Criou-se, nesta semana, uma grande polêmica em relação ao uso de outras variações lingüísticas (culta e coloquial) em livros didáticos. Algumas pessoas, a maioria não especialista em língua, saiu em defesa do uso somente da chamada norma culta, língua exemplar ou padrão em função das futuras exigências que serão realizadas em vestibulares ou concursos que os estudantes possam vir a prestar.

Alguns professores que trabalham com variação tentaram explicar a diferença entre língua oral e escrita, apontando, inclusive o caráter multifacetado e heterogêneo da realidade linguística. No entanto, parece-me que as pessoas não estão entendendo muito bem o que foi dito por eles.

Pergunto eu, todas as pessoas que criticam o livro que aborda a questão levantada sobre a linguagem coloquial, já foram ao cinema? E lá, assistiram ao filme, ou o filme? Em todos os lugares em que vou por esse Brasil, dificilmente ouvi alguém dizer: “assisti ao filme”, lembrando que assistir no sentido de “ver” é transitivo indireto. Eu poderia dizer “assisti o doente”, ou seja, prestei assistência a ele – aqui sim um objeto direto como complemento do verbo.

Livros didáticos, como o próprio nome indica, devem ser preparados para ensinar algo. Todo conteúdo arrolado neles tem uma intencionalidade. E deve servir a um propósito educativo. O exemplo dado “mas eu posso dizer os livro” é um enunciado que se ouve muito, assim como “vinhemo”, “vortemo”, questões que fazem parte da oralidade de comunidades linguísticas.

Acho que irei ao cerne da questão, fazendo uma pergunta e tentando respondê-la ao mesmo tempo. Para que se ensina Língua Portuguesa a falantes dessa língua? Se ao me comunicar, atendo as necessidades de interação, pois sou falante de uma língua, não precisaria estudá-la, pois já a conheço. Na verdade, ao estudar a língua materna na escola, o aluno está justamente refletindo sobre uma de suas variantes – a de prestígio, ou seja, a norma culta. Por quê? Para conhecer as diversas realizações linguísticas possíveis em seus variados contextos de produção, com a finalidade de interagir sem ser discriminado. Evanildo Bechara, em seu livro Gramática: opressão ou liberdade, acentua que a escola deve preparar o aluno para ser um poliglota da sua própria língua, é isso.

Em relação ao livro didático, objeto da polêmica, parece-me que ele não diz que o estudante deva escrever daquela forma, mas que ela é uma realização possível dentro da língua. É importante que o conteúdo deixe explícito, inclusive, a possível discriminação que ele sofrerá, dependendo do lugar (contexto) em que realizar aquele enunciado.

Não há o bom ou o mau português, como dissemos no início há variações linguísticas que devem ser respeitadas enquanto manifestações de língua que surgiram na formação da Língua Portuguesa no Brasil por uma série de questões que não caberia nesse momento discutir.

Para evitar qualquer problema de ações futuras, devido aos exames que os estudantes poderão realizar, basta em todos os editais explicitar qual será a variação linguística objeto da prova. Uma vez explicitada a questão, vale o que meu avô dizia: “o acertado não sai caro”.

16 respostas para “VARIAÇÃO LINGUÍSTICA EM LIVRO DIDÁTICO: O QUE FAZER”

  1. Nilda Brandão disse:

    Estou acompanhando a polêmica como leiga, apenas como mãe, brasileira e falante do português. Lembro quando aprendi a ler. Quando as letras fizeram sentido e eu conseguia, sem ajuda de ninguém, ler as placas nas ruas, os cartazes, os nomes das ruas… Foi aquele momento de euforia que experimentamos quando aprendemos algo novo e encantador. Eu lia tudo em voz alta! E me sentia a tal quando os adultos elogiavam minha façanha intelectual. Meu filho, quando aprendeu a ler, fez igualzinho a mim e desconfio que com todas as crianças do mundo seja assim. A escola me ensinou a ler e também me ensinou que algumas palavras eu não pronunciava corretamente e assim eu fui enriquecendo meu vocabulário. Não é assim com todo estudante? Não somos colocados na escola para aprender que “é claro que eu posso falar os livro”, na verdade, eu falo “os livro” por vícios de linguagem que deveriam ser corrigidos pela escola.
    Minha indignação com esse livro didático nem foi ele explicitar que existe português culto e português popular, isso, o Museu da Língua Portuguesa já o fez na sua maravilhosa exposição MENAS, meses atrás. O que me deixou triste, foi a forma como esse livro abordou o assunto, defendendo que o aluno poderia sofrer “preconceito linguístico”, e em outra situação, afirmando que classes menos favorecidas usam a norma popular e classes mais favorecidas usam a norma culta.
    Como se não fosse ruim o suficiente, ainda fica a impressão que pobres não precisam aprender a norma culta, isso é coisa de pessoas ricas.
    Sou totalmente contraria à adoção deste livro por escolas. A criança deve entrar na escola para aprender a norma culta. Ela mesma, sozinha, tem discernimento para perceber as diferenças de linguagem. E aqui, cabe um parênteses, Professores de português devem ensinar português, e deixarem as aulas de linguística para os professores de línguas.

    • Carlos Andrade disse:

      Olá Nilda,

      Em primeiro lugar quero agradecer pelos seus comentários. É bom saber que as pessoas estão preocupadas com a educação de seus filhos. Fico feliz quando vejo a família acompanhando o processo educativo. Gostaria de dizer que sou favorável ao livre pensamento e que podemos gostar ou não de determinadas questões que são propostas pela escola. Por isso, até entendo sua indignação em relação a questão. No entanto, não posso deixar de dizer que já se fala sobre preconceito linguístico há muito tempo. Um de nossos especialistas na questão, o Prof. Marcos Bagno, dedicou várias publicações para discorer sobre o assunto. Um livro que mostra bem a questão de uma forma muito pontual é “A Língua de Eulalia: uma novela sociolinguística”. A obra discute as variações linguísticas, monstrando que em toda a sociedade existe determinadas construções em relação à língua que são motivadas por diversos fatores que vão desde o próprio saber linguístico aos saberes chamados enciclopédicos (conhecimento de mundo), indico sempre a leitura dessa obra, para que se possa compreender a proposta pedagógica das próprias diretrizes curriculares nacionais. Discuti-se muito a modalidade oral e a modalidade escrita da língua e as formas de uso, nos diversos contextos de produção.
      Retomo o que procurei salientar, não se ensina Língua Portuguesa a falantes de português. As crianças entram na escola para aprender uma das variantes do português que é a chamada variante da norma chamada de culta ou de prestígio. Toda proposta pedagógica de qualidade trabalhará sempre com a preocuapação de mostrar o que é da língua popular e o que é da norma, procurando desenvolver atividades para que os alunos aprendam o que é valorizado pela norma. O que não se pode fazer é desvalorizar as crianças que chegam na escola com falares diversificados, dizendo que elas estão erradas. O que elas dizem, por certo, aprenderam em uma determinada comunidade linguística, ou seja, falamos o que ouvímos, nossa memória vai registrando todas as estruturas que fazem parte do nosso dia a dia. Portanto, expressões como “os livro…, assisti o filme, entre outras estão presentes no cotidiano. A escola deve mostrar as crianças que existe uma norma é que ela dá prestígio aos seus falantes e escritores, portanto devem observar o lugar da produção de texto (oral ou escrito), para ser um poligota da sua própria língua como bem disse Evanildo Bechara.
      Grande abraço

  2. Renato Padovese disse:

    Obrigado, prof. Carlos, por lançar um pouco de luz nesta discussão. Sempre que se fala em qualidade da educação, as discussões são apaixonadas e, muitas vezes, pode-se não analisar uma questão em toda sua complexidade. Neste caso, também não ajudou a forma como a imprensa tratou o assunto. Um abraço, Renato.

    • Carlos Andrade disse:

      Olá Prof. Renato,

      É isso, infelizmente, vivemos um período em que o sensacionalismo traduz pontos na audiência e joga-se com isso, sem procurar elucidar as questões com especialistas.
      Como disse para a Nilma, um livro bem interessante que trata a questão de forma simples é “A língua de Eulália: uma novela sociolinguística” do Marcos Bagno. Indico para todos que desejamm fazer uma leituar prazeirosa e aprender um pouco sobre sociolinguística.
      Abraços

  3. Rosângela Marcato Pinto disse:

    Ouvi muita crítica a respeito desse assunto na sala dos professores, na escola onde leciono.Posso garantir que não ouvi um professor sequer pronunciar suas palavras sem ter cometido uns três “erros”, pelo menos. Acredito que o que falta é informação. Ainda estamos muito “apegados” ao ensino tradicionalista, aquele que privilegia (e não previlegia, como todo mundo costuma DIZER)a gramática e todas as suas regras, sem considerar as situações concretas de interação verbal. Se a língua é o maior patrimônio cultural de um povo, sua diversidade também está incluída. Tenho abordado em sala de aula as variações linguísticas, e os alunos entendem perfeitamente todas as situações de uso. O que precisamos entender é que, quando abordamos o assunto “variações linguísticas” e “níveis de linguagem”, estamos nos referindo às situações de fala, e não de escrita.

    • Carlos Andrade disse:

      É isso Rosângela,

      Você disse com objetividade tudo. Há um grande apego ao ensino tradicional, ou seja, ensinar língua, ensinando gramática da norma, classificações de uma forma geral. O ensino de língua distanciou-se de questões de interpretabilidade por meio da leitura e de produção textual. A presença do ensino da gramática da norma é fundamental, mas como suporte para o desenvolvimento textual dos alunos. E como você disse muito bem, ao abordar questões de variação linguística estamos falando da oralidade e não da escrita.
      Abraços

  4. Vivian Fiori disse:

    Ola prof. Carlos,

    Eu gostei muito de seu texto. Não sei se você pode me responder, mas gostaria de sua opinião sobre o fato que temos aulas de Língua Portuguesa desde o primeiro ano do Ensino Fundamental e mais no Ensino Médio. Temos uns 12 anos de Português, no entanto, cada vez mais verificamos que ao escrever todos têm enorme dificuldade (eu também tenho várias, não estou isenta de ser mais coloquial do que culta risos…) Já ouvi dizer que atualmente houve uma popularização do Ensino e essa situação ocasiona maiores problemas, acho a visão muito simplista. Antigamente também havia pobres estudando e em geral eram alfabetizados e aprendiam o básico para se comunicarem mesmo com Ensino Fundamental incompleto. Não sou estudiosa do assunto, mas em princípio parece-me que melhoraram as estratégias de ensino mas faltou o que então?

    • Carlos Andrade disse:

      Oi Vivian,

      Grato pela participação. São muitas as questões que atuaram para que a qualidade do ensino diminuísse. Temos de lembrar que nem sempre a escola foi para todos. Ela já foi para uma elite, poucas pessoas de uma camada menos favorecida da população chegavam aos bancos escolares e muitas vezes quando chegavam não conseguiu terminar o curso. Não é possível discorrer sobre todas essas questões aqui, mas uma delas que você mesmo cita é a da massificação. Foi muito importante abrir as escolas para que toda a população tivesse acesso, principalmente, no ensino fundamental e médio. No entanto, nem as escolas e nem os professores estavam preparados para receber toda a diversidade que passou a frequentar os bancos escolares. Foi necessária uma formação mais rápida dos profissionais, para que eles pudessem assumir as aulas rapidamente nas diversas escolas criadas. Sem um acompanhamento pedagógico adequado, a qualidade deixou de ser observada e chegamos aos tristes números que temos hoje em relação às avaliações sobre a educação. Para melhorarmos as estatísticas de alfabetização, criamos os analfabetos funcionais. Essas questões são bem complexas em relação a educação como um todo. Mantendo uma educação massiva, com as mesmas estratégias de sempre será muito difícil, ou quase impossível mudar o quadro.
      Esses problemas atingem também o ensino de língua. Como você disse, depois de 12 anos praticamente de ensino de Língua Portuguesa muitas pessoas sentem dificuldade na hora de produzir seu texto. Independente da polêmica que se elvanta em relação ao livro mencionado em meu “post”, fica uma questão: todas as pessoas que hoje escrevem estudaram por outros livros que podem até ser considerados “melhores”, e isso não mudou o resultado das nossas avaliações. Acho que o problema é outro, mas para escondê-lo, muitas vezes, busca-se o chamado bode expiatório.
      Abraços

  5. Renato disse:

    É com grande frustração e pasmo que escrevo as linhas a seguir…

    … Eis um assunto humilhante a milhares e milhares de brasileiros. Tomara que os cidadãos de Portugal não vejam isso.
    Como o MEC pode ensinar aos alunos que as regras gramaticais são irrelevantes? Como muitos disseram, eu concordo com a idéia de que essa forma de ensinar é um paternalismo desacerbado. Já que não conseguem fazer com que a educação progrida (pelo contrário nossa educação só regride) acharam o caminho “mais fácil” para sanar os problemas com a educação. Agora todos aqueles que falam e escrevem errado estão corretos, como truque de mágica. O que me causa estranheza é o fato de que o Lula (na época em que era presidente) se sentia perseguido por falar errado, portanto o Lula não cometia erros crassos de português, ele “coitado” foi perseguido pela “Elite”.

    Nas próximas pesquisas educacionais haverá um espetacular aumento no nível intelectual do brasileiro, ninguém mais nesse Brasil falará ou escreverá errado, o que haverá será uma grande “variação” da nossa língua. Até porque “nóis estamo tudo certo”.

    Em minha opinião, essa medida irá afetar os alunos mais carentes, ou seja, as crianças mais pobres deste país, assim se tornarão cada vez mais dependente do programa “fome zero”. Serão incapazes de corrigirem os próprios erros. O governo entregou os alunos a própria sorte. E fica evidente quando o MEC evita corrigir o aluno deturpando a noção do certo e do errado ao preferir a visão paternalista. Estamos querendo resumir tudo à ignorância.
    Portanto eu pergunto alguma escola privada adotará tal ensino? Que chances profissionais terão os alunos de ensino público? Pois os alunos abastados oriundos de escola de boa qualidade terão aprendido a língua oficial. Caso o selecionador pegar as avaliações e numa delas conter as seguintes expressões: “os o livro”, ou “nós pega o peixe”, qual será as considerações que ela fará? Ele irá considerar que tal candidato é “vítima de preconceito lingüístico” como é dito no livro? Ou vai perder sumariamente a oportunidade do emprego? Não estamos discutindo somente um ponto de vista, mas sim estamos diante do futuro das nossas crianças, futuro do Brasil.
    Povo sem cultura ou cultura muito “flexível” é tudo o que quer a classe “diferenciada” e política instalada há 500 anos no Brasil. Essa é a arma que eles utilizam para manter seus muros gigantes, cabrestos e feudos políticos. Talvez por isso queiram enfiar em nossas cabeças que “nós pega peixe”. Só se esquecem que nós também “pensa”, que nós também “luta”.
    Eu neste momento me sinto frustrado por estudar na Unicsul, pois nesta existe pelo menos um professor que corrobore com o “Ministério da Burrice Instituída”. Algumas outras Universidades (São Judas, Mackenzie, Uninove, Unip e Unicid e etc) comentaram sobre o assunto, e me encheram de esperança a forma como seus professores foram contra o livro didático “Por uma vida melhor” (Por uma vida melhor?! que contraditório não?) e são a favor de uma classe educacional mais forte em seu âmago.

    Obs. Professor se quiser fique a vontade de corrigir meus erros de português, pois não é com o paternalismo barato que irei progredir. Essa faceta da vida pública do Brasil quase fui vítima, e não é aqui na Unicsul (Universidade ao qual detenho grande carisma) que gostaria de ser. Até porque como também dizia (errado, porque não aprendeu o certo) meu avô. “O Acertado não sai caro!”

    • Carlos Andrade disse:

      Oi Renato,

      Em primeiro lugar quero dizer que estou feliz por ler seu comentário. Isso mostra que podemos ter nossas opiniões e isso é fundamental para uma democracia. Gostaria, no entanto, de apontar alguns equívocos que você registra em seu texto. Não estou falando, aqui, em correção da norma, ok? Esse é um ambiente mais livre, no qual, o coloquial e o padrão se misturam.
      Comecemos pelo seu “nois estamo tudo certo”. Pode parecer brincadeira para você, mas já ouvi muitos falantes de português dizer essa expressão. Ela existe na oralidade e está no contexto linguístico do português no Brasil que é diferente do contexto linguístico do português de Portugal. Basta lembrarmos de que os dois países sofrerem influências linguísticas diferentes em seus processos de colonização. Se essa é uma expressão que existe, cabe a escola mostrar que ela é de natureza coloquial, apresentando aos alunos o que diz a “norma” sobre a questão. Assim, a escola estará possibilitando que todos os estudantes conheçam as diferentes realizações linguísticas e possam caminhar por elas.
      Outro equívoco que você comete é dizer que o MEC permite ou evita a correção do aluno. A imprensa e a mídia em geral, de uma forma sensacionalista, algo muito presente nos dias de hoje, basta ver quando de ibope tem o bigbrother, deixam de se aprofundar no assunto para tratá-lo sempre na superficialidade. Essa questão é problemática, pois arrebata a população para uma discussão periférica, deixando de lado questões muito mais centrais em relação à educação no Brasil. Temos de ter cuidado com pão e circo. Somos inteligentes e devemos mastigar bem antes de engolir. Você tem usado de algo que gosto em seus cometários, a dialética. Não sei se você sabe, mas esse princípio foi muito usado pelos gregos e chegou à sociedade ocidental por meio deles. Trata-se de contestar para discutir, elaborando argumentos. Não como um jogo, para ver quem ganha e quem perde, mas para todos ganharem pela aprendizagem democrática. Assim, uma tese pode ser ou não modificada. Hoje esse procedimento é pouco usado na educação brasileira. Alguém diz algo, e apenas usando o senso comum, sem se aprofundar nos assuntos, um grande número de pessoas passa a defender uma ideia que pode ser equivocada. Continue debatendo, isso é muito importante.
      Outra questão que você aponta e que eu tenho uma posição diferente é em relação à cultura. Não existe povo sem cultura. Existem culturas diferentes. Mais uma vez uma discussão superficializada.
      Sinceramente, no que você disse em relação a mim, não fiquei nenhum pouco chateado pelo fato de dizer que minha opinião é diferente das colocações feitas nas instituições citadas. Fiquei até feliz. Quero deixar bem claro que não as li, portanto não posso fazer, nesse momento, nenhum comentário, não seria ético e nem acrescentaria nada à discussão. Quero, simplesmente, reforçar a ideia de que fico feliz em estar na Cruzeiro do Sul, e desenvolver meu trabalho de ensino, pesquisa e extensão nma instituição plutral.
      Algumas indicações bibliográficas sobre as questões apontadas aqui: BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: uma novela sociolinguística. 12. ed. São Paulo: Contexto, 2003 e SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. São Paulo: Brasiliense, 2008. São livros que registram algumas consideraçõse inciais sobre os problemas debatidos.
      E, para terminar nosso papo, quero dizer que o seu texto é bom; apesar de alguns deslizes em relação à “norma”, pude compreender perfeitamente o que quis dizer”. Lógico, em aulas de Língua Portuguesa poderíamos melhorá-lo. Não há perfeição, sempre é possível melhorar.
      Abraços e continue conosco.

  6. Belíssimo texto. Cabe-nos ressaltar a distorção de informações que a mídia é capaz de tecer! É papel da escola demonstrar ao aluno as diversas formas de sua língua…E como diz Evanildo Bechara “O falante deve ser poliglota em sua própria língua”, portanto deixemos de lado os preconceitos e aceitemos que o Português é mais do que está previsto nas gramáticas normativas; claro que conhecer as normas é algo fundamental, no entanto, respeitar os “vários níveis” existentes no idioma não se faz, de forma alguma, menos importante.

    • Carlos Andrade disse:

      Grato Bruno, mas o fundamento é esse mesmo. Temos, enquanto professores, de alcançar os objetivos do ensino de Língua Portuguesa que é o de mostrar a variante de prestígio, a norma, sem, contudo, discriminar qualquer tipo de realização linguística que tenha nossos alunos.
      Abraços e continue conosco no blog.

  7. Carlos Cesar disse:

    Bem, gostaria de parabenizar ao Carlos Andrade pelo texto inicial e pelos desdobramentos feitos a partir das provocações. Em relação ao Renato, quero dizer que é tem interessante sua preocupação com a exclusão e as barreiras políticas e econômicas impostas às classes não abastadas de nosso Brasil. Mas gostaria de dizer que ele precisa alargar mais seu conceito de cultura e mesmo de humano. Falar de povo sem cultura é como falar de mar sem água. Qualquer livro de antropologia pode dar uma boa explanação sobre o assunto. Penso nas muitas pessoas que são discriminadas, tidas como sem cultura por preferirem sertanejo ou funk a bossa nova ou MPB, candomblé a cristianismo, cordel ou Patativa a Machado de Assis, e ainda por falarem conforme regionalismos, e não conforme dita a gramatica normativa.
    O que muitas pessoas não percebem é que o que o barulho da mídia está fazendo é mudar o foco da problemática, pois nenhum professor ou escola que se preze vai estimular seus alunos a não aprenderem a norma culta da lingua portuguesa, em benefício da linguagem coloquial que ele já conhece no meio em que vive. O que a escola vai fazer, e este é o propósito de tais materiais didáticos, é ensinar fazer ser do conhecimento do aluno uma norma padrão, que é condição de ascenção a alguns ambientes da sociedade que exigem o conhecimento e uso desta, mas que ela é só isto: a norma padrão. Nunca, foi, não é, nem nunca será a única. Quanto ao que é certo ou errado, bem, tudo depende do critério: onde o critério for a norma culta (vestibulares ou ENEM, por exemplo), é claro que o certo vai ser só o que for conforme a norma. Nas outras ocasiões, outras respostas.
    É impressionante notar como o preconceito linguístico linguístico cumpre tão bem o seu papel de desviar o foco e “sub-estimar” a capacidade ou o papel desenvolvido pelas pessoas mediante suas características culturais. Veja, por exemplo, no tocante ao Lula. Ele não foi eleito a integrante da Academia Brasileira de Letras, ou à cátedra de lingua portuguesa da UNB. (nestes casos, seus conhecimentos em gramática, literatura e coisas afins seriam indispensáveis). Mas o pobre foi eleito a presidente da república. O que esperava dele o povo que o elegeu não era aula de português, mas uma série de comprometimentos políticos que os incluíssem entre aqueles que desfrutam das riquesas de nosso emergente desenvolvimento. E é quanto a isso que seus mandatos devem ser julgados (o que não cabe ser feito aqui), mas não se ele falou/discursou conforme manda a sacrosanta gramática. Mas alguns integrantes da mídia conseguem desviar nossos olhares desta direção…
    Acho que se livros didáticos como estes tivessem sido usados a algumas gerações atrás, teríamos eleitores menos preconceituosos, que se preocupariam e analizar o conteúdo dos discursos do Lula, e não a sua forma.
    Além disso, é interessante dizer que toda esta norma que hoje se apresenta como padrão é, ela mesma, fruto de desvios da outra norma padrão. Ou alguém acha que o português de portugual é a lingua herdada direto dos anjos e que permanece intacta até hoje. Não. Ela veio do mesmo processo histórico que continua no Brasil hoje: desvios, adaptações. Se quesermos ser estáticos, devemos queimar nossas gramáticas e voltarmos ao velho latim. Foi dele que, grassas ao um monte de gente “sem cultura” ou con “cultura muito flexível”, num processo vital de “des-unificação” que surgiram o português, o espanhol, italiano, etc.
    Ou se aceita a dinamicidade da lingua, ou voltemos às “múmias gráficas” do velos império romano. (se bem que lá já não havia unamidade linguística…rsrsrs)
    Por hoje é só.
    Ah, só gostaria de fazer uma indicação de leitura. É do mesmo Marcos Bagno, a obra: “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz”.

    • Carlos Andrade disse:

      Grato Carlos Cesar pela sua participação. Você pontuou bem a questão. Espero que a situação construída possa motivar a mídia a procurar especialistas antes de lançar sobre as pessoas uma série de informações sem fundamento. Be, eu espero, mas como sabemos que o que muitas vezes se deseja é o sensacionalismo, não podemos garantir que tanta discussão leve a um bom termo em momentos futuros. Como a esperança é a última que morre, fica o registro.

      Abraços.

  8. daniele disse:

    tendo em vista o tempo decorrido, talvez eu não receba resposta, e até mesmo você não leia meu comentário, mesmo assim quis deixar minha opinião. Sou estudante de letras e farei meu TCC sobre o preconceito linguítico nas escolas, eu sofri com preconceito desse tipo, o que muitos não entende é que esse assunto é muito amplo. Fazer uma brincadeira com o caipira que fala “ocê” e “poRRRta” é preconceito, fazer piada com o “oxente” do baiano, também, criticar o “leitE quentE” do interior de São Paulo(do qual faço parte) é péssimo. Preconceito linguístico não se refere, somente, aos diretamente ligados aos chamados “deslizes” da norma culta, mas às diferenças de pronúncia e utilização de vocabulário desconhecido por moradores das mais diversas regiões do Brasil. É uma diferença cultural e não “burrice” como muitos falam. Todos deveriam ler “O preconceito linguístico” de Marcos Bagno, que retrata muito bem esses mitos que são eternizados pelas pessoas que desconhecem, ou não aceitam, o assunto.
    Como tenho que focar no assunto, vou me concentrar no preconceito relacionado a variação linguística regional, essa diferença entre gaúcho, paulista, baiano, enfim, vou me dedicar às peculiaridades de cada região, e expor que o professor DEVE informar ao aluno que essa variação existe e que faz parte da nossa cultura. Claro a escola é para ensinar a norma culta, porém não é proibido informar aos alunos que existem outras formas, e eles devem eleger o melhor momento de usar cada um dos “formatos” existente.
    parabéns pelo trabalho, e sorte para mim com o meu. rsrsrs (esse último é um novo “formato” o internetês, alguém vai negar a existência dele?)

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