Por Renato Padovese

A morte trágica de Eduardo Campos provocou manifestações de pesar por todo o país, provocou lamentações pela perda de uma jovem e promissora liderança política e provocou, sem dúvida, uma reviravolta sem precedentes na eleição presidencial deste ano. Provocou também o jornalista André Petry a escrever um belíssimo ensaio na revista Veja sobre a influência dos líderes políticos nos rumos da história das nações. O texto foca mais na morte de líderes como eventos capazes de alterar o curso da história, como a do líder trabalhista John Smith que abriu caminho para Tony Blair sagrar-se o mais jovem primeiro ministro inglês desde 1812. Cita também o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, e a morte de Tancredo Neves, em 1985, que teriam levado o Brasil a desvios definitivos em seu caminho.

Para alguns pensadores, o líder é mero coadjuvante dos acontecimentos cuja ocorrência não se deve à influência pessoal, mas sim às condições econômicas e à força das massas. Outros, no entanto, acreditam que é preciso levar em conta também os valores, a cultura e a ética e, nesse contexto múltiplo, o papel do líder é, sim, decisivo para moldar a marcha da história. Para estes, a história do século XX, por exemplo, é resultado da influência direta de seis líderes: Vladmir Lenin, Josef Stalin, Franklin Roosevelt, Winston Churchill, Adolf Hitler e Mao Tsé-Tung. Sem eles, o século seria outro. E Petry lança a pergunta: quem está com a razão? Para colaborar com esta discussão, vou contar a história de um líder mesquinho e corrupto, cuja decisão está na raiz do problema que assistimos hoje: o confronto entre o Hamas e o exército Israelense que já matou mais de 2 mil pessoas.

Em julho de 2000, a Cúpula para a Paz no Oriente Médio, que reuniu o presidente americano Bill Clinton, o primeiro ministro israelense Ehud Barak e o presidente da Autoridade Palestina Yasser Arafat, chegava ao fim. Barak havia oferecido a Arafat cerca de 90% da Cisjordânia, a totalidade da Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental para a nova capital do futuro país. Além disso, seria constituído um novo fundo para indenizar os palestinos refugiados pela perda de suas propriedades. Foi a maior concessão já feita pelos israelenses, uma oportunidade histórica de encerrar o longo sofrimento do povo palestino. Para espanto geral, no entanto, Arafat recusou a oferta e exigiu o retorno dos refugiados aos territórios ocupados, algo que ele sabia que Israel jamais aceitaria. E para enfrentar as críticas e a pressão internacional contra sua posição, nada melhor do que derramar um pouco de sangue de inocentes diante das câmeras. Arafat articulou com o então incipiente grupo Hamas a organização de uma revolta popular contra a “ocupação e opressão israelense” e aguardaram apenas o melhor momento para dispará-la. A oportunidade surgiu em setembro daquele mesmo ano, após a visita do líder do partido conservador Likud, Ariel Sharon, a uma região próxima à Mesquita Al-Aqsa. A violência que se seguiu deu origem à Segunda Intifada Palestina, que se estendeu até 2006, deixando um rastro de quase 5 mil mortos.

A recusa foi catastrófica para o povo palestino, mas garantiu a Arafat a manutenção do status de símbolo internacional da vitimização, uma posição muito mais confortável do que ser responsável por construir uma sociedade funcional. Porém, ele logo descobriria que havia colocado o ovo da serpente. Em pouco tempo, o grupo terrorista Hamas se fortaleceu, expulsou seus correligionários da Autoridade Palestina e assumiu o controle da Faixa de Gaza, transformando a paz no Oriente Médio numa quimera. Agora responda: se Arafat tivesse decidido diferente, a história seria outra?

Uma resposta para “OS LÍDERES E A HISTÓRIA”

  1. Márcio André Macedo disse:

    Professor Renato, quero me retratar sobre o ocorrido no início do ano.

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