Ontem vi um admirável mundo novo. No Facebook, minha irmã dizia ter vivido um dos melhores momentos da sua vida; uma amiga saudosa dizia ter rememorado os tempos idos das Diretas Já; meu primo elogiava a motivação juvenil; meus alunos divulgavam o modus operandi das manifestações e a agenda de uma organização heterogênea, sem lideranças definidas, mas muito bem organizada. Literalmente, saíram do Facebook para fazer história.

Corriam boatos generalistas por aí de que os manifestantes da vez não passavam de “pequeno-burgueses” travestidos de um misto de indignação alheia, euforia momentânea e partidarismo oportunista. Eu custei a acreditar, quando notei pessoas próximas a mim encarando balas de borracha e gás lacrimogêneo, munidos de coragem e muito vinagre.

Jabor que o diga, depois de condicionar manifestantes legítimos e arruaceiros descontrolados como “farinha do mesmo saco”, pediu redenção formal no jornal O Estado de S. Paulo e em cadeia nacional no telejornal da Globo. “Talvez eu seja mesmo um “cão imperialista” porque, outro dia, eu errei. Sim. Errei na avaliação do primeiro dia das manifestações contra o aumento das passagens em SP”, lamentou o cronista.

O que Jabor e tantos outros não entenderam é que estamos falando de bem mais que 0,20 centavos de insatisfação. O estopim miserável acrescido no valor da passagem do ônibus nem faz cócegas na revolta depositada no âmago do brasileiro. Em um momento de notoriedade internacional, a equação “pão e circo” não está a contento e mostra que o fim da história, traçado pelo economista Fukuyama está longe de ser uma verdade.

Há bem mais que 0,20 centavos em jogo, há também uma polícia despreparada e truculenta, uma PEC 37 a ser votada daqui a uma semana, uma corrupção desmedida, uma tal “cura gay” ganhando status de legitimidade, uma inflação acobertada a todo custo, gastos faraônicos e super-faturados com a Copa do Mundo e sei lá mais o que. Sabe o que eu vejo ao ler os cartazes improvisados no 6º ato que levou 230 mil brasileiros às ruas? Eu vejo pessoas cansadas da vitória da impunidade, da pizza, do deixa disso… Vejo todos na contramão das avenidas do descaso e da apatia. Lá no meio de uma destas avenidas, que de Estados tão diferentes se tornaram iguais neste dia épico, vi um jovem de aproximadamente 18 anos com um cartaz que me chamou a atenção. Ele dizia: Revolto-me, logo existo. Poliana como sou, logo li naquele cartaz de apenas uma frase que uma geração desejosa de ideologia, como cantava Cazuza, hoje assumia seu papel no mundo real.

Inté!!!

7 respostas para “Revolto-me, logo existo”

  1. elizabeth costa disse:

    Orgulho da minha geração!!!!
    olhava a história a ditadura, as diretas já, os famosos cara pintadas e pensava será q minha geração vai passar em branco, mas não saímos do Facebook e tomamos as ruas e tem mais ainda por vir, a luta continua, conseguimos abaixar ou voltar o valor do transporte agora rumo a outras causas!!!! vem pra rua!

  2. Ricardo disse:

    Olá, tudo bem?
    Sou totalmente a favor da manifestação popular, e contra a especulação partidária, o que infelizmente ocorreu no curso das manifestações.
    Devemos lutar por um Brasil melhor, e acreditarmos que isso é totalmente possível.
    Em 2014, além da “Copa-problema”, nós teremos a oportunidade de fazer VALER o nosso poder de escolha.
    Acredita Brasil!!!!!
    Um abraço a todos.

  3. Elaine Barreto disse:

    Além de estar imensamente feliz com o papel que estamos assumindo frente a tantos descasos, fico muito contente de ver a geração de ontem, de hoje e aqueles pequeninos que já deixam sua marca na história, unidos por uma só voz, aquela que não se cala frente às injustiças.

    Meu filho, de oito anos, me pergunta: “Quando vou poder estar entre eles? Preciso ser grande?”. Então respondo: Você já está! De uma forma ou de outra quando paramos para pensar a respeito e, discutimos isso com amigos, estamos contribuindo para esse movimento, mas sua presença, junto aquelas pessoas, em breve também será necessária. Somos grandes quando estamos unidos e, depois disso, sempre que a injustiça se fizer presente, acredito que teremos GRANDES pessoas fazendo a diferença, pois dias como esses, de luta ordenada, ainda precisarão ser vistos em nosso país. Ele responde: “Ainda tenho um pouco de medo porque tem aqueles que quebram tudo!”. Digo: Eles sempre serão minorias e, como minorias, não terão forças para atuar dessa forma. Logo, mais logo mesmo, quero estar ao seu lado vendo sua voz soar entre eles!
    Que seja um grande marco para a real democracia!

  4. Nair disse:

    A população quer ir além dos vinte centavos, a população quer uma educação melhor , uma saúde melhor. As pessoas estão cansadas de esperar horas e horas na fila do SUS, elas querem um sistema de saúde melhor sem ter que pagar.Realmente as manifestações fizeram a nossa Geração acordar para o problema que os brasileiros enfrentaram sempre.
    Rumo à um país mais justo !

  5. Francisco Vincente disse:

    Na conjuntura atual o Monstro não é o que parece, mas, pode ser bem pior. Hoje mesmo o noticiário dava conta do envolvimento de grupos internacionais cuja especialidade é disseminar a violência de massa nos países de terceiro mundo (via redes sociais),a exemplo do que fizeram na Venezuela na era Chaves que culminou com golpe de estado, que em tempo foi revogado. E, o mais estranho ainda é a posição imperialista do Tio Sam que espiona as nossas comunicações e quem tanto defendia a liberdade de expressão aqui no Brasil se calam e rendem-se aos argumentos americanos. A polícia se omite e deixa o vandalismo acontecer. Neste ambiente hostil o mau sempre prevalesse e no caos ninguém é Cidadão.

  6. Vinicio disse:

    Parece que a juventude esta acordando!

  7. Guilherme Marinho disse:

    Que legal! Passada as revoltas (não todas, mas 90 ou 95% delas) podemos fazer um balanço do que de fato ela foi.

    Está claro que em São Paulo eram apenas os R$0,20, tanto é que os “cabeças” do movimento recuaram assim que conseguiram tal feito.

    Essa revolta que começou com violência e pouca coerência só não terminou em seu primeiro dia ou segundo dia, porque milhares de pessoas ali viram a oportunidade de fazer o que sempre quiseram fazer (que pode muito bem ser percebido nos comentários anteriores ao meu), que era de se revoltar, afinal está na moda.

    Em meio a tanto barulho, barulho este desordenado, sem planejamento e estratégia que por fim nada conseguiu, além de redução das tarifas de transporte público, ou melhor, a permanência dos valores.

    Uma revolta iniciada por um motivo tolo, sem planejamento e sem o consentimento/apoio da população nada conseguirá.

    Podem dizer que houve sim apoio da população, é verdade que com o decorrer dos dias a população passou a apoiar, mas isso aconteceu após incrementarem o discurso com o “não é apenas por R$0,20″. Uma jogada de MKT por aqueles que se aproveitaram do momento para se sentirem os rebeldes.

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