CARTAS NA MESA

18/ago/2014

Por Regina Tavares

A Folha de S. Paulo, curiosamente, não é conhecida apenas por sua tradição jornalística, mas também por suas memoráveis campanhas publicitárias. Aliás, é o jornal brasileiro com o maior número de premiações no festival de publicidade de Cannes.

Vai dizer que não se recorda da célebre criação de Washington Olivetto intitulada Hitler. Trata-se de um mero pontinho monocromático que se soma progressivamente a outros ao som de uma narração impactante na qual o locutor revela todos os méritos do homem que se formava na imagem em preto e branco. Nada mais, nada menos que o ditador que comandara um dos maiores genocídios da história da humanidade. A peça publicitária se encerrava da seguinte forma: “É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade. Por isso é preciso tomar muito cuidado com a informação no jornal que você recebe. Folha de S. Paulo, o jornal que mais se compra e o que nunca se vende”.

O destaque agora vai para a campanha que celebra os 93 anos do segundo jornal de maior circulação do país, criada por Ricardo Chester e denominada “O que a Folha pensa”. Nela, uma série de perfis estereotipados é exibida enquanto a opinião geralmente surpreendente dos personagens é revelada.

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A ideia central é abandonar o estigma de imparcialidade que ainda carrega a maior parte dos veículos jornalísticos do ocidente. Digo isso, pois na Europa esta discussão sobre imparcialidade editorial já não figura entre a imprensa e, muitos menos, entre os leitores. Lá, muitos veículos assumem posturas partidárias, filosóficas e ideológicas sem temer censura ou recusa do público. Já no modelo norte-americano que indiscriminadamente tendenciou e tendencia o jornalismo brasileiro, é marcante a busca esquizofrênica por uma imprensa sem time, sem partido, sem religião e sem opinião concreta sobre assuntos polêmicos.

Eis um impasse para a democracia. Pois ao passo que a farsa da imparcialidade progride e se alastra, o público-leitor é conduzido por meio de manobras e artifícios a pensar de uma determinada maneira sobre diversos fatos sem julgar que há manipulação efetiva nas entrelinhas dos textos travestidos de isentos. Afinal, o texto carrega adjetivos, verbos e substantivos introdutores de opinião explícita. É o que acontece quando se opta em dizer “eles invadiram as terras tais…” e não “eles ocuparam as terras tais…”. É dispensável dizer como as fotografias, os infográficos e os demais elementos iconográficos também são farinha do mesmo saco. Selecionar um ângulo “X” em detrimento do “Y” já exprime a opinião do fotógrafo, reza a corrente teórica norte-americana Newsmaking.

Outro dia desses, a Folha que se vangloriava de ter contestado o Golpe Militar no Brasil (1964-1984) julgou em um de seus editoriais que a Ditadura não passava de uma Ditabranda. Mas era um comentário despretensioso e isento, né!?

Ao longo do século XX, a divisão entre publicidade e imprensa era notória e respeitada nos veículos de comunicação. É a guerra velada entre Estado e Igreja, diziam alguns jornalistas que evitavam cruzar com publicitários no corredor do jornal para evitar a possível tentação de preservar um anunciante em potencial numa reportagem que o levaria à falência. Hoje, a fronteira que divide os dois setores está cada vez mais tênue. Não quero com isso dizer que a submissão aos anunciantes e a determinados partidos políticos seja condicionante para a sobrevida em meio a um mercado fragilizado pelas novas tecnologias. Afinal, sem independência para publicar, não há credibilidade e sem credibilidade não leitores. Simples assim.

Entretanto, não sejamos ingênuos. Todo veículo jornalístico tem um mantenedor que necessita de lucro para manter a estrutura técnica, tecnológica, logística e humana de seu negócio de pé. E, nesse sentido, sua filiação a determinadas personalidades do poder político e empresarial pode lhe custar a derrocada ou o sucesso incontestável.

Não à toa, a Folha traz uma campanha que declara a opinião do veículo sobre temas polêmicos, como o casamento gay, a legalização das drogas, as cotas raciais etc. A cereja do bolo está no contexto em que a campanha é lançada: pré-eleições presidenciais. A Folha quis se libertar o quanto antes do ranço de imparcialidade que ainda carrega a imprensa nacional para declarar sem grilos e culpa seu amor e ódio pelo candidato “A” ou “B”, ainda no primeiro turno.

Aguardemos a edição desta declaração tão óbvia.

A seguir, uma lista, publicada pela Meio e Mensagem com a opinião da Folha de S. Paulo sobre alguns temas polêmicos:

Aborto – O jornal considera uma questão de saúde pública, no qual prevalecem os direitos da gestante

Bolsa Família – A favor de programas de transferência de renda e das atuais contrapartidas colocadas a seus beneficiários, mas critica as poucas portas de saída de usuários

Cotas – A favor de definições segundo critérios sociais, e não raciais

Cuba – O jornal considera injusto o embargo americano, mas critica a anuência do Estado brasileiro com violações de direitos humanos no País

Cultura – A favor da livre produção intelectual, sem censura, como no caso de biografias não-autorizadas, e também de direitos autorais sobre obra

Doações a políticos – Sustenta que esses valores devem ter teto, mas admite que empresas possam doar

Drogas – A favor da descriminalização, começando pela maconha, porém em coordenação internacional

Educação – Diz ser “imperiosa” a definição de um currículo nacional mínimo, “enxuto, sem experimentalismos”

Eleições – É a favor de voto facultativo, distrital em lista aberta e defende tempo de TV e fundo partidário proporcionais a desempenho parlamentar

Internet – Apoia a neutralidade de rede em discussão no Marco Civil e a formulação de um plano de remuneração aos produtores de conteúdo

Israel-Palestina – Contra os assentamentos de judeus em território palestino, defende dois Estados de capital compartilhado

Mercosul – Defende que o bloco opere tão somente como zona de livre-comércio

Mobilidade urbana – Diz que tarifa zero em transportes públicos é uma medida irrealista

Previdência – Apoia a reforma, com aumento da idade da aposentadoria

Privatização – Defende conceder mais serviços públicos a empresas privadas

Saúde – Apoia uma reforma gerencial do setor, citando as organizações sociais, e diz que recorrer a médicos estrangeiros é aceitável, embora paliativo

Segurança pública – Contra pena de morte, maioridade penal e endurecimento de penas; a favor de progressão de regime nas prisões e de penas alternativas

União homossexual – A favor do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo com os mesmos direitos de uniões heterossexuais

2 respostas para “CARTAS NA MESA”

  1. RICARDO disse:

    Parabéns pelo texto.
    Perfeita criação.

    Ricardo

  2. Nair disse:

    As diversas opiniões do jornal da Folha de São Paulo apresentam um quadro da sociedade moderna em que questões polêmicas como a legalização das drogas são ainda muito discutidas.

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