por Regina Tavares

Sabe quando se está em um banheiro público e a faxineira cumprimenta e ninguém responde? Já notou como determinadas pessoas se esquecem de agradecer quando o porteiro abre a porta de um estabelecimento e lhe dá passagem? Reparou como é comum evitarmos enxergar os moradores de rua sem sentir, outra coisa, além de piedade?

Seja por indiferença ou preconceito, algumas pessoas estão invisíveis no contexto da contemporaneidade. Há muitos tipos de invisibilidade social, como apregoam os sociólogos por aí, contudo é razoável afirmar que a maioria decorre de relações hierarquizadas sócio e economicamente vivenciadas numa sociedade pautada pela divisão do trabalho e a lucratividade. A invisibilidade pode gerar humilhação, constrangimento e até a morte.

Nesta última terça, mais um cidadão paulistano foi condenado à invisibilidade. Tratava-se de um gari. Ao escutar a notícia, senti, assim como Caetano, que alguma coisa acontecera no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João. Foi lá, no meio fio de um dos endereços mais celebrados de Sampa, que um profissional da limpeza urbana foi morto após um atropelamento fatídico.

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Literalmente, morrera na contramão atrapalhando o tráfego, tal qual o protagonista da música Construção, concebido por Chico. Segundo as testemunhas, o motorista deixou o local sem prestar socorro. “Também pudera, aquele gari era invisível”, alegavam alguns advogados de defesa do autor do crime. Não havia como enxergá-lo limpando a calçada em plena madrugada. Sua figura mais parecia uma sombra, um espectro cabisbaixo a se locomover vagarosamente pelo espaço público. Daí, idealizaram um motorista sem culpa. As primeiras investigações apontam evidências de que o gari pode ter sido negligente, ao burlar seu treinamento e se posicionar equivocadamente na rua durante o expediente.

Como diria Madre Teresa de Calcutá, “é fácil amar os que estão longe. Mas nem sempre é fácil amar os que vivem ao nosso lado”. É aceitável que reconheçamos o pesar das vítimas do terremoto no Nepal ou que as crianças africanas em pele e osso, quase mortas de fome, nos comovam durante o noticiário no horário do jantar. Porém, parece ser cada dia mais raro nos colocarmos no lugar daquele que está do lado, no dito “o próximo”, e estender a mão.

Inté!

7 respostas para “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”

  1. Elizabeth Costa disse:

    Sempre q passo por alguém sorrio e cumprimento. Outro dia um faxineiro me olhou assustado com a minha ação!
    Não consigo ser indiferente! Tem gente q não m responde, mas eu não ligo!

  2. Elaine disse:

    Vejo pessoas vivendo nas ruas todos os dias e percebo que o número é crescente. Olho, tenho vontade de parar para conversar, saber o que aconteceu para estar naquela condição, mas apesar dos pesares, fecho os vidros do carro. Nossa!!! A “invisilidade” é fato! Qual é a minha atitude? Indiferença? Como estou olhando para o próximo? Rezo todos os dias, mas para aqueles que conheço e para os demais, o que faço? Obrigada por me fazer refletir a respeito!

  3. Caio Mendes disse:

    Pois é, isso vem se perdendo cada dia mais. As relações estão cada vez mais superficiais, principalmente quando se trata de simples cumprimentos com pessoas tidas como “inferiores” socialmente.

  4. Edson Wladimir de Arruda disse:

    Muita bem sintetizada a hipocrisia da nossa sociedade, infelizmente.

  5. Rose Lima disse:

    As vezes dizemos…Nossa!!! Como as pessoas são preconceituosas…E ignorar o proximo? torna-lo invisível? Ñ seria tamb uma forma de preconceito? Temos que nos policiarmos para que ñ parta de nós mesmos essa indiferença…vamos refletir e tentar cada um de nós fazer diferente.A partir de agora refletirei mais sobre o assunto.

  6. Renata de Faria disse:

    Essa canção é excelente!
    Quantas vezes não deixamos os olhos fechados ao passar pelos problemas sociais que estão na nossa frente? Que atire a primeira pedra quem nunca ignorou uma criança pedindo esmola, alguém morrendo de fome na rua. É uma realidade triste mas ainda tem conserto.
    Falta quem invista em bons programas sociais desde saúde, educação. Conheci um programa recente, o Jovem Investidor http://www.tororadar.com.br/programa-jovem-investidor de uma empresa de Belo Horizonte que dá a oportunidade de jovens aprenderem gratuitamente sobre investimentos, educação financeira, e para quem pensa mais a frente, como investir na bolsa de valores http://www.tororadar.com.br/como-investir-na-bolsa-de-valores
    .
    Tomara que outras empresas e instituições concedam esse tipo de oportunidade a quem precisa.

  7. Filipe Lemos disse:

    A famosa síndrome do uniforme reflete bem isso infelizmente! Mas ainda hoje há vizinhos que moram no mesmo prédio que ignoram um bom dia,imaginem um morador de rua perto de pessoas assim?

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