Por Marcelo Paes de Barros

Quero aqui, queridos leitores, praticamente prestar um serviço de utilidade pública. Você, que é ainda um jovem adulto, está prestes a enfrentar um dos piores períodos da sua vida ao adentrar às, como chamo, 30 e poucas malditas primaveras. Preparem-se.

Passei dessa fase há algum tempo e hoje, fazendo uma análise pregressa e bem reflexiva, percebo que foram os anos de minha vida em que mais cometi erros. Tomei decisões precipitadas, enrijeci relações pessoais, fui radical, preconceituoso e intolerante. Amarguei um rótulo de arrogância que ainda me assombra às vezes. Nunca fui assim, mas se travesti assim naqueles anos. Percebo-me hoje mais leve, maduro e quase convicto de ter todas as variáveis sob controle. Será necessária a tormenta para a subsequente prometida bonança? O que será que aconteceu?

Meus amigos, a década dos 30 anos traz, no preceito da vida moderna, infindáveis cobranças. Primeiro: é o momento de nossas vidas no qual devemos nos estabelecer profissionalmente para tentar garantir um emprego estável. Provavelmente formado, é a hora de ganharmos independência, montarmos nosso pé-de-meia, constituir patrimônio e alavancar os planos idealizados. Naturalmente, você acreditará que tudo isso virá, única e exclusivamente, da sua força de trabalho. Serão horas à fio. Você se esfalfará de trabalhar na tentativa de se fixar em sua empresa, deixando sua vida pessoal e sua saúde relativamente de lado.

Nesse âmago, surgirão inúmeros conflitos pessoais e profissionais, já que, obviamente, muitos outros ambiciosos de 30 e poucos anos também disputarão essa posição contigo! Seus pés tremerão sobre tapetes que serão constantemente puxados. Serão contendas pessoais deflagradas, desafetos e intrigas, como naquelas séries de TV à cabo. Provavelmente, suas defesas naturais serão a soberba, a arrogância e a prepotência, as quais insuflarão sua alma. Tudo e todos conspiram contra você, é o que você imagina.

Coincidentemente (ou seria, tragicamente?), nessa mesma fase da sua vida você decidirá dar um passo à frente com sua cara-metade! A própria projeção profissional parece impor essa condição! Vocês se casam e independentemente se moram na casinha dos fundos do terreno dos seus pais ou em um flat moderno nos Jardins, a dura realidade do convívio mútuo sob 4 paredes começa a se mostrar, dia após dia, cada vez mais complicado. No início, tudo é tolerado: uma toalha molhada na cama será um descuido. Uma compra fora de hora no cartão de crédito será apenas um mimo. A visita da sogra na sexta-feira à noite fará parte da nova realidade da vida do casal. Infelizmente, meus amigos, uma gota caindo na testa não é nada, até que ela comece a cair de 10 em 10 segundos. Em um curto intervalo de tempo, esses “descuidos” tornar-se-ão tempestades violentas que abalarão as estruturas daquele domicílio e de sua própria sanidade.

Além disso, nem homens, e muito menos as mulheres, atingiram o ápice sexual aos 30 e poucos anos. Inúmeros tabus e bloqueios nas cabeças dos cônjuges normalmente conduzem a comportamentos nocivos de ambos os lados. Serão comuns situações envolvendo ciúme doentio, desconfiança, carência e, na minha opinião, o pior dos sentimentos: a expressão “o que ela(e) vai pensar de mim?”. Essa sensação auto incriminatória te assombrará e impedirá (ou atrasará) sua realização sexual. De frustração em frustração, os alicerces do tesão, do amor e da parceria são infelizmente corroídos.

frustração

Em um desfecho quase trágico, se não fosse mágico, é também a hora de dar mais sentido a sua existência: passar seus genes adiante! E, embora seja realmente uma experiência fascinante, mais energia, tempo e dedicação serão igualmente demandados para a maternidade/paternidade. Dignos, vocês desejarão ser pais presentes, atuantes e envolvidos com o crescimento e desenvolvimento de seus filhos. E é exatamente o que eu lhes pergunto: de onde virá tanta energia, tempo e dedicação para TANTAS atividades simultâneas?

Não virão, lamento. E você só se dará conta disso quando a tormenta passar. Vejo muitos amigos na casa de seus 40, quase 50 anos, corroborando essa minha teoria. Contudo, a plenitude dessa faixa etária superior só foi proporcionada justamente pelo estresse vivenciado aos 30 e poucos anos. Aprendemos com os erros. Nos adaptamos conforme as necessidades. Eu lamento muito os erros cometidos no passado, mas foram eles – ou a retratação deles – que me tornaram mais autoconfiante e convicto hoje. Agradeço cada situação difícil vivida pelo próprio desafio imposto. Aos 40-50 anos você se torna mais nostálgico e mais reflexivo. É engraçado. Sinto-me bem!

A vocês, queridos leitores e leitoras ainda longe da faixa dos “enta”, torço por uma travessia astuta. Fiquem alerta aos sinais e tentem entender seu amigo editor aqui.

Um abraço

13 respostas para “30 e poucas malditas primaveras”

  1. Monique Dominique disse:

    Credo! Este texto apavora desnecessáriamente os que ainda chegarão a esta idade e as outras que assim vier. Aqui é criada uma expectativa de frustação iminente ao se completar 30 anos… Cada preocupação em seu tempo, cada vida sua história, menos estigmas e rotulos por favor.

    • Marcelo Paes de Barros disse:

      Oi Monique, rs
      Obrigado por seus comentários. Lamento assustá-la assim, mas colhi depoimentos de vários colegas, das mais diversas áreas de atuação, para elaborar esse texto.
      Infelizmente, parece ser mesmo uma tendência do nosso roteiro de vida moderna.
      Digamos que prefiro ser aquele que avisa, que prepara para o percurso difícil, do que o outro que simplesmente diz: “Eu já sabia!”, rs
      Abraço

  2. Diogo Matias disse:

    Olá professor, já o vi algumas vezes na universidade, gostei muito de seu texto, é muito verdadeiro. E algumas que passou estou passando no momento e sei que tudo acontece para nosso amadurecimento, quero um dia estar casa dos ‘enta’ rs, e poder ter uma travessia astuta, obrigado pelo texto, muito bom mesmo, meus parabéns.

    Um abraço,

    Diogo.

    Formando de Educação Física.

    • Marcelo Paes de Barros disse:

      Obrigado Diogo!
      Realmente, é um período árduo e, tendo consciência, acredito que possamos administrar melhor esses desafios e prosseguirmos de forma mais suave!
      Abraço

  3. Marcia disse:

    Que fase ruim hein. …eu estou chegando nos 40 e acho que a minha década de 30 foi a melhor! !!

  4. Aline disse:

    Olá professor,
    Inúmeras vezes penso nos meus 30 anos, pois será quando “terminarei” a primeira fase dos meus estudos e então imagino-me começando uma nova fase e sei que não será fácil, o seu texto é muito bom e não acho ele desencorajador pelo contrário é uma busca de infinita de melhoria pessoal. Continue escrevendo para nós, pois particularmente além de muito sábio vc é uma inspiração para mim!! Abraços

  5. Jose Augusto disse:

    Bom texto, MARCELO! Assustador, mas muito bom… rs rs da para ver que as coisas podem piorar… KK Estou nos 20 e poucos anos,22 para ser mais exato, sei que ainda não vi quase nada da vida, mas enxergo um pouco das brigas de ego, dos puxões de tapete, em momentos ainda prematuros. E quando o jogo for para valer? As pessoas são capazes de que? É o que penso. Às vezes os tapetes são puxados dentro da família até, ouço de pessoas mais velhas que a tendência é piorar. Tento me manter positivo na medida do possível. Mas acho que o futuro pode ser brilhante, na casa dos 30. Imagino que seja uma fase de colheita, de resultados pelo que estou fazendo agora, nessa perspectiva é bem positivo, ainda mais que vários sonhos só serão possíveis de concretizar nessa idade. Muito bom, a realidade é crua como o texto e vem sem tempero como a vida às vezes vem.

  6. To chegando na fase dos “enta” , e olha, acho que a minha vida foi uns 50% do que você escreveu…
    Bom texto.

  7. Belo texto professor, ainda não cheguei nos 30 (ainda). kkk
    Abraço!

  8. Amanda disse:

    Estou com 29 anos, acho que agora estou com medo! haha.
    É legal ouvir e ler as experiencias de outras pessoas, assim nós podemos ter mais calma e consciência quando chegar a nossa vez.

    Obrigada pelo texto professor.

  9. Patrícia disse:

    Olá professor, estou entrando na fase dos 30 e já posso perceber muito do que foi citado no texto o qual não acho nenhum pouco desencorajador, tudo faz parte e acredito no seguinte prefiro estar preparada para o mais difícil pois o que for fácil é lucro. Fui sua aluna e o admiro bastante, parabéns pelo texto.

  10. amanda aline de vasconcellos disse:

    Prof.. o sr continua sendo sempre maravilhoso… mil bjs.

  11. Daniel disse:

    Muito Bacana, Estresse dos 30. Já Passei por isso !

    Agora estou no Estresse dos 40, que Raiva-(risos)

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