Prezados leitores, hoje, em um ato de tremenda benevolência minha, oferecerei gratuitamente a fórmula para vocês se tornarem palestrantes e comerciantes de sucesso: simplesmente digam o que as pessoas querem ouvir! Não primem pela informação verdadeira. Sejam especulativos. Não primem pelo enraizamento dos conceitos. Sejam superficiais. Não primem pela excelência. Sejam medíocres.

Esse é um fato que custei muito a acreditar, mas, após muitos anos, concluí que infelizmente, é a mais pura verdade. A população em geral – portanto, a maior fração dos seus futuros clientes ou ouvintes – tem conceitos já estabelecidos em suas cabeças e NÃO QUEREM MUDÁ-LOS! As pessoas não querem ficar desconsertadas com sua “quebra de paradigmas”. Elas querem sair de uma palestra ou assistir a uma propaganda com aquela sensação de “eu sabia!”, em um afã de superioridade intelectual.

São raros os indivíduos que têm interesse nato em absorver os fatos reais, mesmo que estes se contraponham àqueles pré-concebidos. É necessário discernimento e consciência para aceitar essa mudança de modus operandi no cérebro. Para estes peculiares indivíduos, é gratificante perceber “uma verdade maior”. Em termos metabólico-fisiológicos, há grande dispêndio de energia ao se estabelecer novos circuitos neuronais para armazenar novas informações. Pior, quando algum fato é explicado por novas linhas de raciocínio que se opõem às anteriormente aceitas, aqueles circuitos neuronais antigos podem (algumas vezes, devem) ser desprezados. Parece um desperdício fisiológico. Em outras palavras: “Poxa, demorei tanto para entender aquilo e agora esse cara vem me dizer que está tudo errado?”. Com isso, prezados futuros palestrantes, vocês perderão seu público…

Contudo, usurpando esse impulso comercial para agradar e satisfazer seu público, muitos charlatões enriquecem a base da ignorância alheia. Lembro-me de um colega que se interessou muito por uma palestra sobre Gastronomia Molecular. A um preço razoável, encaminhou-se ansioso para o auditório, ao lado de mais 399 pessoas ao vivo e cerca de 500 pessoas conectadas online. Imaginem o faturamento, meus caros leitores. Logo de cara, com a apresentação dos créditos, questionou-se quanto à relevância daqueles títulos apresentados pelo palestrante. Ele é um cientista e conhece bem o metiê. Sabe, portanto, diferenciar a relevância das revistas científicas, das sociedades científicas, etc. Mas ok, títulos poderiam ser desconsiderados perante as informações que aguardava tão ansiosamente. Ao perceber os inúmeros deslizes e recorrentes erros conceituais – alguns grosseiros, que não condiziam com a excelência sugerida pelo currículo lido no início – começou a perguntar, já que a palestrante ofereceu uma discussão contínua durante a apresentação. Ele não se conformava como a palestrante se contradizia e ninguém ali presente aparentemente percebia ou se manifestava. De fato, ninguém realmente se importava com as informações desconexas que foram apresentadas, uma vez que pediram para que aquele cientista de prestígio se retirasse do auditório, já que estava “atrapalhando a palestra”. Pelo menos, um fato tão trágico para quem preza o conhecimento serve para umas boas risadas em momentos de descontração em um barzinho.

Muitas palestras motivacionais dizem simplesmente o que todos já sabem, mas que é sempre reconfortante ouvir: o poder mágico da sua força interior, do seu poder de reação, da persistência, etc. É o famoso “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Em termos científicos, isso se chama efeito placebo (efeitos da autossugestão). Sob o foco dessa Pseudociência, milagres contra a impotência sexual masculina são observados a partir do chá do chifre dos rinocerontes africanos (animais em extinção, em função disso!) e do óleo de coco para o emagrecimento imediato da moça que quer entrar no vestido de casamento daqui a 3 semanas. Mapa astral, runas, astrologia, borra do café e cromoterapia são outros exemplos da chamada Pseudociência. Não há métodos científicos que apoiem essas crendices. Não há hipóteses. Não há avaliação por pares, ou seja, parecer positivo de outros experts naquele assunto. Mesmo assim, essas crendices vendem muito! Para complicar ainda mais esse cenário, garanto que, por exemplo, você conseguirá encontrar pelo menos um artigo científico que diga que o tabagismo faz BEM à saúde. Comerciantes e vendedores da indústria do tabaco utilizarão aquele único ou poucos artigos científicos como escudo inviolável para justificar suas informações, negando ou desconsiderando os outros três bilhões de artigos que apontam no sentido contrário.

O grande desafio, meus amigos, é, sem abrir mão do conhecimento científico verídico, tornar-se um palestrante ou comerciante de sucesso. Vender produtos de eficácia comprovada e não simplesmente sugerida por pouca ou nenhuma evidência. Do outro lado, os consumidores e ouvintes deverão apurar seu senso crítico. Deverão se questionar sempre. Não aceitem passivamente tudo que tentam lhe empurrar. Procurem se informar em fontes fidedignas sobre a veracidade daquelas informações e, principalmente, quem na verdade está passando aquelas informações a vocês. São se tornem presas fáceis.

Um abraço

12 respostas para “Me engana que eu gosto!”

  1. Camila Moura disse:

    Ótimo artigo,nosso senso crítico desapareceu as pessoas aceitam tanta informação que não percebem o quanto deve ser descartado.

    • Marcelo Paes de Barros disse:

      Olá Camila
      Obrigado por seus comentários! Muitas vezes somos anestesiados por ilusões e discursos ufanistas e nosso senso crítico despenca! hahaha
      Um abraço

  2. Renan Correia da Silva disse:

    Apreciei muito, esse artigo.

    É por isso que eu amo a Universidade Cruzeiro do Sul.

    Eu não estudo na UNICSUL. Eu sou parte dela.

    Abraço!!

  3. Cristina Vardaris disse:

    Adorei a matéria… convivo com alunos que não possuem nenhum senso crítico e simplesmente aceitam o que a mídia impõem. Esses dias estava lendo uma matéria de uma pesquisa científica (sim com apoio financeiro) que o consumo de cerveja melhoraria a função cardiovascular… essa matéria foi vinculada nos grandes sites do Brasil! O problema é que pessoas que não entendem nada sobre pesquisa científica e não possuem o menor senso crítico certamente ficarão reproduzindo essa informação como um papagaio de pirata, se achando os donos da razão. Como se o alcoolismo não fosse um grave problema no Brasil e tantos outros países do mundo. Grande abraço!

    • Marcelo Paes de Barros disse:

      Oi Cris!
      Sim, sem sombra de dúvidas.
      Muitas vezes, repórteres tentam vender notícias tornando-as mais atraentes ao público. Nessa proposta, exageros e erros conceituais são muito comuns.
      Quem não tiver senso crítico, deglute tudo sem se questionar…
      Valeu! Abrç

  4. Ricardo Ferreira Rodrigues disse:

    Realmente muito bom o texto, é preciso realmente, questionar qualquer tipo de informação que recebemos, mesmo aquelas que possuem uma fonte confiavel, é preciso entender o “porquê” dessa informação ser divulgada, quais fatos foram omitidos, e o que a torna verossimil.

    • Marcelo Paes de Barros disse:

      Olá Ricardo!
      Pode crer! Aceitar informações sem questionar fonte, veracidade, etc nos torna simples receptores de fatos, muitas vezes deturpados.
      Abrç

  5. Gerson de Souza disse:

    Parabéns pelo texto, sou aluno de licenciatura em Ciências Biológicas. Agora imagine as dificuldades para lidar com a educação básica, e nas classes sociais mais desprovidas!

    • Marcelo Paes de Barros disse:

      Olá Gérson!
      Obrigado por seus comentários. O mais importante é mostrar aos garotos que há fontes confiáveis de informação, as quais devem ser bem atreladas à Ciência (a de verdade!) Um abraço

  6. Maria do Socorro M.Dintof disse:

    Parabéns Marcelo!!!!
    Você é impecável com as palavras; acredito que “agora” temos um bom exemplo sobre o texto. A repercussão da notícia sobre a coca-cola (que teriam encontrado um rato na garrafa).
    Hoje mesmo logo que cheguei ao Departamento onde trabalho, as pessoas queriam saber se a notícia era verdadeira ou não…
    Abraço

  7. Lotofacil disse:

    Marcelo Paes de Barros você é o cara! eu tito o chapéu para você meu véio pois você comenta coisas muito inteligentes, já virei fã seu mano hehehehehe

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