Por Renato Padovese

A convite da professora Úrsula Lanfer Marques, minha orientadora do mestrado, ingressei no PAE (Programa de Aperfeiçoamento do Ensino) como monitor da disciplina que ela era responsável na graduação, Química e Bioquímica de Alimentos. Meu papel era preparar as aulas práticas e ajudar os alunos durante as atividades no laboratório. Foi assim até quase o final do semestre, quando ela me pediu para desenvolver uma prática inteiramente nova, em substituição àquela que já vinha ministrando até então, sobre “escurecimento não-enzimático”. Dentro desta temática, escolhi abordar uma reação entre carboidratos e aminas (ou aminoácidos) importante na ciência dos alimentos, a reação de Maillard. Os produtos desta reação, as melanoidinas, conferem a cor, sabor e odor típicos dos alimentos cozidos ou assados. Aquela crosta dourada e deliciosa do pãozinho, por exemplo, é fruto da reação de Maillard.

Lembrei-me deste fato após tomar conhecimento de uma nova hipótese científica que procura explicar a formação da imagem de Jesus Cristo no Santo Sudário. Este tecido de linho de grandes dimensões, na qual ficou gravada a imagem de um homem açoitado e morto na cruz, talvez seja o objeto mais fascinante e polêmico do mundo ocidental. Os mistérios que envolvem o pano atiçam a imaginação tanto dos religiosos quanto dos ateus e céticos. Desde sua aparição no século 14, os céticos trataram de classificar a relíquia como fraude, uma pintura ou desenho feito por algum artista medieval. O troco dos religiosos veio em 1898, quando a primeira fotografia feita do Sudário mostrou o que poderia ser um miraculoso retrato de Cristo. Na verdade, é seu negativo fotográfico que revela uma imagem tridimensional bastante convincente do rosto de um homem de olhos fechados.

 Jesus

Estas fotografias desencadearam o debate moderno sobre o Sudário, aumentando a pressão da comunidade científica para que a Igreja Católica liberasse a peça para maiores estudos. Finalmente, em 1978, um grupo de cientistas americanos, numa iniciativa chamada STURP (Shroud of Turin Research Project – Projeto de Pesquisa do Santo Sudário), teve permissão para realizar uma série de exames de alta tecnologia, a fim de determinar como a imagem foi produzida. Os achados do grupo apontaram para a autenticidade da relíquia, corroborando a ideia de que o lençol um dia envolveu o corpo morto de um homem coroado com espinhos, crucificado e sepultado de acordo com os costumes judaicos na região de Jerusalém do século 1. Em outras palavras, o Santo Sudário é a evidência material da existência de Jesus Cristo.

Porém, alguns cientistas ainda eram tentados a imaginar que a formação da imagem era o vestígio de algum milagre e não um fenômeno puramente natural, como é mais sensato supor. Até que um dos mais respeitados cientistas do STURP, Ray Rogers, percebeu que a imagem era o produto de uma reação química ordinária, justamente aquela que um dia eu demonstrei aos alunos do curso de Farmácia da USP. O linho apresenta carboidratos em sua composição, resultado dos processos de fabricação e lavagem. Um corpo em decomposição libera amônia e aminas biogênicas, como putrescina e cadaverina, que começam a ser produzidas bem rapidamente depois da morte. As aminas reagiram com os carboidratos do pano e as melanoidinas resultantes coloriram as fibras, produzindo uma impressionante representação do corpo humano, a qual nenhum artista jamais ousou conceber.

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4 respostas para “EU CREIO NO JESUS CRISTO RESSUSCITADO – PARTE II”

  1. Paloma disse:

    Confesso que não saberia explicar para outra pessoa essa tal de “reação de Maillard” rsrs.. mas foi a explicação mais simples e convincente que eu já vi sobre esse assunto, que na minha opinião, é fascinante!

    • Renato Padovese disse:

      Cara Paloma, eu me esforço para isso, explicar algo complexo de maneira simples e convincente. Acho que quando o assunto é fascinante, ajuda.
      Obrigado por seu comentário.
      Renato.

  2. Iara Cazei disse:

    Amei…Parabéns!Vou divulgar esse texto!

  3. Renato Valcazara disse:

    Parabéns pela sua iniciativa de tentar explicar mais esse milagre. Vários cientistas de renome internacional já tentaram. Mas quando a gente não conhece bem sobre um assunto, ou sequer pesquisou os avanços que chegaram as pesquisas, inclusive da NASA, a gente acaba falando bobagens e quase dando uma receita para limpar “carburador de motor” 3 tempos….mas continue tentando, só não acredite muito no que vc fala…aliás não falou nada, né mesmo!!??

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