Você já deu um beliscão no seu cachorro ou gato? É só pele. Agora, experimente fazer o mesmo no seu braço. Vai perceber que existe algo a mais. Diferentemente dos outros mamíferos terrestres, que concentram o tecido adiposo apenas na região abdominal, os seres humanos também apresentam gordura subcutânea. Constatação desagradável: somos bem mais gordos. Sob este aspecto, somos mais parecidos com os mamíferos que vivem ou brincam na água – hipopótamos, elefantes, leões marinhos, baleias. Mas por que será? Para o biólogo Alister Hardy, só poderia haver um motivo para que os seres humanos compartilhassem uma característica típica dos mamíferos aquáticos ou semi-aquáticos: um antepassado aquático ou semi-aquático.

Nosso corpo dá outras pistas. Ausência de pêlos. Nariz proeminente e apontando para baixo, que nos possibilita mergulhar. Capacidade de controlar o diafragma e segurar a respiração por longos períodos. A postura ereta e o andar sobre duas pernas facilitam os deslocamentos na água. A gordura corpórea ajuda na flutuação, uma vez que é menos densa do que os músculos. A propósito, não podemos creditar nossa silhueta roliça à vida sedentária ou à ingestão de hambúrgueres, porque os bebês humanos já nascem gordinhos, e com bastante destreza para a natação. Se há alguma dúvida, assista a este vídeo antes de continuar.

A teoria do macaco aquático, proposta por Hardy na década de 60, foi recebida com desdém pela comunidade científica, mas encontrou na escritora e autodidata Elaine Morgan uma ferrenha defensora. Segundo esta hipótese, a água agiu como um agente de seleção dos seres humanos. Muitas das maiores diferenças físicas entre os homens e os macacos são bem explicadas como adaptações para se locomover melhor no meio aquático. Nossos ancestrais teriam ficado isolados num local formado por florestas e áreas alagadas, e se adaptado à água, caminhando regularmente dentro dela, nadando e procurando alimento nas lagoas. Como resultado, duplicaram suas chances de sobrevivência, ao explorar os recursos de ambos os ambientes, além de facilitar a fuga de predadores.

Ao deixar este mosaico para explorar outros ambientes mais secos, como a savana, os hominídeos aproveitaram sua nova postura bípede, tornaram-se exímios caçadores e ampliaram enormemente a ingestão de uma fundamental fonte de proteína, a carne. A nova dieta permitiu o aumento no tamanho do cérebro e, aproveitando o controle consciente da respiração, veio a fala. Chegamos, então, a um bípede caminhante, com cérebro volumoso, inteligência extraordinária e falante: o Homo sapiens.

Para maiores informações, vejam a palestra da Elaine Morgan.

35 respostas para “A TEORIA DO MACACO AQUÁTICO”

  1. Profª Rosiani Castro disse:

    Muito interessante o artigo, de fato nos faz refletir sobre a capacidade de adaptação humana ainda nos dias de hoje. O vídeo é fantástico e encantador!

    • Renato Padovese disse:

      Prezada Profa. Rosiani,
      A evolução das espécies foi forjada pela adaptação às mudanças do meio ambiente. Pensando nos dias de hoje: se o homem está provocando alterações no meio ambiente, será que ele poderá “provocar” sua própria adaptação a esse novo meio, através da engenharia genética e robótica? Um abraço, Renato.

  2. Juliana disse:

    Carambaaa! Faz muito sentido! Muito bom o artigo e o bebê… sem comentários né?!

    • Renato Padovese disse:

      Cara Juliana, foi exatamente esta reação que eu tive quando tomei conhecimento desta teoria. E já li dois livros a respeito e estou atrás do último da Elaine Morgan, publicado em 2008. Abraço.

  3. É o ir e vir da flexibilidade intelectual. Adaptações
    humanas, reflexivamente, desafiam a vida humana e geram transições epidemiológicas, microbiológicas e demográficas. Coadunam com tal colocação, a plasticidade neuronal, a interferência fenotípica no desenvolvimento de doenças, a variabilidade individual à terapia medicamentosa etc. Quanto ao vídeo, um “mimo” para os olhos e para a mente! Abraços a todos.

    • Renato Padovese disse:

      Prof. Artur, a postura ereta e bípede modificou a nossa pélvis e alterou o canal de nascimento, tornando o parto um pouco mais difícil. Portanto, isto seria uma pressão evolutiva contra o bipedalismo. Porém, acredita-se que a água anulou esta pressão contrária, por facilitar o parto, e nos manteve no caminho do bipedalismo. Por isso que os bebês humanos são mais gordinhos que os bebês macacos e têm bastante destreza para a natação, como vimos no vídeo. É mais uma cicatriz da evolução. Abraço, Renato.

  4. Yuri de Araujo disse:

    Realmente interessante.
    Até por que pensamos nas gerações futuras. Como o ser humano vai se adaptando aos meios e se tornando cada vez mais aptos a viver neles.
    São coisas que somente o tempo irá responder.

    Um abraços a todos.

    • Renato Padovese disse:

      Caro Yuri, atualmente não se acredita mais que as mutações genéticas são aleatórias e raras, e que os seres mais adaptados são selecionados e passam suas características aos descendentes. Ao contrário, acredita-se que as mutações são “intencionais” ou “forçadas” por pressões internas ou externas e, desta forma, o organismo vai se adaptando às mudanças. Um abraço.

  5. Mary Wakabara disse:

    Interessante esse artigo. Traz informações sobre as quais nunca havia prestado atenção. Pena que em alguns Homos Sapiens, o cérebro tenha diminuído de tamanho. Prefiro pensar que foram falhas da Natureza e não a evolução da espécie.

    • Renato Padovese disse:

      Olá, Mary. Obrigado por seu comentário. Quer mais duas características que compartilhamos com os mamíferos aquáticos? A presença do hímen no órgão genital feminino e a cópula frente a frente.
      Em relação à suposta diminuição do cérebro de alguns Homo sapiens, acho que devemos deixar Darwin de lado e apelar para Lamarck e sua famosa lei do uso e desuso. Um abraço.

  6. Mauricio Araujo disse:

    Muito interessante o artigo! Parabéns pelo artigo e pelo Blog! É mais um canal para ficarmos bem informados e nos comunicarmos!

    Abraços a todos!!

  7. Kauê Lima disse:

    Muito boa e útil a matéria. Teoria como essa nunca devem ser esquecidas… abraços Kauê

  8. Josilda Soares de Lima Carnielli disse:

    Amei a maréria sobre o macaco Aquático. No entanto fiquei encantada com o vídeo do bebê, tão pequeno e fazendo gestos como se soubesse nadar e a defesa que ele teve quando a àgua entrou no nariz do mesmo. Parabéns obrigada

  9. Laleska Galdino disse:

    Nossa! mnt interresante essa teoria, nos faz refletir
    muito e até pensar nessas semelhanças,que até então nunca tinha reparado, e realmente ver que isto tem algo a ver com evolução, já que uma espécie evolui por utilizar mais uma de suas caracteristicas do que outras, e pensando dessa forma conseguimos comparar, pois nascemos na placenta (água) e isso já é um indicativo.

    • Renato Padovese disse:

      Prezadas Josilda e Laleska, a hipótese considera que o macaco aquático realizava o parto na água e isso foi importante na nossa evolução (veja o outro comentário acima). Talvez seja por isso que o bebê do vídeo se defenda tão bem na banheira, uma característiva herdada de seu antecessor semi-aquático. Humanos também podem ter seus bebês na água e esta forma de parto é, no mínimo, tão segura quanto as formas tradicionais. E ainda apresenta algumas vantagens, tais como: menor incidência de infecções nas mães e nos filhos, períodos mais curtos de trabalho de parto e menor necessidade de analgésicos. Um abraço, Renato.

  10. Cínthia Castropil disse:

    Surpreendente a matéria e acho que essa teoria deveria ser, ao menos, melhor analisada pela ala científica antes de ser rejeitada. Também não pude deixar de comparar suas últimas palavras como os adjetivos: cérebro volumoso, inteligência extraordinária e falante com outro ser aquático – o golfinho que, salvo as devidas proporções, também poderíamos descrevê-lo da mesma forma. Assim, minha opinião é que devemos estar sempre abertos a novas teorias e conhecimentos pois já foi verdade que a Terra era o centro do universo. Parabéns pelo blog!

    • Renato Padovese disse:

      Cara Cínthia, pois foi isso mesmo que aconteceu. A teoria foi ignorada pela comunidade científica, tanto que o próprio Alister Hardy a deixou de lado e foi cuidar de outras coisas. Foi preciso uma “outsider”, alguém fora do meio científico, jogar luz sobre o assunto. Se eu souber de alguma novidade em relação a essa teoria, prometo colocar novamente no blog. Um abraço, Renato.

  11. Carla Silva disse:

    Muito boa a matéria!Faz todo sentido!!Vamos divulgar mais essa teoria para que mais estudos sejam feitos.Parabéns!

  12. amanda disse:

    nossa achei super interessante, acho que é por isso que muito mulheres dão a luz na água. Meu irmão por exemplo ADORA NADAR tem 4 anos e capaz que nade melhor que eu…se deixar fica o dia inteiro…mas adorei a teoria!

    • Renato Padovese disse:

      Amanda, também acho que nossa atração pela água, nosso gosto pela natação são uma herança do nosso passado semi-aquático, assim como as outras características fenotípicas mencionadas no artigo. Até o mercado imobiliário é afetado por este passado. Por que um apartamento de frente pro mar é bem mais caro que um de frente pra floresta? Um abraço, Renato.

  13. Olá, interessante a matéria, porém se for para pensar dessa forma não seria também correto dizer que por vivermos em ambientes aquáticos, ou semi que poderíamos ter desenvolvido guelras? Entendo a teoria, porém nesse ponto não compartilho de tudo que foi dito, pois não deixam de ser apenas especulações, sem comprovações reais, estou correto?

    • Renato Padovese disse:

      Olá Robson, obrigado por seu comentário. A resposta é não porque guelras são órgãos de peixes. Se o nosso antepassado semi-aquático tivesse optado pelo rio ou pelo mar, em vez da savana, teríamos hoje características mais próximas de mamíferos aquáticos, como botos ou golfinhos. A resposta à segunda pergunta também é negativa. Esta “teoria” não é uma especulação, mas sim uma hipótese para a evolução humana, uma hipótese baseada em descobertas científicas, assim como outras mais bem aceitas, como, por exemplo, a hipótese da savana. O problema é que tecidos moles e comportamento não fossilizam. Então, hipóteses são formuladas baseadas na anatomia e comportamento dos seres vivos, bem como na reconstituição dos ambientes onde os fósseis são encontrados, etc. Mas a ciência avança, e novas descobertas podem rechaçar ou corroborar a hipótese do macaco aquático. Se eu souber de alguma novidade, aviso. Um abraço, Renato.

  14. Uma abordagem que enseja muita curiosidade, sobretudo, para mim que nasci gorda, cresci magra, evolui para ser gorda com a maturidade até receber a interferência médica e hoje estar vivenciando um processo de evolução pela adaptação e necessidade de ser magra. Esse tema desperta muita atenção.

  15. Prof. Fernando Marques disse:

    Parabéns Prof. Renato por mais um excelente artigo, e pelo empenho em sempre buscar temas interessantes ao blog, que nos desperta curiosidade!!!

    Abs. Fernando Marques

  16. Meire Cristina de Souza disse:

    Interessantíssimo esse artigo, professor! Quanto mais aprendo, mais percebo que ainda tenho muito a aprender!
    O homem evoluiu e se adaptou às mudanças do planeta, no entanto, tais mudanças sempre foram de ordem natural, penso que no futuro, e temo por isso, o homem certamente terá que se adaptar às mudanças, porém, não mais mudanças de ordem natural, mas mudanças provocadas por ele mesmo, que sabemos, podem ser irreversíveis.

  17. patricia nagai disse:

    Bom dia, Renato
    Meu comentário:
    1-Sobre o autor: Iniciou o texto de forma interessante de forma que iniciasseamos a leitura do artigo.
    Como surgem as idéias dos artigos?
    2-Sobre a teoria: É mais umas das várias teorias q existem.
    3-Conclusão: Gostei.Parabéns
    Patricia

    • Renato Padovese disse:

      Olá Patricia, obrigado por seus comentários. As idéias para os artigos surgem dos livros, revistas, sites que eu leio e também procuro comentar sobre o que está acontecendo na Universidade. Um abraço, Renato.

  18. Prof Ms. Benedito Macedo disse:

    Pode-se afirmar que as bases objetivas e racionais das teorias aquáticas são sólidas. Mas quando () objeto de estudo de alguém é a gênese de sua própria espécie, de sua própria história, temos de ir além de qualquer base racional. Temos de fazer uso do lado irracional de nós mesmos para reforçar, ou enfraquecer, a aceitação de uma teoria. As teorias assumem um valor e um interesse maiores se são sedutoras, atraentes, fascinantes e se for fácil apegarmos-nos a elas por um ato de fe, antes mesmo de analisar cuidadosamente sua base racional. Glynn Isaac confessou em seu livro sobre a evolução humana. “Nossas crenças recentes a respeito da origem são, de fato, mitos substitutos, que são eles próprios em parte ciência, em parte mito. As pessoas querem estar livres para escolher suas próprias histórias de origem evolucionária. Tenha isso em mente ao ler este e outros relatos sobre a evolução humana”.

    Ao longo de seu desenvolvimento, um ser humano tem de reproduzir, ou melhor, de resumir, o processo de evolução, principalmente do período dentro do útero. É como se a história da vida estivesse gravada numa espécie de memória. Nosso comportamento irracional dá crédito à existência desse tipo de memória. Por exemplo, todos os mamíferos têm medo de cobras. Provavelmente em algum período remoto de nossa evolução havia uma luta impiedosa entre mamíferos e répteis. Pode-se eliminar esse medo de cobras nos primatas destruindo uma região muito precisa da parte primitiva do cérebro, onde se supõe que esse medo esteja gravado.

    • Renato Padovese disse:

      Prezado Prof. Benedito, bastante pertinente sua análise. Não tenho dúvidas que esta teoria se tornou sedutora, atraente e fascinante porque foi propagada por uma escritora muito carismática. Se você assistir ao vídeo com a palestra dela, vai perceber isso. Agradeço muito sua contribuição para nos ajudar a endenter um pouco estas questões tão complexas. Um abraço, Renato.

  19. giulianno disse:

    Olá Renato, boa noite.

    Creio que foi ludibriado. Não pela teoria aquática, mas por um dos comentaristas, Prof. Benedito Macedo, que colou o texto do endereço:
    http://www.alternativamedicina.com/medicina-tropical/poder-terapeutico-animais.html

    Sobre a teoria, muito plausível. Daqui uns 100 anos poderá estar nos livros escolares, e daqui 200 anos muitos acreditarão nela. Mas pelos próximos 700 anos ainda vão dizer que viemos de Adão e Eva. Por que 700? Porque sou otimista.

    Tenta adicionar ao post a bibliografia.

    Abraço,
    Giulianno

  20. Ricardo Marcelo Alves disse:

    Quando eu era mais novo cogitei algo parecido com os meus amigo, vendo uma criança nadar. Relatei que uma criança nadando parecia muito com os mamíferos aquáticos, e eles me chamaram de louco. Precisamos prestar mais atenção nos elementos marinhos para melhor termos entendimento sobre a nossa evolução. O nosso laço com a água está latente até na nossa religião, sem falar no aptº de frente pro mar que custa mais caro.

  21. TARCÍSIO DO ROSARIO DE SOUZA TAVARES disse:

    Não existe maneira mais pura de ser observar as características evolutivas humanas do que a observação das crianças, as crianças trazem consigo algumas características inatas (termo muito usado na Educação Física).Pesquisas comprovam que as crianças podem andar(bípede) bem mais cedo doque se imagina, porém a falta de estimulo e em alguns casos a super-proteção dos pais fazem com que a criança venha a perder essa capacidade ainda nos primeiros meses, da mesma forma ocorre com a capacidade de nadar.
    O vídeo e o artigo estão de parabéns, muito interessante e sem dúvida propõe um forte impulso ao ato de repensar a evolução humana e estudar os possíves “buracos” existentes nos estudos da Evolução das Espécies……….

    (Momento da Comédia)

    ” na questão dos pelos devemos estudar o Tony Ramos, creio que houve de alguma forma uma introdução de genes codificadores de proteínas que produzem pelos em excesso”

  22. Leonel Doria Ramos disse:

    Olá Renato.
    Ontem a noite assistí a um documentário no DISCOVERY CHANNEL referente às sereias. Tomei conhecimento da Teoria do macaco aquático e fiquei apaixonado pelo assuto, pois envolve a “evolução humana”. Acho que só conhecemos a ponta do iceberg sobre a nossa evolução.
    Gostaria desaber os títulos dos livros a que você se refere sobre a Elaine Morgan.
    Parabens pelo blog. A humanidade precisa de pessoas com a mente aberta como você e outros que tomei conhecimento no seu blog.

    Um grande abraço.
    Leonel.

    • Renato Padovese disse:

      Caro Leonel,
      Obrigado por seu comentário.
      A Elaine Morgan (que faleceu recentemente, último dia 12 de julho, aos 92)escreveu vários livros e artigos sobre o assunto. Eu li dois livros: The Descent of Woman e The Aquatic Ape Hypothesis. Este último eu consegui uma tradução portuguesa chamada A Teoria do Símio Aquático. Há um livro mais recente (2008), The Naked Darwinist, que também aborda o tema.
      Um abraço,
      Renato.

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