Por Renato Padovese

É mesmo impressionante o efeito que a música exerce sobre o ser humano. Os cientistas explicam que a música ativa os centros de prazer do nosso cérebro, estimulando a formação de sinapses neuronais. Por esta razão, acreditam que teria o poder de ajudar no desenvolvimento neurológico de crianças, além de trazer outros benefícios à saúde como a prevenção do mal de Alzheimer e o combate à depressão. Afinal, qual mãe nunca colocou Mozart no quarto de seu bebê? Quem nunca se tranquilizou diante de uma perda ou se lembrou de alguma passagem marcante da vida ao ouvir uma música? Qual casal apaixonado não tem a “sua” música? Alguns casais têm várias, uma para cada fase do relacionamento.

Eu me lembro muito bem de uma vez em que a música exerceu seu efeito mágico em mim. Tinha uns 19 anos, estava a caminho da faculdade, na avenida Amador Bueno, mais ou menos na altura da avenida Tiquatira. No rádio do carro começou uma música maravilhosa, combinação perfeita de melodia, voz, harmonia, arranjos, letra, que exerceu um impacto imediato, uma identificação instantânea. Fiquei curtindo aqueles poucos minutos de êxtase, logo interrompidos pelo locutor que anunciou: “acabamos de ouvir You Make Me Love You, de Roger Hodgson”.

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Ora, Roger Hodgson, principal vocalista e cofundador da banda inglesa Supertramp, tinha sido a grande ausência do primeiro e único show da banda no Brasil em 1988, um tempo onde companhias de cigarro patrocinavam eventos musicais. Eu já era fã de carteirinha da banda, o que explica em parte o meu fascínio. Roger deixou o Supertramp em 1983, por divergências artísticas com o outro vocalista e compositor da banda, Rick Davies. Roger e Rick eram como Lennon e MacCartney, compunham separadamente, mas assinavam juntos a autoria das músicas. Provavelmente, tinha ficado complicado conciliar os dois estilos num mesmo álbum. No ano seguinte, Roger lançou seu primeiro trabalho solo In The Eye Of The Storm.

Naquela época, como podem imaginar, não havia estes aplicativos de smartphone que reconhecem a música e já direcionam ao iTunes Store, onde se pode baixar a faixa por 0,99 dólares. Então, só me restou sair em peregrinação por lojas de discos à procura de algum outro álbum solo do Roger. Porém, passaram-se dez anos e as buscas se mostraram infrutíferas. Nenhum sinal, nenhuma pista. Dez anos e nada. E nada da música sair da minha cabeça. Mas havia uma esperança, eu viajaria ao Reino Unido para um estágio num instituto de pesquisa britânico. Impossível não encontra-la no país natal do meu ídolo.

De fato, foi o que ocorreu. Numa megaloja da Virgin Records, finalmente encontrei o álbum Hay Hay, de 1987, e estava lá, na faixa quatro, a bela canção You Make Me Love You. Depois, fiquei sabendo que, na mesma semana em que o disco foi lançado, Roger sofreu uma queda em casa, fraturando os dois pulsos. Os médicos disseram que ele jamais voltaria a tocar. Mas, depois de um longo período de recuperação, contrariando o prognóstico fatalista, ele não só voltou a tocar como lançou mais um álbum em 2000, chamado Open The Door. Em 2004, reuniu uma nova banda e passou a excursionar pelo mundo, tocando os sucessos de sua brilhante carreira.

Felizmente, para os brasileiros, Roger já esteve no nosso país algumas vezes. Na última delas, em 2012, como o tour incluía nove cidades, decidi assistir a mais de uma apresentação. Além do show em São Paulo, a outra cidade escolhida, pela proximidade, foi Campinas. Também ajudou o fato de o show ser num sábado, assim eu poderia levar a família e passar o fim de semana na cidade. Eu me lembro muito bem, estava ansioso porque já tinha em mãos os ingressos para São Paulo mas o show de Campinas não iniciava a venda. Busquei um e-mail no site oficial do cantor para questionar a suposta demora. Para minha surpresa, a resposta veio rápida, muito educada, me pedindo para aguardar porque, em breve, os ingressos seriam comercializados. Ao agradecer, arrisquei: “ask Roger to play You Make Me Love You”. Desta vez, não houve resposta alguma.

O show em Campinas seguia arrancando suspiros, aplausos e gritos a cada um dos clássicos do Supertramp executados: The Logical Song, Give a Little Bit, Dreamer, It’s Raining Again, Fools Overture, entre muitos outros. Lá pela metade da apresentação, antes iniciar mais um número, ele começou dizendo que iria cantar uma canção que há muito tempo não tocava “especialmente para Campinas”. Os primeiros acordes me remeteram àquela manhã dentro do meu carro, fiquei alucinado, parecia que estava revivendo as mesmas sensações da primeira vez que ouvi You Make Me Love You.
Por algum motivo, o meu singelo e despretensioso pedido, o famoso “se pegar, pegou”, foi atendido. Talvez, para dar a esta história o desfecho perfeito. O problema desta explicação é que… a história ainda não tinha acabado.

No dia seguinte, estava eu circulando pelos corredores do hotel, fazendo hora até o momento de partir, quando encontro Roger Hogdson em carne e osso. Fiquei paralisado, incrédulo. O meu ídolo ali parado, na minha frente, sozinho. Uma felicidade imensa inundou meu corpo. Estava gelado, mas suava, parecia uma adolescente diante do Harry Styles (que vem a ser o integrante mais bonito da banda One Direction, segundo minha filha). Passada a paralisia inicial, consegui pronunciar algumas palavras e, na conversa, ele confirmou que tocara a música a pedido. Outras pessoas foram se juntando a nós e ele, muito simpático, atencioso e amável, atendia a todos.

E para dar, agora sim, a esta história o desfecho perfeito, eu busquei no carro aquele CD comprado na Virgin Records de Glasgow, cuja faixa quatro todos já conhecem, e pedi um autógrafo.

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Autógrafo de Roger Hodgson.

Toda essa introdução foi pra dizer que o Roger Hodgson está novamente em turnê pelo Brasil e, nesta quinta-feira, estará em São Paulo. Ingressos ainda disponíveis em rogerhodgson.com.

Não perca!

Para escutar a música que motivou este post, clique aqui.

3 respostas para “História de uma música”

  1. Andreia disse:

    Ao ler o seu depoimento confirmei que realmente a música acalma, emociona e cura. Somos tocados pela melodia e pela letra mas, o que nos envolve são as histórias vividas e embaladas pelas canções de época, pelo repertório familiar. E assim…
    Oh baby tudo bem…Você pode sentir que o seu coração está ficando mais velho…
    Você pode sentir que o mundo está ficando mais frio…
    Sua seguidora.

  2. Andréia disse:

    Realmente a música cura, nos emociona, nos acalma. Atravessamos a linha do tempo de nossa vida escutando e degustando as belas canções que nos marcou…àquelas que permearam histórias, grandes paixões. E esse tempo volta com a nitidez do presente. Transcendemos anos de vida conduzidos pela música. É como nos contos de fada…as canções, ou melhor, as nossas canções são carruagens que nos levam ao paraíso… Por uma bela canção retornamos e avançamos no tempo. Tempo que deixou histórias e sentimentos outros…
    “…When the winter wind is a-blowin’, well you never know where it’s goin’
    For the land is cold and the night is closing in
    You can feel your heart is getting older,
    you can feel the world is getting colder…”
    …Oh baby…

  3. Adorei o blog de vocês, gostaria de sugerir alguma matéria sobre a música sertaneja, que tal em? um abraço

    Stênio

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