Por Regina Tavares

O filósofo Walter Benjamim (*1892 – + 1940) disse um dia que a memória era a mais épica das faculdades. Ninguém entendeu muito bem naquela época, mas o que ele queria revelar é que quando se trata de memória, agimos como verdadeiros entusiastas, iluminando as lembranças com acréscimos dignos de roteiros ficcionais.

Graças aos avanços recentes da Neurociência, a tese de Benjamin acaba de ser confirmada, a memória humana é mesmo cinematográfica. Nosso cérebro privilegia o registro de experiências com forte apelo visual e as evoca como lembranças tal qual um roteirista hollywoodiano, inserindo trilhas-sonoras, acrescentando emoções diversas, cultivando enfrentamentos entre o bem e o mal e assim por diante. O mais interessante é que a cada rememoração, nossa mente cria novos roteiros para a mesma lembrança. Dá para deixar qualquer pescador de queixo caído. Sem dúvidas, lembrar não é reviver, é viver algo novo a cada recordação.

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Para o autor Antonio Damásio, respeitado especialista no assunto, “[...] se uma cena tiver algum valor, se o momento encerrar emoção suficiente, o cérebro fará registros multimídia de visões, sons, sensações táteis, odores e percepções afins e os representará no momento certo. Com o tempo e a imaginação de um fabulista, o material poderá ser enfeitado, cortado em pedaços e recombinado como em um romance ou roteiro de cinema” *.

A força simbólica da imagem é tão expressiva que também se acredita que certos momentos memoráveis preservados em nosso imaginário estão sob influência de determinados filmes, propagandas e até programas de TV. A imagem da família preservada na memória, por exemplo, nunca foi e nunca será construída exclusivamente a partir das referências que temos de nossa família real. Várias famílias coexistem no imaginário que temos sobre nossa família. Em nossa memória, portanto, convivem a família do comercial de margarina, a de Don Corleone, a dos Simpsons e sei lá mais o quê.

Há um livro que retrata bem o que estou falando, ambientado no Rio de Janeiro, Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, lançado em 1995, combina memórias e crônicas do autor, borrando os limites entre fato e ficção, ao rememorar o convívio do autor com o pai.

O livro é uma prova interessante de que, ao relembrar nossos pais, especialmente após a morte deles, é possível se deparar com uma “quase memória”; uma coleção de pais, inclusive, daqueles que protagonizam ficções que envolvem a terna e controversa relação com os filhos.

Inté!

* DAMASIO, A. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011 (p.167).

Uma resposta para “Luz, câmera, imaginação”

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