Então, é natal!

04/dez/2013

por Regina Tavares

Sabe-se que é natal, quando se é acometido por uma furtiva sensação de impotência. Eu diria que, mais precisamente, quando alguns ciclos teimam em se encerrar à revelia de sua vontade ou aprovação. Você afirma que ainda não é hora, mas como um hóspede inconveniente, ele teima em chegar. Parece-me um momento propício para atestar nossa finitude ante o frenético cotidiano da humanidade dita “moderna”. Em suma, é a mais cabal evidência da superioridade do tempo em detrimento do ser.

Para sentir isto que procuro descrever, talvez sem sucesso, não se impõe o requerimento da sabedoria ou coisa que o valha. Ao nosso redor, claros sinais denunciam a época que teima em se impor. Casas humildes e sofisticadas se rendem aos adornos natalinos; certos discursos são abrandados e todos parecem querer redenção; circuitos comerciais insistem em anunciar liquidações arrasadoras e as pessoas aceitam se submeter a tal fraude, apesar de saberem da inviabilidade desta prática em um momento de ápice do consumo; “velhas-novas” promessas são proferidas; bons velhinhos passam a circular em público; inegáveis balanços são feitos em diferentes níveis, das empresas competitivas aos divãs terapêuticos e, finalmente, passamos a ouvir elaborações costumeiras como: “Nossa, o tempo voou. Então, é natal”.

Salvador Dali

(Quadro: A persistência da memória – Salvador Dali (1931))

 

E não cabe aqui creditar a sensação de insegurança quanto ao controle do tempo somente à contemporaneidade. A incomensurável fragilidade humana perante o tempo não é de hoje, na verdade, sempre foi inspiração para as artes, as literaturas, as religiões e o senso comum. Este tema coexiste em Salvador Dali, Goethe, Cristo e simpatias seculares. O tempo motiva e é motivo de nossa existência.

 

Outro dia mesmo ouvia o rádio, naqueles momentos de reflexão compelidos pelo trânsito, e algum economista futurólogo já se propunha a fazer tessituras sobre a tragédia anunciada de 2014. Segundo ele, o ano será terrível para o crescimento do PIB e a rentabilidade nacional, dado os 15 dias de feriado potencialmente emendados, o Carnaval, a Copa do Mundo, as Eleições e sei lá mais o quê.

 

Eu, em minha vã filosofia, só conseguia imaginar como 2014 pode me surpreender em sua plenitude, com tudo o que há de bom e de ruim. Afinal, é tão melhor ansiar pelo inusitado do que sofrer antecipadamente com conjecturas tenebrosas…

 

Inté!

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