Que o Brasil é o país do futebol, todos sabem. Contudo, o nosso senso de vitória neste esporte parece um pouco deturpado. Ultimamente, tenho lido inúmeras matérias sobre a recente “Geração Perdida” do futebol brasileiro. Segundo estes críticos, um dos nossos recentes escretes verde-amarelo estaria claramente fadado à derrota, sendo liderado por Kaká com a colaboração de jogadores de prestígio internacional como Robinho, Maicon, Daniel Alves, Júlio César e até outros já descartados da Seleção Brasileira, como Diego (ex-Santos). Toda essa onda derrotista simplesmente por dois pseudo-fracassos nas Copas do Mundo FIFA de 2006 e 2010.

Estes jogadores possuem destaque internacional e, sem sombra de dúvidas, coletam títulos importantes em seus clubes. Mesmo no contexto nacional, o Brasil foi, com estes jogadores, bicampeão da Copa das Confederações FIFA (Alemanha/2005 e África do Sul/2009), bicampeão da Copa da América e, mesmo com as derrotas nas últimas Copas FIFA, nunca abandonou o Top 5 do Ranking de Seleções da FIFA desde 1993 (exceto em Setembro/2008 quando ocupou a 6ª. posição).

Infelizmente, no futebol brasileiro (ou será no espírito comum dos brasucas), prepondera o princípio de Piquet (ex-piloto de Fórmula 1): “ O vice-campeão nada mais é do que o primeiro lugar dos derrotados”. Seguindo este princípio, não há qualquer valor para outras colocações a não ser a vitória ou a medalha de ouro. Sob essa (absurda) retórica, existe também no Brasil um verdadeiro e ilógico carrossel de treinadores de futebol que, conforme “fracassam” em uma equipe, são demitidos e, curiosamente, reciclados às vezes para a equipe rival como salvadores-da-pátria. Vale salientar que estas demissões não levam em conta qualquer análise de aproveitamento da equipe em termos de % de vitórias, ou médias de gols marcados ou tomados durante a gestão daquele treinador. As demissões são alavancadas por uma percepção empírica de um insucesso (um 3o. ou 4o. lugar em um campeonato ou, às vezes, até o vice-campeonato), a pressão descabida da torcida, ou por “forças ocultas” que , curiosamente, também parecem interferir em vários outros setores da sociedade brasileira. Em países com uma tradição esportiva mais denotada, os técnicos (extremamente capacitados, diga-se de passagem) são como símbolos das equipes e agregam suas características de comando ao perfil do time por décadas. As mudanças de treinador ocorrem de maneira mais controlada e não são banalizadas como por aqui. Gostaria de citar um exemplo: o técnico Jerry Slohan, da equipe de basquete do Utah Jazz (NBA). Jerry Sloan permanceu na liderança do Jazz por 22 anos sem sequer ganhar um título. Contudo, seu escore de vitórias/derrotas foi de 1221/803 (60,3%), que lhe tornou o 3o. maior vencedor da história da NBA. Foi às Finais da NBA por dois anos seguidos (1997 e 1998), mas perdeu para o Chicago Bulls de Michael Jordan e Cia. Seu nome é reverenciado em todos os jogos da equipe do Jazz até hoje (veja vídeo anexo, em Inglês). Respeito e consideração pelo bom trabalho e dedicação, simples assim…

4 respostas para “CARROSSEL DE TÉCNICOS”

  1. Renato Padovese disse:

    Caro Marcelo, no futebol, poderíamos citar o exemplo de Alex Ferguson, há 25 anos como técnico do Manchester United, que, por sinal, foi vice-campeão da copa da europa. Aqui no Brasil, parece uma estratégia adotada pelos dirigentes, ou seja, eles permanecem, enquanto os técnicos são rifados. E estes parecem adaptados ao sistema, porque sabem que serão aproveitados em outro time, dando sequencia à ciranda. Na verdade é uma ilusão, nada muda. E os torcedores também cumprem o seu papel: pedem a cabeça de um e festejam a chegada do outro. Um abraço, Renato.

  2. Adriano Sartori disse:

    Muito bom o texto. compartilho da mesma opinião. No futebol temos o exemplo do Alex Fergunson no Manchester United. Infelizmente isso é cultural por aqui. Se um técnico, ou melhor, a equipe derrapa em algum torneio a pressão aumenta e a toe…cida “exige explicações”. ao invés da diretoria do clube melhorar técnicamente a equipe e dar respaldo para o treinador, prefere mandar o treinador embora, pois é mais fácil, menos caro e contenta o torcedor ávido por mudanças!!

  3. Marcelo Barros disse:

    Bem lembrado, Renato.
    O Alex Ferguson, em termos continentais, conquistou a Champions League em 1999, durante estes 25 anos à frente do MAnchester United. Aqui no Brasil, isso não seria suficiente. Muito pelo contrário, após uma campanha fabulosa, o Fluminense foi campeão brasileiro em 2010 e o Muricy não aguentou a pressão por resultados “não tão” expressivos na sequência de jogos… que culminaram com a perda da Copa Sul-Americana.

  4. Marcelo Barros disse:

    Olá Adriano,
    Concordo contigo. A ciranda de técnicos atualmente também manda nossos técnicos para o Oriente Médio, principalmente para o Catar e os Emirados Árabes. São quantias monstruosas mas que impõem mudanças brutais nos hábitos diários (para os técnicos e suas famílias). Recentemente até o Maradona foi contratadopor lá… ABRaço

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