É pic, é pic, é pic, é pic, é pic…

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Regina Tavares

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em 03/jul/2015 - 16 Comentários

Por Regina Tavares

Exatamente hoje (3/7), o já considerado ‘cult’ De volta para o futuro completa 30 aninhos. Aclamado pelo público e pela crítica, o filme hollywoodiano “De volta para o futuro”[1], tornou-se, em plena década de 1980, um marco para a ficção científica. A concepção de uma máquina capaz de viajar no tempo reverenciava o ápice da humanidade e do domínio da técnica, assim como afugentava o temor pelo descontrole do tempo e pelo risco do esquecimento de determinados indivíduos e suas conquistas.

O empenho da ficção De volta para o futuro em retomar o otimismo prometido pela modernidade e corrompido por guerras mundiais, ameaças de aniquilação nuclear e destruições em massa, está explícito em seu título. Afinal, após viajar para o passado na intrigante máquina do tempo forjada em um notável De Lorean e vivenciar situações inusitadas e desafiadoras, coube aos personagens centrais retomarem o “tempo-presente” como desfecho da trama. Porém não um “tempo-presente” qualquer, e sim o “tempo-presente-futuro”.  O título “De volta para o futuro” parece expressar a crença de que o século XX seria o auge da modernidade.

de volta para o futuro
imagem: divulgação

Entretanto, as ressacas pós-Iluminismo e pós-Modernismo colocaram em dúvida as aspirações do domínio da tecnologia em favor da emancipação humana e aproximaram, progressivamente, o fantasma da opressão universal vivenciada nessa mesma época. Ao observar o mundo ao nosso redor e todas as suas idiossincrasias e injustiças, reconhecemos nossa barbárie ancestral e ficamos frustrados em admitir que nem a mais sofisticada das tecnologias garante a civilidade. Nesse sentido, talvez o futuro não seja tão evoluído, como julgávamos antigamente.

 

Boas férias!!!



[1] De volta para o futuro é um filme norte-americano, datado de 1985 e dirigido por Robert Zemeckis. A distribuição foi realizada pela Universal Pictures.

TONS DE CINZA

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Regina Tavares

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em 27/mar/2015 - 9 Comentários

por Regina Tavares

Após as mazelas desencadeadas pela Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), a população masculina se esvaneceu, o hemisfério norte careceu de reconstrução e “ELAS” foram convocadas a abandonar a condição exclusiva de donas de casa para se lançarem no mercado de trabalho sob o custo do preconceito, do assédio sexual, entre outras adversidades.

De lá para cá, alguns avanços fizeram o desafio feminino valer a pena. De acordo com o Ministério da Educação, aproximadamente 55% das matrículas em cursos superiores pertencem ao dito “sexo frágil” e 60% dos diplomas universitários são entregues a elas, por conseguinte. Com formação acadêmica acentuada é compreensível entender porque mais da metade das vagas gerenciais nas organizações já é ocupada por mulheres. Apesar da disparidade presente no campo da remuneração, entre 2000 e 2014, segundo o IBGE, o salário delas progrediu quase três vezes mais do que em relação ao dos homens.

Com a ascensão socioeconômica veio a autonomia e a reboque, a solidão. Já resulta em 48%, a porcentagem que representa o número de solteiras em solo brasileiro, que, aliás, vivem em média sete anos a mais que o sexo oposto. Sem a necessidade iminente de encontrar um varão capaz de sustentá-la financeiramente na posteridade, a mulher passou a selecionar seu parceiro de forma mais criteriosa e a cogitar o divórcio ou a infidelidade como situações corriqueiras. Até porque o domínio de sua sexualidade passa a ser uma premissa a partir da década de 1970.

Além disso, com 1,2 milhão de mulheres – entre 20 e 45 anos – a mais do que homens dando sopa por aí, no Brasil, a tendência é que o sexo em minoria, no caso os homens, incorra pela promiscuidade e poligamia.

A recusa em construir relacionamentos sérios por parte dos homens parece funcionar como uma mola propulsora para o perfil de uma mulher autossuficiente e imune aos caprichos masculinos. Daí uma indagação quase existencialista me ocorre: Por que será que uma trama na qual um sádico magnata submete uma virgem insegura a uma relação contratual de submissão e dominação, prazer e dor, romantismo e arrogância provoca recordes de leitura e bilheteria em pleno século XXI?

50 tons de cinza

Acredito que a trilogia de qualidade literária duvidosa da senhora E.L. James se explica como fenômeno pela sua notória contradição.

Não se trata, necessariamente, do interesse pelo tom erótico ou pela presença do sadismo. Este último, violento, porém sedutor. Trata-se, muito mais, da associação entre a figura de um homem sensual e apaixonante à figura tradicional do homem provedor da relação.

Perto da ficção, elas se sentiram atraídas em se projetar na típica mulher de um passado não tão longínquo e improvável. Longe da ficção, estas mesmas mulheres continuam negando a submissão aos homens e endossando o apreço pelas relações igualitárias. Assim como se acotovelaram para admirar o formidável olhar de Christian Grey em recorrentes big-closes, não medirão esforços para se render a outro conto de fadas que acabara de voltar à tona nos cinemas de todo o mundo: Cinderela.

cinderela

E antes que você nos julgue como inconstantes e indecifráveis, caro leitor, saiba que condenamos dualismos. Não admitimos respostas simplistas. Compartilhamos da ideia de que entre o preto e o branco, há pelo menos cinquenta tons de cinza.

Inté!

MUITO ALÉM DO OSCAR

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em 27/fev/2015 - 3 Comentários

Por Regina Tavares

A 87ª cerimônia do Oscar concedeu ao filme Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância o título de grande vencedor da noite, com quatro estatuetas, incluindo melhores filme, diretor, roteiro original e fotografia. O Grande Hotel Budapeste  também mereceu destaque nos autos da sétima arte, afinal rendeu outras quatro estatuetas: melhor figurino, melhor maquiagem, melhor design de produção e melhor trilha sonora.

Como em toda premiação do cinema mais prestigiado do mundo, sempre há buchichos e afins; isso inclui o encontro de ex-cônjuges, vestidos glamorosos, gafes, caras e bocas, injustiçados, azarões e blá, blá, blá… Mas, para não repetir o “mais do mesmo”, como sabiamente Legião Urbana proferiu ao intitular seu segundo álbum de coletâneas, que tal falarmos dos que não foram exaltados no reino das películas? Meu queridinho da vez é Big Eyes.

Durante muito tempo, a sociedade minimizara o papel da mulher como uma mera acompanhante de seu marido e profissional do lar. Na década de 1950, a mídia exaltava imagens da esposa dedicada e mãe exemplar, sempre à margem diante da grande figura do provedor e chefe da casa: o marido. Diante desse contexto é que se encontra a luta de Margaret Keane, uma pintora que ousara ser protagonista e não coadjuvante de sua própria arte e história. Baseado em fatos reais, esse é o roteiro de Grandes Olhos, o mais recente longa-metragem assinado por Tim Burton.

Em meados dos anos 1960, nos Estados Unidos, tem-se a fama do quadro dos Big-Eyes: tratava-se de pinturas de crianças com olhos enormes e melancólicos, bastante desproporcionais aos corpos pequenos e infantis presentes nas recriações. Walter Keane se dizia autor dos quadros que viraram febre americana: eram milhares de cartões, pôsteres e impressões das crianças de olhos perturbadores. Dessa forma, Keane construíra um império: sua galeria de arte rendera muita fama e dinheiro, uma vida regada de inúmeras festas com convidados do mais alto escalão de Hollywood. No entanto, o que ninguém sabia era da existência da verdadeira artista por trás dos Big-Eyes: Margaret Keane, esposa de Walter.

foto

Um dos grandes momentos do filme é quando uma moça pergunta curiosa: “E quem é o artista?”. Há um minuto de silêncio quase eterno entre Walter e Margaret, quando por fim, Keane toma à frente e diz: “Sou eu”. É neste momento que o espectador se pergunta: “Mas porque Margaret não disse a verdade?”. Além de sofrer ameaças por parte do marido, o mesmo a convence com argumentos em torno de ideias como “as obras não serão levadas a sério, caso souberem que são de autoria feminina”. Aí está uma das grandes críticas apresentadas no filme: o machismo era tão expressivo à época que chega a condicionar a mulher a assumir condescendentemente o papel de coadjuvante social.

Apenas anos depois, ao mudar-se para o Havaí e divorciar-se de Keane, a pintora decide contar toda a verdade à imprensa. Margaret fala ao mundo quem realmente ela é e nos faz relembrar a incrível epígrafe de Mary Daly: “A coragem de ser é a chave para o poder revelador da revolução feminista.”

Inté!

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Luz, câmera, imaginação

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em 24/out/2014 - 1 Comentário

Por Regina Tavares

O filósofo Walter Benjamim (*1892 – + 1940) disse um dia que a memória era a mais épica das faculdades. Ninguém entendeu muito bem naquela época, mas o que ele queria revelar é que quando se trata de memória, agimos como verdadeiros entusiastas, iluminando as lembranças com acréscimos dignos de roteiros ficcionais.

Graças aos avanços recentes da Neurociência, a tese de Benjamin acaba de ser confirmada, a memória humana é mesmo cinematográfica. Nosso cérebro privilegia o registro de experiências com forte apelo visual e as evoca como lembranças tal qual um roteirista hollywoodiano, inserindo trilhas-sonoras, acrescentando emoções diversas, cultivando enfrentamentos entre o bem e o mal e assim por diante. O mais interessante é que a cada rememoração, nossa mente cria novos roteiros para a mesma lembrança. Dá para deixar qualquer pescador de queixo caído. Sem dúvidas, lembrar não é reviver, é viver algo novo a cada recordação.

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Para o autor Antonio Damásio, respeitado especialista no assunto, “[...] se uma cena tiver algum valor, se o momento encerrar emoção suficiente, o cérebro fará registros multimídia de visões, sons, sensações táteis, odores e percepções afins e os representará no momento certo. Com o tempo e a imaginação de um fabulista, o material poderá ser enfeitado, cortado em pedaços e recombinado como em um romance ou roteiro de cinema” *.

A força simbólica da imagem é tão expressiva que também se acredita que certos momentos memoráveis preservados em nosso imaginário estão sob influência de determinados filmes, propagandas e até programas de TV. A imagem da família preservada na memória, por exemplo, nunca foi e nunca será construída exclusivamente a partir das referências que temos de nossa família real. Várias famílias coexistem no imaginário que temos sobre nossa família. Em nossa memória, portanto, convivem a família do comercial de margarina, a de Don Corleone, a dos Simpsons e sei lá mais o quê.

Há um livro que retrata bem o que estou falando, ambientado no Rio de Janeiro, Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, lançado em 1995, combina memórias e crônicas do autor, borrando os limites entre fato e ficção, ao rememorar o convívio do autor com o pai.

O livro é uma prova interessante de que, ao relembrar nossos pais, especialmente após a morte deles, é possível se deparar com uma “quase memória”; uma coleção de pais, inclusive, daqueles que protagonizam ficções que envolvem a terna e controversa relação com os filhos.

Inté!

* DAMASIO, A. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011 (p.167).

Qualquer semelhança, não é mera coincidência – Parte III

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em 06/jun/2014 - 1 Comentário

Por Profª Regina Tavares

Em nossa viagem aos primórdios do cinema, não poderíamos nos esquecer do matemático jesuíta Christoph Scheiner que, na tentativa de observar o sol com maior precisão, desenvolveu um artefato capaz de projetar imagens exatas da estrela central de nosso sistema solar. O artefato chamado de helioscópio não era inovador, mas sua adaptação e proximidade com um projetor de filmes, sim.

helioscópio

Scheiner chegou a trocar cartas com Galileu, no início de 1612, nas quais descreveu como tinha projetado as imagens do sol em papel branco usando uma espécie de câmera escura e espelhos planos, a fim de fazer reproduções bidimensionais. A projeção de tais imagens foi registrada em 70 gravuras que exibidas em sequência inspiraram animação; algo semelhante ao que vemos abaixo.

Scheiner

Tanto Scheiner como Galileu nem suspeitavam que a invenção do projetor ou da câmera nos levaria a um dos feitos mais encantadores da humanidade: a sétima arte. Ambos carregavam apenas a convicção secular de que o registro e a reprodução de imagens são necessidades essencialmente humanas e imutáveis. Nesse sentido, nossa semelhança com indivíduos de séculos anteriores não é uma mera coincidência.

Obviamente, o percurso feito nestes posts não é definitivo. Diversos autores interessados na antropologia da imagem já defenderam a origem do cinema em períodos anteriores aos apontados aqui no blog.

origem do cinema

Se procurarmos no fundo do baú, veremos que os primórdios do cinema podem até ser deduzidos a partir do movimento que as pinturas rupestres adquiriam quando iluminadas pelas fogueiras no interior das cavernas.  Afinal, as imagens antes fixas, quando clareadas pelas labaredas passavam a forjar movimento e animação, tal qual estamos acostumados a admirar nas grandes telas de cinema mundo afora.

Inté!

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