Quanto mais eu viajo pelo Brasil, mas me surpreendo com a riqueza de sua miscigenação e com a forma como foi forjado o caldo cultural deste país de lamentáveis contradições e felizes encontros.

Nas férias de julho, visitei a tradicional Olinda em Pernambuco pela segunda vez e me surpreendi diante de detalhes que escaparam de minha primeira incursão a dita Veneza brasileira. Ao admirar a arquitetura centenária de algumas casas em estreitas ruas de paralelepípedos, fui atraída por um fato curioso: a peculiaridade de seus telhados. Algumas moradias de pé-direito alto e imponentes portas de madeira maciça possuíam dois ou até três telhados.

Ao notar a curiosidade que pairava no olhar da turista que vos fala, um prestativo menino se prontificou a dar uma explicação plausível. Era Emerson. Um dos guias turísticos de um dos projetos sociais deixados pelo humanitário Dom Hélder Câmara. Segundo o jovem, no Brasil Colônia, quanto maior era o status social do dono da casa, maior seria também o número de beiras de telhados da sua residência. Sendo assim, alguns esnobavam eira, beira e tribeira. Enquanto outros, ainda em ascensão social, exibiam apenas eira e beira ou somente beira. Já a maioria, não tinha nem eira, nem beira, ou seja, não possuía bens e muito menos uma moradia razoável.

Aqui em São Paulo, fiz uma breve pesquisa e identifiquei que a explicação vem de Portugal. A palavra eira vem do latim “area” e nos remete a espaço de terra batida, lajeada ou cimentada; local, próximo às residências lusitanas, destinado ao cultivo, tratamento ou armazenamento de cereais. Portanto, quem detinha eira, naquele período, gozava de sucesso nos negócios, riqueza e poder. Já a beira do telhado, comumente utilizada como abrigo em dias de chuva referendava o poder de propriedade sob o imóvel. Com o passar do tempo, a flexibilidade da linguagem por meio da conversação e a sonoridade presente na rima, eis que surge a expressão “eira, nem beira” como denominação usual da condição de alguém que não tem onde morar e muito menos bens para usufruir.

Interessante, não é mesmo?!

Quantas expressões do nosso dia a dia também não revelam histórias curiosas como essa?

Inté!

2 respostas para “Redação de férias”

  1. Ricardo disse:

    Olá, tudo bem?
    Adorei o texto.
    Férias também é cultura.
    Abraço.

    Ricardo

  2. Camila Moura disse:

    Muito bom, pequenos detalhes trazem grandes histórias.

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