Melancolia

16/mar/2015

                                                                        por Marcelo Paes Barros

Como se sabe, a obesidade, o diabete e a síndrome metabólica são patologias bem descritas fisiologicamente e que afligem os seres humanos modernos, principalmente os nascidos a partir do meio do século XX. Em relação às doenças psicológicas modernas, todos as faixas etárias (incluindo crianças) já apresentam índices preocupantes de ansiedade, estresse, psicoses e as mais distintas síndromes, p.e. pânico, déficit de atenção, etc. Embora esses sejam males decorrentes da vida acelerada que temos atualmente, um mal oriundo nos primórdios da existência humana sempre bate à porta da nossa consciência, mais cedo ou mais tarde: a melancolia.

melancolia                                                                                         (Melancholia (de Albretch Dürer, 1514)

Mas, afinal, o que é a melancolia? “Ah, já sei, é um sinônimo de depressão”, responderiam os mais apressados. Eu tenho que discordar parcialmente. Fisiologicamente, a depressão é causada por variações anômalas nos níveis de importantes neurotransmissores, como a dopamina e a serotonina, em determinadas regiões do cérebro e que significativamente afetam a memória, impulsos de prazer e a disposição física e mental. Muitos pesquisadores mostraram que tais fenômenos ocorrem naturalmente em alguns períodos de nossa vida, como na adolescência e na menopausa (para mulheres) ou andropausa masculina, períodos caracterizados por grandes oscilações hormonais. Indubitavelmente, predisposição genética, alimentação, hábitos cotidianos também são fatores promotores da depressão. Contudo, não é disso que aparentemente trata a melancolia, em sua essência.

A melancolia, exatamente com esse nome, é descrita desde a Antiguidade e com relatos reincidentes principalmente durante a Idade Média, quando os avanços da criatividade humana – geralmente manifestados através da Ciência e da Literatura – eram fortemente tolhidos pela Inquisição e castração religiosa da época. A liberdade de pensamento e de expressão naquela época funcionava como uma prisão intelectual que culminava na melancolia. Na Renascença, a melancolia foi até considerada como uma dádiva, pois julgava-se que alguém melancólico, assim o era, por elucubrar em demasia os fatos de sua vida e de sua existência. Assim, o melancólico era, portanto, um ser mais consciente de sua realidade. Os inquisidores olhavam os melancólicos com cautela e com certa perseguição, inclusive. Talvez a melancolia tenha sido o grande mal de toda a Humanidade, já que sua definição anteriormente se mesclava/confundia com a depressão e tantas outras psicopatologias de outrora.

melancolia2

Muitos pregam que “de tanto pensar, não se chega a lugar nenhum!” Isso exatamente é a melancolia! Subitamente, após tantas reflexões sobre sua própria existência, sobre seu papel nessa vida e o que ainda pode ser feito, o indivíduo consciente conclui: “Puxa, então é só isso? Que existência efêmera!” Dessa desesperança, dessa clara e precisa identificação do fim do túnel vem a melancolia. De acordo com as premissas da filosofia Platônica: “A consciência humana é uma maldição”. Prever e antecipar o futuro nos traz desespero e um senso de “fim da jornada”. Muitos pesquisadores afirmam que a maioria dos animais – caímos aqui em outra discussão: o grau de consciência das diferentes espécies animais – vivem o seu dia a dia aparentemente com a mesma intensidade por terem uma visão limitada de antecipação. Obviamente, sabemos que isso é bastante discutível. Outra discussão para uma outra oportunidade.

Daí, tantos outros filósofos igualmente concluem: “A ignorância é acalentadora…” O “não saber” parece, muitas vezes, mais confortante do que a plena e dura consciência da realidade. Sob os rígidos dogmas religiosos, devem existir outras vidas, reencarnações, chances, para que a essência humana, a individualidade, seja perpetuada! “Pelo amor de Deus, que existam (Rsrsrsrs)!” Sem dúvida, essa é uma visão egocêntrica, antropocêntrica e, por que não, egoísta da existência humana. As religiões buscam trazer, justamente, esse conforto, caso você assim aceite.

Dessa conclusão desiludida e indelével sobre nossa vida é que vem o sentimento da melancolia. A melancolia nos faz perceber que a vida é efêmera e que temos que nos apegar aos melhores valores da existência humana para dar valor a ela.  Geralmente, a resposta à melancolia é a busca contínua de estímulos que façam cada ínfimo e mínimo segundo de nossa existência ter algum valor. A melancolia é a desesperança em si, quase o desespero. A resposta à melancolia é a reinvenção do espírito humano.

Acredito que um quadro depressivo seja oriundo dessa desesperança ou, como no eterno dilema do ovo e da galinha, que a melancolia seja produto das anteriormente descritas oscilações dopami-/serotoninérgicas em nossos cérebros. Independentemente de sua origem, a melancolia nos acomete alguma vez na vida, com maior ou menor intensidade. Sendo assim, cabe a você, querido leitor, fazer valer cada momento de sua vida ou simplesmente aguardar, enclausurado, o irrefutável fim de nossa existência. Eu opto pela vida!

Um abraço.

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