OS LÍDERES E A HISTÓRIA

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Renato Padovese

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em 27/ago/2014 - 1 Comentário

Por Renato Padovese

A morte trágica de Eduardo Campos provocou manifestações de pesar por todo o país, provocou lamentações pela perda de uma jovem e promissora liderança política e provocou, sem dúvida, uma reviravolta sem precedentes na eleição presidencial deste ano. Provocou também o jornalista André Petry a escrever um belíssimo ensaio na revista Veja sobre a influência dos líderes políticos nos rumos da história das nações. O texto foca mais na morte de líderes como eventos capazes de alterar o curso da história, como a do líder trabalhista John Smith que abriu caminho para Tony Blair sagrar-se o mais jovem primeiro ministro inglês desde 1812. Cita também o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, e a morte de Tancredo Neves, em 1985, que teriam levado o Brasil a desvios definitivos em seu caminho.

Para alguns pensadores, o líder é mero coadjuvante dos acontecimentos cuja ocorrência não se deve à influência pessoal, mas sim às condições econômicas e à força das massas. Outros, no entanto, acreditam que é preciso levar em conta também os valores, a cultura e a ética e, nesse contexto múltiplo, o papel do líder é, sim, decisivo para moldar a marcha da história. Para estes, a história do século XX, por exemplo, é resultado da influência direta de seis líderes: Vladmir Lenin, Josef Stalin, Franklin Roosevelt, Winston Churchill, Adolf Hitler e Mao Tsé-Tung. Sem eles, o século seria outro. E Petry lança a pergunta: quem está com a razão? Para colaborar com esta discussão, vou contar a história de um líder mesquinho e corrupto, cuja decisão está na raiz do problema que assistimos hoje: o confronto entre o Hamas e o exército Israelense que já matou mais de 2 mil pessoas.

Em julho de 2000, a Cúpula para a Paz no Oriente Médio, que reuniu o presidente americano Bill Clinton, o primeiro ministro israelense Ehud Barak e o presidente da Autoridade Palestina Yasser Arafat, chegava ao fim. Barak havia oferecido a Arafat cerca de 90% da Cisjordânia, a totalidade da Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental para a nova capital do futuro país. Além disso, seria constituído um novo fundo para indenizar os palestinos refugiados pela perda de suas propriedades. Foi a maior concessão já feita pelos israelenses, uma oportunidade histórica de encerrar o longo sofrimento do povo palestino. Para espanto geral, no entanto, Arafat recusou a oferta e exigiu o retorno dos refugiados aos territórios ocupados, algo que ele sabia que Israel jamais aceitaria. E para enfrentar as críticas e a pressão internacional contra sua posição, nada melhor do que derramar um pouco de sangue de inocentes diante das câmeras. Arafat articulou com o então incipiente grupo Hamas a organização de uma revolta popular contra a “ocupação e opressão israelense” e aguardaram apenas o melhor momento para dispará-la. A oportunidade surgiu em setembro daquele mesmo ano, após a visita do líder do partido conservador Likud, Ariel Sharon, a uma região próxima à Mesquita Al-Aqsa. A violência que se seguiu deu origem à Segunda Intifada Palestina, que se estendeu até 2006, deixando um rastro de quase 5 mil mortos.

A recusa foi catastrófica para o povo palestino, mas garantiu a Arafat a manutenção do status de símbolo internacional da vitimização, uma posição muito mais confortável do que ser responsável por construir uma sociedade funcional. Porém, ele logo descobriria que havia colocado o ovo da serpente. Em pouco tempo, o grupo terrorista Hamas se fortaleceu, expulsou seus correligionários da Autoridade Palestina e assumiu o controle da Faixa de Gaza, transformando a paz no Oriente Médio numa quimera. Agora responda: se Arafat tivesse decidido diferente, a história seria outra?

O FIM DA CAMISA CANARINHO

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Renato Padovese

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em 04/ago/2014 - 7 Comentários

Por Renato Padovese

Como escreveu a colunista do Estadão Dora Kramer, a Copa do Mundo de 2014 comprovou o óbvio: o prazo de validade das previsões, das catastróficas às mais otimistas, é ditado pelos fatos. Parecia claro como água que os atrasos nas obras, os gastos exorbitantes, os superfaturamentos, os improvisos da organização, além do histórico de maus serviços públicos e o clima tenso no país, não apontavam para um desfecho diferente de um desastre total. Nada disso. Os mais de 600.000 estrangeiros que para cá vieram ficaram encantados com nosso país e com o acolhimento e a alegria do nosso povo. Uma pesquisa do Datafolha revelou que 92% dos visitantes elogiaram tanto o conforto quanto a segurança dos estádios e que 95% avaliaram a hospitalidade dos anfitriões como ótima ou boa. Colaborou também a sucessão de jogos espetaculares e a exibição de gala de craques como há muito tempo não se via. Sem dúvida alguma, um retumbante sucesso.

brasil-bola

Da mesma forma, as expectativas otimistas em relação à conquista do hexacampeonato também não se confirmaram. A realidade tratou de demolir o prognóstico e a seleção brasileira protagonizou o momento mais vexatório de sua história ao ser aniquilada por 7 a 1 pela seleção alemã. Um placar jamais visto numa semifinal, impensável considerando equipes de ponta. A tristeza e a frustração geraram um festival de piadas que inundou a internet. A suprema humilhação brasileira rendeu 35 milhões de posts no Twitter, superando o recorde anterior de 24,9 milhões da final do Super Bowl no começo do ano. O grau de desespero e desorientação da torcida brasileira foi tamanho que já há quem acredite no fim da mística da camisa canarinho.
A icônica camisa da seleção brasileira simboliza a força do nosso futebol. E é curioso que ela tenha surgido após a nossa, até então, maior tragédia em campo, a perda da Copa do Mundo de 1950 para o Uruguai por 2 a 1 no Maracanã. O goleiro Barbosa acabou personificando o fracasso do time, mas sobrou até para o uniforme da seleção, uma camiseta branca com colarinho azul. Para o jornal carioca Correio da Manhã, o traje sofria de “falta de simbolismo moral e psicológico” e, com o apoio da Confederação Brasileira de Desportos, lançou um concurso para desenvolver um novo uniforme que deveria conter, necessariamente, todas as cores da bandeira brasileira. O vencedor foi Aldyr Garcia Schlee, um jovem de 19 anos, que trabalhava como ilustrador num jornal de Pelotas. A criação de Aldyr, a fantástica geração de Pelé e Garrincha e o advento da TV em cores ajudaram a construir o mito. Porém, aqueles quatro gols sofridos em apenas seis minutos parecem ter destruído nossa fortaleza.

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Ainda traumatizadas, as pessoas têm procurado um caminho para a recuperação do futebol brasileiro. Talvez o melhor e mais óbvio seja seguir aquele trilhado por nosso algoz, que reestruturou seu futebol após o fiasco da Eurocopa de 2000. Ideias mais criativas também têm aparecido, como a intervenção estatal proposta pelo Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, e a possível criação de uma “Futebolbrás” para “modernizar” nosso futebol. Na minha singela opinião, devemos repetir o que já se fez com sucesso no passado, ou seja, substituir o uniforme da seleção brasileira e acabar de uma vez por todas com essa infame camisa amarela. Para não perdermos tempo, sugiro adotarmos o segundo colocado do concurso do Correio da Manhã, concebido por Nei Damasceno: camiseta verde, shorts branco e meias amarelas.

Bye Bye Brazil

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Marcelo Paes Barros

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em 25/abr/2014 - 6 Comentários

Por Prof. Marcelo Paes de Barros

the_economist_Brasil

A figura ilustrativa desta matéria apresenta duas capas da revista “The Economist”: à esquerda, de uma edição em 2008 e, à direita, do final do ano de 2013. As reportagens – que mereceram a capa da revista nos respectivos anos – descrevem, de maneira tragicômica, o enorme fracasso econômico brasileiro frente às enormes perspectivas mundiais previstas há 5 anos. Como a primeira letra do acrônimo BRICS, que se refere aos atuais países emergentes, o Brasil nunca apresentou resultados solidamente indicativos de pleno desenvolvimento econômico, balanço comercial (e estabilizado) positivamente ou proeminentes superávits, embora o investimento exterior tenha apostado muito nisso. A aposta internacional no mercado brasileiro se deve, em geral, ao fato de que os brasileiros:

(i) são consumidores vorazes, principalmente de produtos supérfluos e itens de estética e luxo; (ii) são complacentes e coniventes, sem protesto, de preços abusivos por itens que custam até 60% menos em países vizinhos, como automóveis, passagens aéreas, etc.;

(iii) acima de tudo (para plena satisfação do empresariado), não vão atrás de seus direitos como consumidor quando são mal atendidos ou enganados, algo que conjumina com a morosidade da justiça em favor à política do “resolvemos se reclamarem” aplicada por várias empresas no Brasil.

Além das irrefutáveis desilusões econômicas, o Brasil também não conquistou melhores índices de desenvolvimento humano (IDH) ou índices de Educação Básica (Matemática, Ciências ou Interpretação de Textos/Língua Portuguesa) nestes cinco anos. Muito pelo contrário. Em função de insuficiente investimento na formação dos jovens no Ensino Fundamental e Médio, o Brasil hoje se defronta com uma massa de trabalhadores habilitados no papel (diploma), mas efetivamente analfabetos funcionais para as tarefas às quais foram teoricamente preparados. E nada disso mudará para as próximas turmas de formandos.

Por quê perdemos essa propulsora onda econômica? Infelizmente, meus amigos, por que no Brasil o planejamento é algo subvalorizado. Improvisar, remediar ou botar panos quentes são práticas frequentemente aplicadas, pois estão incrustradas na filosofia de vida da maioria dos brasileiros. A corrupção e suas vertentes nefastas como o apadrinhamento, o corporativismo e desprezo à meritocracia são, a meu ver, as piores mazelas do desenvolvimento brasileiro.

Rever programas humorísticos dos anos 80 (p.e. Viva o Gordo, Chico City, etc.) é, para mim, mais angustiante do que nostálgico. A estagnação perene do País fica explícita pois claramente percebemos que aquelas mesmas piadas de 30 anos atrás podem ser reproduzidas hoje, sem mudar sequer uma vírgula! Desde que adquiri certa consciência civil, me angustio diariamente ao testemunhar os crimes de corrupção e de desvio de verbas da Educação nos jornais matinais.

O povo brasileiro é egoísta e desprovido de senso de comunidade, dizem os antropólogos. Cada um olha para seu próprio umbigo, arrematam estes estudiosos. Segundo estudos sócio-políticos, esse comportamento individualista do brasileiro se deve a alguns fatores interessantes:

(1) como um País tropical, “aqui plantando, tudo dá”! Há, no Brasil, uma inacreditável abundância de recursos naturais e produtos alimentícios. Nunca, de fato, tivemos que fazer qualquer racionamento ou passamos por catástrofes ambientais suficientes para afetar o provimento de alimento à população, como um todo. Claro, sérios problemas, anos a fio, no sertão nordestino, mas votos de cabresto, evasão rural e coronelismo têm abrandado bastante o problema (leia com tom extremamente irônico aqui). Veja a tamanha diferença ao compararmos as mazelas das populações europeias que, historicamente, foram alimentadas à base de batatas por séculos e séculos!

(2) nunca passamos por uma guerra avassaladora, a qual exigisse a união do povo – portanto, um forte espírito coletivo – para a reconstrução do País. Mirem-se, meus amigos, nos exemplos do Japão e da Alemanha. Por força do destino, esses povos primam pelo planejamento, pela organização e pela força do trabalho. Cada um fazendo a sua parte na sociedade e, em conjunto, estruturando o progresso e bem-estar. Mesmo com fortes crises econômicas mundiais, esses países oscilam mas sempre retornam à frente das economias mundiais.

(3) nossos colonizadores, os portugueses. Infelizmente, os portugueses viam o Brasil como um enorme terreno a ser explorado e extirpado. Não digo que os ingleses e holandeses não tinham as mesmas perspectivas colonizadoras, mas primaram pela estruturação de suas colônias para usufruírem de melhores condições no futuro também. Planejamento é a palavra de ordem aqui.

Mas quem somos nós, prezados leitores? Somos formigas quase afônicas protestando mas sufocadas por uma multidão que grita “Gol!” ou que vibra quando a personagem coitadinha finalmente dá um tapa na cara da sua vilã (isso, por volta das 21.30h, em um fatídico dia da programação de uma grande emissora de TV).

Somos um grupo de pessoas mais esclarecidas tentando se fazer ouvir em um País miserável de cultura e de senso civil. Não somos o Brasil. Somos a exceção, o ponto fora da curva. Conformem-se com isso ou tentem, ao menos, fazer a sua parte. Não sucumbam a seus valores éticos, ao senso do que é certo ou errado e propaguem esse princípio a seus amigos, parentes e principalmente, a seus filhos. Quem sabe um dia?

Triste, despeço-me.

ABC do futebol

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Regina Tavares

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em 10/jun/2013 - 4 Comentários

Não vou marcar toca; iniciarei meu discurso entrando de sola. O post de hoje é sobre futebol. Espero não pisar na bola em um assunto tão querido entre os pares ‘deste solo és mãe gentil’. Pretendo vestir a camisa e vencer com maestria esta partida, assim como o professor me ensinou. Mas como o futebol é uma caixinha de surpresas, caso tudo dê em zebra, prometo pendurar minhas chuteiras e não macular mais este sagrado território para o clube dos bolinhas.

Não é segredo para ninguém que a Copa das Confederações servirá de amistoso para a Copa do Mundo em diversos setores. Todos estão de olho no desempenho do Brasil diante da aplicação dos rigores do padrão ‘Fifa de ser’. Daí um bola fora ou uma bola dentro envolve a credibilidade do país no mata-mata mundial de 2014. Incontáveis produtoras e emissoras de TV de toda parte do mundo já estão em solo brasileiro pesquisando e documentando em vídeo a tríade perfeita: Brasil, futebol e cultura. Querem saber como temos os melhores jogadores do mundo, os torcedores mais aficionados e a paixão futebolística arraigada em nossas entranhas sem o mínimo de padrão Fifa. Eis a questão, diria Hamlet. Trata-se de uma incógnita existencialista sem respostas plausíveis; é o jeito brasileiro de ser. O que dizer de um país que fala o tempo todo ‘em’ e ‘com’ futebol. Para atestar o que digo veja quantas expressões desta paixão nacional estão no vocabulário do brasileiro e consequentemente neste texto.

Aparentemente demos uma chapuletada no placar; a primeira partida no novo ‘Maraca’ contra a Inglaterra superou as expectativas. Depois de receber uma liminar nos 45 minutos finais do segundo tempo questionando irregularidades na reforma recente, o Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo, o governo do estado do Rio de Janeiro e a CBF deram conta do recado. “Nada de abrirmos o bico!”, diriam os cartolas.

É, para o bem ou para o mal, parece que chegou a hora de parar de imaginar…

Inté!

Meu caro amigo

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Regina Tavares

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em 29/ago/2012 - 11 Comentários

Suas canções atuam como seres caprichosos e autônomos na história da música popular brasileira. Ele já foi exilado de seu país, execrado pela imprensa e exaltado pelos fãs. Estamos falando de Francisco Buarque de Hollanda; o compositor, intérprete e literato Chico Buarque. A máxima “tal pai, tal filho” cabe perfeitamente aqui, afinal Chico é o quarto dos sete filhos do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda e da pianista amadora Maria Amélia Cesário Alvim.

Como se deve imaginar o envolvimento com a cultura se deu de forma natural e intuitiva, apesar de competir, em pé de igualdade, com o apreço do menino Chico pelo futebol. Já na década de 60, então universitário, inicia sua carreira musical e se encontra com futuros nomes da MPB, como Caetano Veloso. Em 1966, vence o II Festival de Música Popular Brasileira e lança seu primeiro disco. É nesse clima de prosperidade que entra em desalinho, pela primeira de muitas vezes, com o regime militar vigente no país. Suas músicas ganharam repercussão extraordinária diante das artimanhas linguísticas presentes em suas letras; verdadeiros dribles criativos contra a censura imposta aos artistas da época.

Em 1969, inicia autoexílio na Itália e retorna ao Brasil em 70 com a gravação da música Apesar de você; um sucesso consensual. Mas a censura não tardou a lhe bater à porta e os seus discos foram banidos do mercado. Sua personalidade artística inquietante também eclodiu em peças teatrais célebres, filmes memoráveis e obras literárias não tão festejadas pela crítica.

Atitudes contestadoras em relação ao status quo o colocaram como pivô de episódios emblemáticos, como quando rompeu com a Rede Globo, nos anos 70, na preparação do VI Festival Internacional da Canção ou em 1978, quando foi detido pelo regime militar ao retornar de uma viagem à Cuba. Já na redemocratização do país em 1984, foi um dos maiores incentivadores da campanha Diretas Já.

Hoje, em 2012, Chico Buarque festeja os 50 anos de sua carreira como um poeta de seu tempo e sensível conhecedor das desventuras femininas, cantadas em verso e prosa em suas canções. Receba nossos parabéns, meu caro amigo.

Inté!

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