TONS DE CINZA

27/mar/2015

por Regina Tavares

Após as mazelas desencadeadas pela Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), a população masculina se esvaneceu, o hemisfério norte careceu de reconstrução e “ELAS” foram convocadas a abandonar a condição exclusiva de donas de casa para se lançarem no mercado de trabalho sob o custo do preconceito, do assédio sexual, entre outras adversidades.

De lá para cá, alguns avanços fizeram o desafio feminino valer a pena. De acordo com o Ministério da Educação, aproximadamente 55% das matrículas em cursos superiores pertencem ao dito “sexo frágil” e 60% dos diplomas universitários são entregues a elas, por conseguinte. Com formação acadêmica acentuada é compreensível entender porque mais da metade das vagas gerenciais nas organizações já é ocupada por mulheres. Apesar da disparidade presente no campo da remuneração, entre 2000 e 2014, segundo o IBGE, o salário delas progrediu quase três vezes mais do que em relação ao dos homens.

Com a ascensão socioeconômica veio a autonomia e a reboque, a solidão. Já resulta em 48%, a porcentagem que representa o número de solteiras em solo brasileiro, que, aliás, vivem em média sete anos a mais que o sexo oposto. Sem a necessidade iminente de encontrar um varão capaz de sustentá-la financeiramente na posteridade, a mulher passou a selecionar seu parceiro de forma mais criteriosa e a cogitar o divórcio ou a infidelidade como situações corriqueiras. Até porque o domínio de sua sexualidade passa a ser uma premissa a partir da década de 1970.

Além disso, com 1,2 milhão de mulheres – entre 20 e 45 anos – a mais do que homens dando sopa por aí, no Brasil, a tendência é que o sexo em minoria, no caso os homens, incorra pela promiscuidade e poligamia.

A recusa em construir relacionamentos sérios por parte dos homens parece funcionar como uma mola propulsora para o perfil de uma mulher autossuficiente e imune aos caprichos masculinos. Daí uma indagação quase existencialista me ocorre: Por que será que uma trama na qual um sádico magnata submete uma virgem insegura a uma relação contratual de submissão e dominação, prazer e dor, romantismo e arrogância provoca recordes de leitura e bilheteria em pleno século XXI?

50 tons de cinza

Acredito que a trilogia de qualidade literária duvidosa da senhora E.L. James se explica como fenômeno pela sua notória contradição.

Não se trata, necessariamente, do interesse pelo tom erótico ou pela presença do sadismo. Este último, violento, porém sedutor. Trata-se, muito mais, da associação entre a figura de um homem sensual e apaixonante à figura tradicional do homem provedor da relação.

Perto da ficção, elas se sentiram atraídas em se projetar na típica mulher de um passado não tão longínquo e improvável. Longe da ficção, estas mesmas mulheres continuam negando a submissão aos homens e endossando o apreço pelas relações igualitárias. Assim como se acotovelaram para admirar o formidável olhar de Christian Grey em recorrentes big-closes, não medirão esforços para se render a outro conto de fadas que acabara de voltar à tona nos cinemas de todo o mundo: Cinderela.

cinderela

E antes que você nos julgue como inconstantes e indecifráveis, caro leitor, saiba que condenamos dualismos. Não admitimos respostas simplistas. Compartilhamos da ideia de que entre o preto e o branco, há pelo menos cinquenta tons de cinza.

Inté!

9 respostas para “TONS DE CINZA”

  1. danfe online disse:

    Também adorei esse filme.. Assim como o livro!

    • Cícero Venttura disse:

      Boa noite Prof. Regina tudo bem.
      Achei que encontraria um post sobre Marketing ou Transmídia kkk.
      Não assisti os 50… Sou mais 9 semanas e meia de amor kkkk Pena que a Kin, ainda não me conhece kkk.
      Quanto a parte séria do meu comentário,penso que a competência e capacidade das mulheres é inegável, mas as mulheres ainda buscam um Príncipe encantado (que não existe), e de frágil, elas não tem absolutamente nada.
      As mulheres sabem que trabalhar, cuidar da casa, dos filhos e dos maridos, cansa. De vez em quando, é bom dá uma relaxada e se deixar dominar um pouco. Como dizia o Nelson ” toda mulher gosta de apanhar…só as normais ” ( só pra criar um pouco mais de polêmica kkk ). Parabéns pelo trabalho.Cícero Venttura.

  2. Elaine disse:

    Adorei!!! Vamos pensar a respeito. Afinal, será que estamos vivendo uma grande confusão de sentimentos, de escolhas. Ora somos demasiadamente românticas, ora queremos ser poderosas etc. Enfim, o que será que mais chamou atenção das mulheres???

  3. Pamela M Nagode disse:

    É notória a timidez da personagem, que tambem nos indaga ao decorrer da trama quando ora se mostra permitir novas aventuras pela busca do desconhecido, ora não se permite ao nível de masoquismo. A mulher ainda não se desvinculou totalmente da rotulagem se sexo frágil, apesar das conquistas realizadas diariamente e que ainda não são associadas a elas.Esta mulher forte e guerreira define cenas como essas,parte de seu perfil idealizado nos dias de hoje.O sexo com mais intensidade proposto as leva a um imaginário de poder, podendo assim trocar de lugar com o parceiro entre quatro paredes.A fantasia de muitas é fugir do tradicional, mesmo que necessário ser a “submissa”,buscando o prazer individual como recompensa do oferecido ao outro.Essa ficção para quem não sabia da continuação pode apresentar o machismo ao reproduzir o erotismo de forma bruta, sem dar a ” assistencia ” afetiva depois da relação ou durante.Mas por outro lado tratara uma Psicopatologia; esta analisada com profundidade.Cabendo ao receptor interpretar como contradição ou apenas como a busca pelo descobrimento de seu próprio corpo pelo prazer.

  4. Eric da Cunha Ribeiro disse:

    devo admitir que não esperava uma postagem com uma temática tão relevante para o momento, ainda que esta seja negada.
    todas as alusões supracitadas, ainda que reais, apresentam no mínimo uma posição conflitante entre oque, uma porcentagem relevante de mulheres, diz buscar e o que as mesmas podem desejar internamente.
    apresenta-se mais uma vez, uma visão de perfeição irreal, no poder masculino, não apenas no poder aquisitivo, visto que o personagem principal é um visionário bem sucedido, mas por este deter a dominação nas relações sexuais, por vezes dolorosas, colocando a mulher novamente como submissa em uma relação, inferior não apenas nos momentos sexuais mas como no quesito posição social.
    como bem expresso na publicação a dualidade não é e nem deve ser aceita, ao menos não nesse ponto, vendo que são dois extremos.
    por que não apresentar uma mulher bem sucedida e bem resolvida do que realmente deseja na vida?

  5. Suellen Araujo disse:

    Perfeito!

    Concordo plenamente que o conteúdo tratado no filme não deve ser julgado sem conhecimento, e muito menos as espectadoras que o assistem. Não quer dizer que porque nos interessamos por este tipo de história que queremos vivê-la, ou mesmo se quiséssemos não significaria que não somos independentes. Quando se trata de sexo qualquer forma de prazer é válida desde que ambos concordem, é um particular de cada casal, pois o que acontece entre quatro paredes não diz respeito a mais ninguém. Quanto à nossa autossuficiência, ela continua existindo, pois só nos sujeitaríamos a situações como essa se realmente quiséssemos e não porque precisamos disso, o que de qualquer forma não interferiria em nenhum outro aspecto de nossa vida.
    Graças as evoluções do comportamento da mulher na sociedade somos livres para viver da forma como quisérmos conquistando cada vez mais nossos direitos e sendo realmente felizes.

  6. Lucia Helena Siqueira Pinto disse:

    Olá Prof. Regina Tavares! O que me deixou realmente satisfeita foi o final do filme, obviamente que muitos gostariam de ver aquele homem completamente domado e entregue ao amor, mas um homem tão infeliz, não é capaz de amar! Ela por sua vez, retrata a mulher atual, a mulher que trabalha, que estuda, aquela que ao longo do tempo progrediu, e vem cada vez mais marcando território, mas que ser amada! Não concordo com a submissão, mas em se tratando do amor, as quatro paredes: não vêem, não escutam, logo, não falam. Me surpreenderia se no final ela se rendesse, pois embora, nossa alma seja ainda romântica, não significa que sejamos submissas como antes. Ela é tão inteligente que consegue, do que sugere o filme, controlar a situação, mesmo que contrariada cede aos seus caprichos, na esperança de despertar nele o amor. Assim somos nós!

  7. Edilaura disse:

    Legal o texto.
    Não gostei desse filme 50 tons, apesar do ator realmente ser sedutor, na minha opinião não existe aquele tipo de mulher. Eu falo: “nem casada vou depender do meu marido kkkk”, gosto de trabalhar estudar conhecer, me senti ofendida assistindo aquele filme, senti tudo o que a mulher lutou pra conquistar e ter uma posição foi tirado ali, enquanto aquele filme encanta o coração d algumas, outras mulheres sofrem apanhando de seus maridos. Sou mais um filme de amor, acho lindo principalmente se tiver um destino diferente.

  8. Cícero Venttura disse:

    Boa noite.
    Mais uma surpresa.
    No início fiquei com medo, pois, a pouco tempo ( uns 4 anos ), descobrir que não posso ficar preso ( em lugares fechados, principalmente dentro de um trem da CPTM KKKKK ), acho que tenho caustrophobia ( ou coisa do tipo, pois, o computador aponta erro, eu não tô a fim de corrigir kkkk ).
    Mas seu texto,e aí está a surpresa, fala da vontade de viver, e não apenas dos medos à vista.
    A vida às vezes, me parece dura demais, mas eu também, detesto molezas,adora o sabor das vitórias e as busco, depois das derrotas.
    Acho que é assim que Olivier Sachs se sente, comemora sempre e, valoriza muito mais as vitorias, mais do que as eminentes e próximas derrotas.
    Não gosto nem um pouco da morte, acho muito chata, sem graça e portanto, nem gosto de comentar.
    Isso abaixo, me chama muito mais a atenção:
    “… Pelo contrário, sou um homem de disposições veementes, com entusiasmos violentos e extrema imoderação em minhas paixões “.

    Adoro muito as paixões, mesmo sofrendo, depois que elas se vão.

    Abs !!!

    Sucesso e Muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiita Saúde !!!
    kkkkkkkkkkkkk

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