Por Renato Padovese

Como escreveu a colunista do Estadão Dora Kramer, a Copa do Mundo de 2014 comprovou o óbvio: o prazo de validade das previsões, das catastróficas às mais otimistas, é ditado pelos fatos. Parecia claro como água que os atrasos nas obras, os gastos exorbitantes, os superfaturamentos, os improvisos da organização, além do histórico de maus serviços públicos e o clima tenso no país, não apontavam para um desfecho diferente de um desastre total. Nada disso. Os mais de 600.000 estrangeiros que para cá vieram ficaram encantados com nosso país e com o acolhimento e a alegria do nosso povo. Uma pesquisa do Datafolha revelou que 92% dos visitantes elogiaram tanto o conforto quanto a segurança dos estádios e que 95% avaliaram a hospitalidade dos anfitriões como ótima ou boa. Colaborou também a sucessão de jogos espetaculares e a exibição de gala de craques como há muito tempo não se via. Sem dúvida alguma, um retumbante sucesso.

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Da mesma forma, as expectativas otimistas em relação à conquista do hexacampeonato também não se confirmaram. A realidade tratou de demolir o prognóstico e a seleção brasileira protagonizou o momento mais vexatório de sua história ao ser aniquilada por 7 a 1 pela seleção alemã. Um placar jamais visto numa semifinal, impensável considerando equipes de ponta. A tristeza e a frustração geraram um festival de piadas que inundou a internet. A suprema humilhação brasileira rendeu 35 milhões de posts no Twitter, superando o recorde anterior de 24,9 milhões da final do Super Bowl no começo do ano. O grau de desespero e desorientação da torcida brasileira foi tamanho que já há quem acredite no fim da mística da camisa canarinho.
A icônica camisa da seleção brasileira simboliza a força do nosso futebol. E é curioso que ela tenha surgido após a nossa, até então, maior tragédia em campo, a perda da Copa do Mundo de 1950 para o Uruguai por 2 a 1 no Maracanã. O goleiro Barbosa acabou personificando o fracasso do time, mas sobrou até para o uniforme da seleção, uma camiseta branca com colarinho azul. Para o jornal carioca Correio da Manhã, o traje sofria de “falta de simbolismo moral e psicológico” e, com o apoio da Confederação Brasileira de Desportos, lançou um concurso para desenvolver um novo uniforme que deveria conter, necessariamente, todas as cores da bandeira brasileira. O vencedor foi Aldyr Garcia Schlee, um jovem de 19 anos, que trabalhava como ilustrador num jornal de Pelotas. A criação de Aldyr, a fantástica geração de Pelé e Garrincha e o advento da TV em cores ajudaram a construir o mito. Porém, aqueles quatro gols sofridos em apenas seis minutos parecem ter destruído nossa fortaleza.

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Ainda traumatizadas, as pessoas têm procurado um caminho para a recuperação do futebol brasileiro. Talvez o melhor e mais óbvio seja seguir aquele trilhado por nosso algoz, que reestruturou seu futebol após o fiasco da Eurocopa de 2000. Ideias mais criativas também têm aparecido, como a intervenção estatal proposta pelo Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, e a possível criação de uma “Futebolbrás” para “modernizar” nosso futebol. Na minha singela opinião, devemos repetir o que já se fez com sucesso no passado, ou seja, substituir o uniforme da seleção brasileira e acabar de uma vez por todas com essa infame camisa amarela. Para não perdermos tempo, sugiro adotarmos o segundo colocado do concurso do Correio da Manhã, concebido por Nei Damasceno: camiseta verde, shorts branco e meias amarelas.

7 respostas para “O FIM DA CAMISA CANARINHO”

  1. Evelise disse:

    Adorei ! Parabéns

  2. Rodrigo disse:

    Parabéns Prof Renato pelo por mais esse texto atual, pertinente e com um toque de bom humor.

  3. Rodrigo disse:

    Prof Renato, como sempre surpreendendo com ótimos textos e por fim com um toque de humor.

  4. Rodrigo disse:

    Acho que não existirá cor de camisa que reverterá situação tão desastrosa. Mas respeito sua ideia de mudança.

    • Renato Padovese disse:

      Caro Rodrigo, também acho que a camisa não pode ser culpada. Mas é incrível que isto já aconteceu no país, em 1950. Felizmente evoluímos um pouco, a derrota foi sofrida, mas a vida segue. Abraço,

  5. Eduardo disse:

    Foi uma pena mesmo, mas espero que na proxima seja melhor.
    muito legal o blog

  6. Parabéns Prof Renato pelo por mais esse texto atual, pertinente e com um toque de bom humor.

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