Bye Bye Brazil

25/abr/2014

Por Prof. Marcelo Paes de Barros

the_economist_Brasil

A figura ilustrativa desta matéria apresenta duas capas da revista “The Economist”: à esquerda, de uma edição em 2008 e, à direita, do final do ano de 2013. As reportagens – que mereceram a capa da revista nos respectivos anos – descrevem, de maneira tragicômica, o enorme fracasso econômico brasileiro frente às enormes perspectivas mundiais previstas há 5 anos. Como a primeira letra do acrônimo BRICS, que se refere aos atuais países emergentes, o Brasil nunca apresentou resultados solidamente indicativos de pleno desenvolvimento econômico, balanço comercial (e estabilizado) positivamente ou proeminentes superávits, embora o investimento exterior tenha apostado muito nisso. A aposta internacional no mercado brasileiro se deve, em geral, ao fato de que os brasileiros:

(i) são consumidores vorazes, principalmente de produtos supérfluos e itens de estética e luxo; (ii) são complacentes e coniventes, sem protesto, de preços abusivos por itens que custam até 60% menos em países vizinhos, como automóveis, passagens aéreas, etc.;

(iii) acima de tudo (para plena satisfação do empresariado), não vão atrás de seus direitos como consumidor quando são mal atendidos ou enganados, algo que conjumina com a morosidade da justiça em favor à política do “resolvemos se reclamarem” aplicada por várias empresas no Brasil.

Além das irrefutáveis desilusões econômicas, o Brasil também não conquistou melhores índices de desenvolvimento humano (IDH) ou índices de Educação Básica (Matemática, Ciências ou Interpretação de Textos/Língua Portuguesa) nestes cinco anos. Muito pelo contrário. Em função de insuficiente investimento na formação dos jovens no Ensino Fundamental e Médio, o Brasil hoje se defronta com uma massa de trabalhadores habilitados no papel (diploma), mas efetivamente analfabetos funcionais para as tarefas às quais foram teoricamente preparados. E nada disso mudará para as próximas turmas de formandos.

Por quê perdemos essa propulsora onda econômica? Infelizmente, meus amigos, por que no Brasil o planejamento é algo subvalorizado. Improvisar, remediar ou botar panos quentes são práticas frequentemente aplicadas, pois estão incrustradas na filosofia de vida da maioria dos brasileiros. A corrupção e suas vertentes nefastas como o apadrinhamento, o corporativismo e desprezo à meritocracia são, a meu ver, as piores mazelas do desenvolvimento brasileiro.

Rever programas humorísticos dos anos 80 (p.e. Viva o Gordo, Chico City, etc.) é, para mim, mais angustiante do que nostálgico. A estagnação perene do País fica explícita pois claramente percebemos que aquelas mesmas piadas de 30 anos atrás podem ser reproduzidas hoje, sem mudar sequer uma vírgula! Desde que adquiri certa consciência civil, me angustio diariamente ao testemunhar os crimes de corrupção e de desvio de verbas da Educação nos jornais matinais.

O povo brasileiro é egoísta e desprovido de senso de comunidade, dizem os antropólogos. Cada um olha para seu próprio umbigo, arrematam estes estudiosos. Segundo estudos sócio-políticos, esse comportamento individualista do brasileiro se deve a alguns fatores interessantes:

(1) como um País tropical, “aqui plantando, tudo dá”! Há, no Brasil, uma inacreditável abundância de recursos naturais e produtos alimentícios. Nunca, de fato, tivemos que fazer qualquer racionamento ou passamos por catástrofes ambientais suficientes para afetar o provimento de alimento à população, como um todo. Claro, sérios problemas, anos a fio, no sertão nordestino, mas votos de cabresto, evasão rural e coronelismo têm abrandado bastante o problema (leia com tom extremamente irônico aqui). Veja a tamanha diferença ao compararmos as mazelas das populações europeias que, historicamente, foram alimentadas à base de batatas por séculos e séculos!

(2) nunca passamos por uma guerra avassaladora, a qual exigisse a união do povo – portanto, um forte espírito coletivo – para a reconstrução do País. Mirem-se, meus amigos, nos exemplos do Japão e da Alemanha. Por força do destino, esses povos primam pelo planejamento, pela organização e pela força do trabalho. Cada um fazendo a sua parte na sociedade e, em conjunto, estruturando o progresso e bem-estar. Mesmo com fortes crises econômicas mundiais, esses países oscilam mas sempre retornam à frente das economias mundiais.

(3) nossos colonizadores, os portugueses. Infelizmente, os portugueses viam o Brasil como um enorme terreno a ser explorado e extirpado. Não digo que os ingleses e holandeses não tinham as mesmas perspectivas colonizadoras, mas primaram pela estruturação de suas colônias para usufruírem de melhores condições no futuro também. Planejamento é a palavra de ordem aqui.

Mas quem somos nós, prezados leitores? Somos formigas quase afônicas protestando mas sufocadas por uma multidão que grita “Gol!” ou que vibra quando a personagem coitadinha finalmente dá um tapa na cara da sua vilã (isso, por volta das 21.30h, em um fatídico dia da programação de uma grande emissora de TV).

Somos um grupo de pessoas mais esclarecidas tentando se fazer ouvir em um País miserável de cultura e de senso civil. Não somos o Brasil. Somos a exceção, o ponto fora da curva. Conformem-se com isso ou tentem, ao menos, fazer a sua parte. Não sucumbam a seus valores éticos, ao senso do que é certo ou errado e propaguem esse princípio a seus amigos, parentes e principalmente, a seus filhos. Quem sabe um dia?

Triste, despeço-me.

6 respostas para “Bye Bye Brazil”

  1. Claudia Xavier de Melo disse:

    Concordo com sua perspectiva acho inacreditável ter que conviver com tanta corrupção, ver o nosso patrimônio que é a Petrobrás se acabar debaixo do nosso nariz, mas o que importa é reeleição. A economia péssima, porém o que importa é a coletiva do técnico de futebol. As pessoas morrendo em hospitais por falta de atendimento, merenda escolar com larvas, quando o que realmente interessa para os governantes é qual CPI vai sair primeiro “que pais é esse”.

    • Marcelo Barros disse:

      Obrigado pelos comentários, Cláudia!
      Realmente, nos vemos em um beco sem saída. Quem reflete sobre as mazelas que sofremos não tem força para se fazer ouvir. Gritos afônicos enquanto a galera grita “Gol!” :(

  2. Yoshinori Miyazaki disse:

    Belo artigo!
    Em um próximo vale salientar que ao que tudo indica vamos perder a janela demográfica, pois muito pouco foi feito nos últimos 20 anos. A grande massa de jovens na faixa de 12 a 25 anos não se tornarão universitários em sua maioria. Ou seja, pouca chance de se tornarem classe média, na concepção americana atual (rendimento anual entre USD50 a USD100 mil) durante boa parte da sua carreira profissional. Com impactos sinistros na previdência e na economia.
    Outra sugestão seria uma comparação da concepção de classe média de alguns países, pois temos hoje parte de favelados classificados como “classe média”.
    Abraços,
    Yoshinori

    • Marcelo Barros disse:

      Valeu Yoshinori!
      Vc tem toda a razão! Além do despreparo atual dos jovens (em sua maioria), em breve não haverá sequer massa crítica para alavancar o mercado produtivo. Sinistro, como vc mesmo disse…
      Um abraço, amigo!

  3. Cristina Vardaris disse:

    Adorei a materia! Você disse tudo o que esta entalado na garganta de todos nos! Na ultima quinta feira, em uma conversa com alguns professores, ficou nitido que a insatisfaçao é algo que esta no nosso dia a dia mas que nao fazemos absolutamente nada para mudar essa condiçao. Nao reclamamos sos pais dos alunos sobre indisciplina, nao o punimos quando ele desacata um funcionario da escola (mesmo que exista uma lei que condene aquele que desacate um funcionario publico no exercicio da sua funçao). O nome disso é passividade e um excesso de assistencialismo (mas isso é uma outra discussão). Somos passivos com com tudo de ruim que nos acontece, pois somos levamos a acreditar que nada mudara. Tratamos nossos governantes como reis sendo que eles que deveriam nos tratar desta forma. Mas mesmo assim, eu ainda acredito que um dia, tudo isso mude, para melhor é claro! bj

    • Marcelo Barros disse:

      Oi Cris!
      Sim, e vc tem experiência no Ensino Médio e pode dizer com propriedade. Deve ser mesmo uma tarefa para lá de difícil,mas se há algum futuro para estes jovens, este também está em suas mãos! Força! :)
      BJ

Deixe uma resposta

ASSINE O FEED RSS

Acompanhe nosso blog pelo feed

O BLOG

O objetivo central do veículo é estimular o senso crítico e o poder de reflexão de seus leitores sobre temas que transitam entre conhecimentos científico e de caráter geral.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

TAGS