa maioria, claro. Até mesmo no cenário internacional, figuras lendárias como Tupac e Notorious B.I.G. se foram prematuramente por seus estilos de vida às avessas. Cálculos simples de probabilidade podem comprovar que, definitivamente, seguir esse estilo não vale à pena.

Assim sendo, gostaria de lembrar que nós aqui (editor e leitores) indubitavelmente não representamos uma fração representativa da população brasileira. Somos acadêmicos e, portanto, pertencemos a uma elite cultural (bem diferente da grande maioria de brasileiros), na cidade mais rica, do Estado mais rico, da região mais rica do Brasil. Nós não somos o Brasil, em sua média. Sem um senso crítico e de bom-gosto ao menos ponderdo, não é possível perceber que todas as atuais músicas de funk degenerado (como vem sendo produzido no Brasil) possuem estritamente a mesma base rítmica. Um molde pronto e de fácil produção em massa que só serve para extrair dinheiro de seus pouco exigente consumidores, garantir aos seus autores os 15 min da fama pré-anunciada por Andy Warhol (nos anos 70) e agredir os ouvidos daqueles que buscam algo mais aprazível que um simples “pum-pum-chak-pum-chak”. O pobre James Brown deve estar sofrendo muito onde quer que esteja…

Música no campus São Miguel em homenagem ao dia da Mulher

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em 08/mar/2013 - Sem Comentários

Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher os alunos do curso de Música apresentaram, no dia 6 de março, um repertório musical na sala dos professores do campus São Miguel.

Na ocasião, a Magnífica Reitora, Profa. Dra. Sueli Cristina Marquesi foi homenageada pela coordenação do curso com um ramalhete de flores, simbolizando essa data tão especial para mulheres. Também marcaram presença o Pró-reitor de Pós-graduação e Pesquisa, Prof. Danilo Antonio Duarte, assessores, professores e alunos.
Conheça o repertório tocado

Música: Feijoada Completa:
Aluno Naruh Payne (violão)
Música: Cecília
Aluno Márcio Soares (voz e violão)
Música: Luiza
Alunos Claudemir Xavier (voz) e Vitor Santos (piano)

Música: Angélica
Coral dos alunos de Música

Um pancadão na nossa cara

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em 31/out/2012 - 5 Comentários

Por Claudio Brites

O que é violência? Há muito tempo sabemos que violentar vai além da agressão física, não é mesmo? A agressão moral pode ser tão devastadora quanto um soco. Na verdade, algumas vezes, o valor simbólico do soco tem mais poder de destruição do que o dano físico em si.

O pensador francês Pierre Bourdieu, juntamente com sociólogo Jean-Claude Passeron cunharam o conceito de Violência Simbólica. O termo, em linhas gerais, serve para descrever o abuso da imposição de um sistema simbólico (no caso, o sistema da classe dominante) sobre outra estrutura simbólica. Essa determinação, em sua maioria dissimulada, obriga que toda uma sociedade aceite certo “pacote cultural”, perigando à marginalidade para aqueles que buscarem alternativas. Na maioria das vezes, contudo, a “vítima” não se opõe a seu agressor, pois tudo é colocado de forma natural, ao modo dos passivos suspiros “as coisas são assim”, “é disto que se fala”, “é isto que está correto”; a vítima, ao contrário, acaba se culpando pelo seu “desvio” à regra, por pensar ou sentir diferente do que lhe foi imposto.

Confesso que, mesmo vítima constante do bullyng durante o colégio, nunca pensei nessa questão até assistir, lá pelo segundo ano da Graduação em Jornalismo, uma palestra sobre o assunto. Sempre me senti culpado por ser diferente (autoestereotipado como nerd, gordo, o cara que não gosta de futebol), ou melhor, por me considerarem diferente. Nessa “sinuca”, eu questionava: “o que está errado comigo? Por que sou assim e não daquela outra forma?”. Contudo, nessa palestra, percebi que ser “diferente” é o “normal”, que o desvio é regra e quem se acredita “padrão” está, tão somente, respondendo positivamente para o grupo opressor que determina os estabelecimentos culturais (você deve gostar de futebol, necessita viajar nas férias, precisa ter uma carreira de sucesso etc.); trata-se sim de um grande irmão, como diria Orwell, que nos assiste e exige que sejamos uniformes, aproveitando o trocadilho, seja ela – a carapuça – do nosso número ou não.

Os valores determinados por essa elite simbólica mudam, pois o poder troca de lugar, ou ele é pulverizado, dividido entre diferentes aparelhos de repressão (religião, mídia, Estado…); mas essa mudança ocorre também porque, às vezes, o poder precisa “devorar” certo “costume” desenvolvido na base, para que o alicerce continue aceitando-o como regulador, uma forma de agradar os “mandados”, para que permaneçam crédulos às ordens do que realmente importasse. O entretenimento, nesse pacote, é o mais maleável: é “tolerável” que suas regras e gostos mudem conforme a suposta “vontade da maioria”, para que, enquanto isso (na Sala da Justiça), os olhos não se concentrem em questões políticas e sociais.

Assim, há interesses econômicos e políticos que fazem hoje, por exemplo, você correr para a fila do lançamento do novo iPhone e desfilar como o felizardo primeiro comprador (!) do mais novo gadget da moda; você é colocado como um tipo de herói, pois aguentou horas em espera para “poder comprar primeiro”, e a impressa o coloca como “o mais atualizado”, o “mais antenado”; e, já diriam as máquinas, como é bom se atualizar, não é mesmo?!

E por que estou escrevendo sobre isto? Só porque, despeitado, não tive grana para o novo iPhone? Também. Mas a questão principal é outra, de ordem mais prática e imediata, principalmente se você estuda nesta Universidade: carros e seus sons; ou eu deveria dizer… sons e seus carros? Porque se antes se colocava um som no carro, hoje se instala um carro ao redor do som. Eu não vou discutir o tipo de música, costumo dizer para minha esposa que se meu vizinho quiser colocar Bachas 3 horas da manhã de um domingo, terá meu chamado ao PSIU como resposta, tanto quanto se sua opção for por McCatra.

A discussão aqui é a imposição, o que faz um indivíduo, ou um grupo, achar que tem o direito de impor sua vontade, seu gosto, para outras pessoas? Eu me sinto Alex, embora as circunstâncias sejam outras, em Laranja Mecânica, com os olhos impedidos de piscar e os braços amarrados enquanto me fazem olhar e ouvir algo que eu não quero. Sejamos sinceros, eles não aumentam o som para que o grupo, ao redor ou dentro do carro, possa ter melhor percepção auditiva a respeito da música que toca; na verdade, o grupo que está mais próximo mal consegue ouvir, o som é para os outros, a missão é “causar” e tomar atenções alheias. A polícia me diz: não há o que fazer, são como formigas. O vizinho me enfrenta: pare de ser chato, seu neném de oito meses pode dormir amanhã, durante o dia.

“Uma forma de protesto contra a cultura dominante”, dizem alguns; “afinal, existem várias pessoas que não podem cursar uma faculdade”. Isso teria validade em outro contexto e se, principalmente, instalar um som em um carro e, mais do que isso, ter um carro não fosse algo que exigisse, ao menos, certa condição financeira. Não, quem está fazendo isso não está politicamente engajado, não enfrenta o sistema, está, sim, aderindo a um comportamento validado por um grupo, círculo dominante que devorou o que começou, lá no início talvez, como uma forma de protesto (veja mais aqui).

Não somos cidadãos, ou indivíduos, tornamo-nos consumidores, e como consumidores queremos ter: sexo, dinheiro, bens terrenos e, para alguns, milagres na Terra e um lugar no céu; consumindo, “podendo ter”, eu tenho poder e posso impor aos outros, uma comunidade inteira até, o que penso gosto, quero. E isso não acontece só aqui, claro, no meu bairro, no seu, morando em prédio ou em casa, você é rodeado por esse mar que determina que o som deve ser para os outros, que curtir uma música significa “compartilhar” (maldito bordão social e virtual), impor, essa música para todos e que, no geral, o “negócio é causar”. Como diz o som: “nóis incomoda”, mas eu pergunto: qual é a razão de querer incomodar? Ela existe?! E eu temo, ao lembrar do Coringa, antagonista do herói Batman, quando o vilão afirma: há pessoas que só querem ver o circo pegar fogo.

O leitor (sim, você) deve ter percebido que eu me rodeio de porquês, mas não me ocorre a resposta, nem a saída (se é que existe alguma); talvez a Universidade como espaço pensante e democrático que deve ser, possa me ajudar na busca por essas respostas e, principalmente, por soluções. Talvez isso faça você exigir mudança, ou ir à rua e aderir à micareta, ao bonde…

PS: sentiu empatia por este registro de incomodo ao status quo? Então vá para a “fase dois”, ouvindo um podcast sobre o mesmo assunto neste link aqui

Claudio Brites é colaborador do Blog de extensão da Cruzeiro do Sul e formado em Letras e Mestre em Linguística pela Universidade Cruzeiro do Sul. Atualmente é editor chefe da Terracota editora. Como escritor, já organizou coletâneas e publicou textos esparsos, além de um romance em coautoria, A Tríade. Seu romance, Talvez, foi contemplado pelo Programa de Ação Cultural – ProAC 2011 – da Secretaria Estadual de Cultura.

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