O recente luto decretado pelo mundo da música me fez recordar uma passagem curiosa da minha vida. Há exatos dez anos, a Universidade Cruzeiro do Sul completava 30 anos e uma de suas ações comemorativas consistia na promoção de um show destinado aos alunos.  Por votação do público interno da Universidade, a banda Charlie Brown Jr foi selecionada para o tão esperado evento, em meio a outras duas sugestões de bandas. O show foi um sucesso. Chorão e sua trupe empolgaram centenas de jovens com hits como: “O coro vai come”, “Proibida pra mim”, entre outros.

A banda curtia a boa colocação no hit parade da época. Uma de suas músicas embalava Malhação, um sucesso televisivo entre os jovens. O lançamento do CD acústico MTV havia consagrado de vez os artistas que, dois anos mais tarde, viriam a ganhar o Grammy Latino. Já na juventude, eles estavam no topo do mundo e ‘tirando a maior onda’.

Na condição de jornalista, durante a cobertura do evento, ainda me recordo como a postura marrenta e debochada de Chorão me intrigava. Eu estava diante de alguém que, literalmente, se identificava e se projetava no seu público. A abertura do show trazia o vocalista em manobras radicais de skate e arrancava gritos ensurdecedores. O coloquialismo de suas letras ilustrava temas que transitavam entre amor e vício, e serviam como ‘hino-desabafo’ para muitos ali presentes. O sucesso da Charlie Brown Jr era a consolidação do sonho de qualquer jovem: montar uma banda, tocar na cidade grande e fazer sucesso. Àquela altura do campeonato, Chorão era referência certa para a ousadia e a determinação juvenil.

Lembro-me de termos trocado duas ou três palavras sobre a possibilidade de entrevistá-lo e de ter recebido um sim imediato, com a única condição de que o bate-papo fosse após o show. Aceitei prontamente a imposição e me pus a estudar a pauta com afinco. Já havia bolado questões em torno da ex-banda What´s up?, das letras de contestação como “Não é sério” e da possível desavença existente entre ele e seu baixista, o Champignon.

Mas algo saiu do controle e sem saber muito bem como tudo aconteceu, pude notar Chorão sobre uma imensa caixa de som, ameaçando se jogar no público; eis mais um de seus atos inesperados. Houve rumores sobre ser esta uma possível tática de marketing ou apenas uma demonstração de egocentrismo no palco. O fato é que os demais colegas da banda, a organização do evento e boa parte do público desencorajaram a audaciosa proposta.

As vozes dissonantes não foram suficientes. Chorão se atirou no público como quem se atira sobre inúmeros colchões macios empilhados. É óbvio que a brincadeira lhe custou caro, ele saiu de lá numa ambulância às pressas e eu sem a minha entrevista. Custei para entender que não era necessário falar com Chorão para atestar sua representatividade para a então fase do Rock e da juventude brasileira. Seu sorriso despojado, após o acidente já dizia tudo; provava que nada era capaz de lhe amedrontar ou diminuir sua sede por aventura. Ele era assim, intenso como muitos o caracterizavam. Não cabe aqui, discutir sem objetividade as causas de sua morte, nem julgar o motivo que o levou ao fim de sua jornada, mas lamentar o último salto deste destemido aventureiro tão representativo para muitos.

Depois de quarta-feira, por Chorão, muitos choraram.

Inté!

12 respostas para ““Meu, tu não sabe o que me aconteceu, os ‘cara’ do Charlie Brown invadiram a cidade””

  1. Sua sensibilidade em perceber o seu redor, vem da sua paixão desmedida

  2. Nair disse:

    As canções do Charlie Brown Jr, ultrapassaram gerações de 90 até 2013, que consideram o Chorão como a voz da juventude brasileira , suas músicas se identificaram com o público e cada uma delas tinha a mensagem para os fans.

  3. Anna Paula Alexandre disse:

    Muito legal lembrar desse show para nós alunos, lembro direitinho desse dia, estava no segundo colegial quando surgiu a votação pra uma banda tocar para os alunos. Foi muito bom e uma iniciativa legal do Cruzeiro comemorar seus 30 anos onde quem recebeu o presento foram nós os alunos daquela época.

  4. Camila disse:

    Eu estive neste show comemorativo da Universidade…foi tudo muito intenso…e o Chorão era assim, sempre..e foi até o fim…Deixará seu legado de fãs…suas musicas com letras verdadeiras e a certeza de que ”O tempo ás vezes é alheio a nossa vontade, mais só o que é bom dura tempo o bastante para se tornar inesquecível”

  5. Bruna Sales disse:

    Chorão cantava letras capazes de tocar os corações dos adolescentes, inclusive eu. Ele sabia viver loucamente e, sem seguir parâmetros e regras, viveu da forma como quis, foi feliz do seu jeito intenso e verdadeiro. Agora fica a saudade de mais um artista. Uma nova estrela brilha no céu…

  6. Yulika Ganizev disse:

    Que orgulho de vc prof., de fato o Chorão e sua banda deram voz a adolecentes e jovens, eu fiz parte disso.

  7. Mary Wakabara disse:

    Lembro bem do evento. A correria dos preparativos, as filas dos alunos para retirar os ingressos, o bafafá nos dias que antecederam o show, a ansiedade dos alunos … Foi um show que ficará na memória da comunidade Cruzeiro.

  8. carlos tiveron disse:

    Eu estava lá. Show maravilhoso! Lembro que levei meu sobrinho, Erick, que era fã da banda, e ele se perdeu na multidão. Eu estava numa área mais reservada para os funcionários da Cruzeiro.
    Vi quando o Chorão se jogou e ao retornar para o palco pediu gentilmente…rsss…que lhe devolvesem o tenis dele que havia caido. Para minha surpresa, o Erick veio ao meu encontro e me mostrou o tênis,escondido embaixo da camiseta, tamanho 44 eu acho. Fomos devolver o tenis no camarim do Chorão, pessoalmente, e o Erick, emocionado, e a mesmo tempo insatisfeito em ter que devolver a lembrança de um ídolo, pediu algo em troca e prontamente o Chorão lhe ofereceu uma camiseta e um CD autografados.
    Boas lembraças!!
    Vai deixar saudades!!!

  9. Ricardo disse:

    Uma grande perda para todos nós.
    Adorei o texto.

  10. Fernando Aumada disse:

    Você escreve de uma forma tão linda e gostosa, tão sensível! Parabéns, você é 10

  11. Elizabeth disse:

    Rê seu texto como as músicas desse meu ídolo intenso demais me tocaram
    Chorão representou muito na minha vida desde o 1º cd até o ultimo e não só pra mim como também para muitos jovens… com ele aprendi a lutar pelo que é meu, a buscar meu lugar ao sol!!!!

    ate mais!

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