Por Regina Tavares

Lembro como se fosse hoje quando uma amiga, recém-separada, me revelou numa dessas conversas “relevadoras” de salão de cabeleireiro como ocorreu o comunicado de sua separação à direção do colégio do filho, à época, com quatro anos. Segundo ela, diante de sua postura retraída e receosa em virtude do divórcio, a diretora pedagógica foi logo disparando um: “É separação, não é, minha filha?”.

guarda compartilhada

A conversa que começara com o tom “quebra-gelo” terminou confortante e ela se sentiu quase adotada pela experiente pedagoga: “Fica tranquila, minha filha. Divórcios são tão comuns hoje em dia que as crianças nem se abalam. Pelo contrário, adoram a ideia de ter duas viagens de férias, dois presentes de aniversário, dois quartos com decoração diferente e, principalmente, dois pais vivendo em harmonia”.

Era 2011 quando tudo isso aconteceu. O ano ficou marcado pelo recorde de divórcios, segundo o IBGE. O número estimado chegou perto de 352.000 registros civis de separação, um crescimento de mais de 45% se comparado com o ano anterior.

A redução da burocracia legal para a separação de casais foi apontada como um dos motivos mais expressivos para o aumento dos índices. Entretanto, sabemos que a justificativa se expande para outros fatores, tais como a ampla mudança cultural na vida dos casais brasileiros, que perpassa por diversos aspectos, entre eles: os econômicos, os sexuais e os profissionais.

Ontem, o Senado se concentrou na alteração do jovem Código Civil brasileiro ao regulamentar a guarda compartilhada. Apesar desta já ser prevista em lei, a divisão das responsabilidades entre pai e mãe não é idêntica. Com a proposta de Lei, que espera sanção presidencial, o tempo de convivência dos pais divorciados com os seus filhos deve ser equânime. Tudo deverá ser decidido em comum acordo, desde as despesas com a formação acadêmica até as permissões para dormir na casa do amiguinho da escola aos feriados. Nada do conhecido enredo de ter um pai permissivo aos finais de semana e uma mãe rigorosa ao longo do cotidiano trivial. Não há infância que resista a esta ambiguidade.

Sabemos que o projeto de Lei traz inúmeras discussões intensas e sem fácil dissolução como, por exemplo, a antiga perspectiva de que a mãe cuida melhor da criança do que o pai e que, portanto, deveria, naturalmente, assumir a guarda unilateral do filho. É compreensível pensar assim, já que, tradicionalmente, a mulher se ateve aos cuidados do lar e da prole, enquanto o marido supria as necessidades da família. Contudo, é preciso avançar em direção ao bem-estar das crianças. Nenhum pai ou filho deve ser poupado do direito de conviver e de cultivar o amor mútuo dia após dia.

Uma verdadeira revisão de costumes e ideologias tem modificado a constituição das famílias e, consequentemente, a criação e a convivência entre pais e filhos. Porém, o sentimento que une pais e filhos é ancestral. Sendo assim, por que acreditar que os pais não possam exercer plenamente a função de tutores, tão costumeiramente atribuída às mães? Por que creditar a guarda unilateral às mães como uma espécie de vingança aos homens que resolveram reconstituir suas vidas amorosas ou traçar novas perspectivas fora do casamento?

Caros, parafraseando Legião Urbana, só resta dizer que: É preciso amar as pessoas,
como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar,
na verdade não há”.

Inté!

2 respostas para ““Eu moro com a minha mãe. Mas meu pai vem me visitar””

  1. Concordo plenamente em ter a guarda compartilhada do filho, mas, a nosso Presidenta não pode deixar de lado, os porquês da guarda unilateral,pois se houve uma separação de guarda é porque algum motivo teve.
    Em um hospital que trabalhei uma mãe tentou jogar o filho da janela, eu no lugar do pai ficaria apreensivo em deixar meu filho com ela após o ocorrido.
    É uma Lei que precisa de muita reflexão.

    • Você tem razão Elaine! Eu penso que é necessário uma avaliação psicológica de cada um dos pais também, pois assim como você mencionou uma mãe que não merece a guarda do filho, eu tenho uma irmã que não merece também não. Infelizmente, meu sobrinho hoje tem 8 anos, e vive há um tempo só com o pai e não quer nem saber de visitar a mãe, por ter sofrido terrores psicológicos e DEUS sabe mais o quê… Então nesse caso pessoal, eu voto pela guarda unilateral mesmo, é melhor que ele fique com o pai.

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