BLOQUEIO DE AUTOR

27/fev/2013

“Começar de novo…” acordei outro dia cantarolando esta linda canção de Ivan Lins.  Senti um alívio porque, em geral, o que gruda na nossa cabeça são aquelas músicas-chiclete com rimas pobres e repetitivas. Mas, por outro lado, a frase título da música, repetidas tantas vezes, trouxe também certa angústia, pois me lembrou de que precisava voltar a colaborar com posts para o blog, depois de quase um ano de inatividade. As delicadas cobranças dos outros editores, o incentivo de amigos queixosos da minha injustificada ausência e, principalmente, o senso de responsabilidade me fizeram começar de novo, sentar diante do laptop e teclar.

Muitas pessoas relatam as dificuldades que sentem ao escrever, o que é fato. Para escrever são imprescindíveis a técnica e a prática, mas antes de tudo é preciso inspiração. Afinal, não há um bom registro, se não há boas ideias. E elas podem surgir de fatos prosaicos do cotidiano, de experiências de vida ou de uma coversa ouvida em restaurante. Uma boa dica para alimentar a usina de ideias é a leitura. Ler muito, ler tudo, ler sempre! Desde o jornal todos os dias, passando pela diversidade das revistas semanais, culminando nos livros, sejam eles os clássicos, autoajuda, história, série Crepúsculo etc. A leitura ainda contribui para abastecer seu subconsciente com estes símbolos gráficos (letras e palavras) que, quando a ideia surge, são automaticamente recrutados para formar as frases, parágrafos e páginas de um texto.

O leitor já deve ter percebido a esta altura que está faltando o principal para este meu post de reestreia: a IDEIA. Mas procurei não me abater e, tal qual um banhista diante de uma piscina gelada, decidi não adiar o mergulho, saí escrevendo até achar o fio de alguma meada. Ou seja, nada de ser tomado pelo pânico do papel em branco, ou da tela vazia, capaz de paralisar os escritores mais experientes. Eis que, em meio a esta situação embaraçosa, me veio a mente um texto que li na Revista Piauí, durante um voo voltando de Brasília (ler muito, ler tudo, ler sempre!), sobre o escritor paulista Ryoki Inoue. Em 26 anos, ele publicou nada menos que 1.106 livros, feito devidamente registrado pelo Guinness Book de recordes. A primeira obra, Os Colts de McLee, foi publicada em 1986, mas sua verdadeira linha de produção literária começou após a assinatura de um contrato com a editora Abril no qual ele se comprometia a escrever 50 originais de faroeste em 2 meses, quase um livro por dia útil.  Para dar conta da tarefa, contou com a ajuda da esposa, artista plástica que fazia as capas dos livros, e do pai, imigrante japonês, a quem coube pesquisa para ambientação histórica. A partir de listas de nomes e sobrenomes, o autor batizava os personagens fictícios.

Dentre os feitos de Inoue, talvez o mais famoso tenha sido a aposta feita com o seu editor para escrever sobre a fuga de Pablo Escobar antes que o traficante fosse capturado pelo governo colombiano. O livro de 410 páginas saiu em duas semanas, já o bandido só foi pego mais de um ano depois. Sua fama atravessou fronteiras e atraiu a atenção do diário The Wall Street Journal, que mandou um correspondente acompanha-lo na produção de um livro. O autor baseou-se no próprio repórter para escrever o romance Sequestro Fast Food e deu conta do recado (210 páginas) em menos de seis horas. Este fenômeno da literatura é capaz de continuar escrevendo enquanto discute com a esposa sobre as compras do mês ou as contas a pagar e conclui capítulos inteiros em suas idas ao banheiro.

Ryoki Inoue não negocia com a própria inspiração e já trabalha em seu milésimo centésimo sétimo livro. Bloqueio de autor é para os fracos!

14 respostas para “BLOQUEIO DE AUTOR”

  1. Marcelo Paesde Barros disse:

    Estou sem palavras, rs
    Excelente!
    Abraço

  2. Heitor Di Martino disse:

    Na verdade o bloqueio vem mais da situação psicologica somada com a generosidade e vontade de ser visto.expilco:- as vezês não temos vontade de dividir nossas ideias que muitas vezês são mal coompreendidas ou vitimas de comentarios bossaloides,a ciência que escrevemos só metade do texto e a outra metade depende da compreenção de quem lê tambem atrapalha o fluxo das ideias.eu pessoalmente acho que vc escreve muito bem.é culto e escreve com embasamento.continue,despeje suas historias sempre bem vindas para que possamos apreciar.estou no aguardo.um forte abraço.Heitor

  3. Oque um time de futebol pode fazer com alguém, acabou com a inspiração do amigo! Brincadeiras à parte, parabéns pelo post! A natureza, ou melhor, a naturalidade, fazer o simples, sempre trará os melhores resultados!
    Grande abraço!

    • Renato Padovese disse:

      Nilson, não é nada disso. A tristeza e a tragédia também inspiram, portanto, o meu time não teve nada a ver com o meu bloqueio. Um abraço,

  4. Denilsa Garcia disse:

    Renato, não sabia da existência do seu blog!
    Gostei do texto e realmente, escrever é uma arte!
    Sucesso sempre,
    Abraços,

    Denilsa

    • Renato Padovese disse:

      Denilsa, agora que você conhece o blog, leia os textos anteriores e acompanhe os outros autores também. Eles são excelentes. Um abraço e obrigado.

  5. Adriana disse:

    Re cada vez mais vc surpreende, fico muito orgulhosa a cada post. Bjs

  6. Rogério Martins Garcia disse:

    Renatinho, bem legal gostei de verdade e é isso mesmo esse dom de transformar o nada, a tela branca em uma obra de arte, o papel branco. Gostei de verdade serve pra vida toda.

  7. alice cristina santos siegrist disse:

    Renato, que bom que você retornou ! Adorei o texto, que idéia interessante… você sem idéia para escrever e resolve escrever sobre a falta de idéia . Você teve uma idéia genial !! Amei abç cris

    • Renato Padovese disse:

      Cara Alice Cristina,
      A história poderia ter sido essa. Mas vou te contar como realmente aconteceu. Eu tive a ideia depois que li a reportagem na revista Piaui. Fiquei muito impressionado com a história do Ryoki Inoue e queria falar sobre ela. Então, pensando em como fazer, achei que seria legal brincar com minha suposta falta de inspiração, contrastando com o com excesso de inspiração dele (fora o resto). Daí é sentar e escrever que as coisas vão se encaixando.
      Um abraço,
      Renato.

  8. Mary Wakabara disse:

    Concordo. A prática leva à perfeição. Resumo: preciso praticar (muito) mais. Excelente texto, Renato ! =o)

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