Por Regina Tavares

A 87ª cerimônia do Oscar concedeu ao filme Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância o título de grande vencedor da noite, com quatro estatuetas, incluindo melhores filme, diretor, roteiro original e fotografia. O Grande Hotel Budapeste  também mereceu destaque nos autos da sétima arte, afinal rendeu outras quatro estatuetas: melhor figurino, melhor maquiagem, melhor design de produção e melhor trilha sonora.

Como em toda premiação do cinema mais prestigiado do mundo, sempre há buchichos e afins; isso inclui o encontro de ex-cônjuges, vestidos glamorosos, gafes, caras e bocas, injustiçados, azarões e blá, blá, blá… Mas, para não repetir o “mais do mesmo”, como sabiamente Legião Urbana proferiu ao intitular seu segundo álbum de coletâneas, que tal falarmos dos que não foram exaltados no reino das películas? Meu queridinho da vez é Big Eyes.

Durante muito tempo, a sociedade minimizara o papel da mulher como uma mera acompanhante de seu marido e profissional do lar. Na década de 1950, a mídia exaltava imagens da esposa dedicada e mãe exemplar, sempre à margem diante da grande figura do provedor e chefe da casa: o marido. Diante desse contexto é que se encontra a luta de Margaret Keane, uma pintora que ousara ser protagonista e não coadjuvante de sua própria arte e história. Baseado em fatos reais, esse é o roteiro de Grandes Olhos, o mais recente longa-metragem assinado por Tim Burton.

Em meados dos anos 1960, nos Estados Unidos, tem-se a fama do quadro dos Big-Eyes: tratava-se de pinturas de crianças com olhos enormes e melancólicos, bastante desproporcionais aos corpos pequenos e infantis presentes nas recriações. Walter Keane se dizia autor dos quadros que viraram febre americana: eram milhares de cartões, pôsteres e impressões das crianças de olhos perturbadores. Dessa forma, Keane construíra um império: sua galeria de arte rendera muita fama e dinheiro, uma vida regada de inúmeras festas com convidados do mais alto escalão de Hollywood. No entanto, o que ninguém sabia era da existência da verdadeira artista por trás dos Big-Eyes: Margaret Keane, esposa de Walter.

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Um dos grandes momentos do filme é quando uma moça pergunta curiosa: “E quem é o artista?”. Há um minuto de silêncio quase eterno entre Walter e Margaret, quando por fim, Keane toma à frente e diz: “Sou eu”. É neste momento que o espectador se pergunta: “Mas porque Margaret não disse a verdade?”. Além de sofrer ameaças por parte do marido, o mesmo a convence com argumentos em torno de ideias como “as obras não serão levadas a sério, caso souberem que são de autoria feminina”. Aí está uma das grandes críticas apresentadas no filme: o machismo era tão expressivo à época que chega a condicionar a mulher a assumir condescendentemente o papel de coadjuvante social.

Apenas anos depois, ao mudar-se para o Havaí e divorciar-se de Keane, a pintora decide contar toda a verdade à imprensa. Margaret fala ao mundo quem realmente ela é e nos faz relembrar a incrível epígrafe de Mary Daly: “A coragem de ser é a chave para o poder revelador da revolução feminista.”

Inté!

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3 respostas para “MUITO ALÉM DO OSCAR”

  1. Nair disse:

    Adorei o texto em apoio a incrível mulher mudou a história e conquistou sua autonomia.

  2. Larissa disse:

    Acho incrivel a história dela, um exemplo de luta , de que não se deve sofrer calada. Embora o marido tenha tentado, a arte dela era só dela. Sua criação.

  3. História realmente muito interessante e inspiradora.

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