Na semana passada, o Estadão online publicou matéria sobre a polêmica e tardia reforma do Museu do Ipiranga. Há tempos a empreitada se arrasta e tem deixado inúmeros arquitetos de cabelo em pé para conservar o monumento, hoje, em péssimo estado de conservação. Para ter uma ideia, apenas 800 pessoas podem trafegar simultaneamente no espaço sem riscos de desmoronamento.

No primeiro semestre deste ano, Sheila Walbe Ornstein foi nomeada diretora do Museu e logo de cara anunciou: “É preciso deixá-lo como patrimônio, no século XIX, mas, ao mesmo tempo e cuidadosamente, transportá-lo para o século XXI.” A arquiteta disse isso em referência às diversas mudanças a serem propostas no local em sua gestão, entre elas, as que dizem respeito à interatividade.

No Twitter, os comentários dos internautas repercutiram a notícia da reforma em diferentes frentes de discussão. Uma delas me chamou a atenção: “É preciso mais mecanismos interativos neste Museu com o uso de computadores e outras ferramentas da mesma ordem.” Todos referendaram o comentário acima e o complementaram mecanicamente, sem uma maior reflexão sobre a rica discussão que se apresentava ali. Desde o início dos anos 90, com o advento da Internet, um frisson em torno da palavra interatividade tomou conta do mundo. Aparentemente, o emprego da palavra mágica “interatividade” está associado ao uso da tecnologia. No que tange à febre “museográfica” que tem acometido o indivíduo nos últimos tempos isso se acentua.

Segundo o autor Jeudy, “Os museus multiplicam-se, uma quantidade infinita de objetos, de imagens e de relatos é conservada para testemunhar as riquezas da criação cultural, da inovação técnica ou da dinâmica da significação dos modos de vida. Nada parece conseguir escapar a esse empreendimento de estocagem e de classificação.” (1990, p. 1)

No caso dos museus que se multiplicam aos montes numa sociedade em que – definitivamente – não se controla mais o tempo, um computador e uma tela de Led parecem determinantes para que haja interatividade entre visitantes e museu. Mas pergunto: Interatividade? Para quem, cara pálida? Muitos autores já sinalizaram em publicações recentes que contemplar um quadro por horas a fio no MASP, por exemplo, pode ser muito mais interativo do que visitar o Museu do Futebol e ficar boquiaberto com o espetáculo tecnológico que faz o olhar dos amantes do esporte brilhar, ou ainda que estimula crianças a clicarem freneticamente e sem propósito algum nas telas ditas “interativas”.

Incômodos como esse, se apresentam nas mais variadas relações estabelecidas pela humanidade. Outro dia escutei no rádio uma antropóloga afirmar que o namoro do século XXI nunca foi tão interativo quanto hoje com o uso das redes sociais. Até agora estou pensando: “Como assim?”. Devemos refletir sobre a distinção entre interatividade e interação para não vislumbrar, de forma ingênua, a salvação bizantina no uso da tecnologia e esquecer o quão prazerosas são determinadas formas tradicionais de se viver, como no caso do namoro ou da simples contemplação de uma obra artística.

Inté!!!

17 respostas para “Interatividade? Para quem cara pálida?”

  1. Critico da porta do banheiro disse:

    Esses reacionários (pra não dizer dinossauros). Vivem no século XXI com o pé no século I. Se ouvíssemos esses reacionários ainda faríamos fogo com um bocado de palha e uma vareta. Ao invés de celular, sinal de fumaça. Comida em lata? Não, comida, vamos a caça! Computador? Não, vamos pegar um papiro e vamos escrever com pena de ganso, ou até mesmo lapidar uma bela rocha! tsc, tsc, tsc! Ai, ai, ai viu!

    #sintovergonhaalheia

    Ainda bem, pelo bem da humanidade, existem poucos reacionários, e quase nunca são ouvidos, são suprimidos pela imensa maioria que busca a evolução.

    Fico imaginando os jornalistas formados em universidades em que o professor é um verdadeiro dinossauro, deve ensinar pintura rupestre, como testemunho iconográficos de acontecimentos relevantes
    da sua vida quotidiana, kkkkk!

    • Regina disse:

      Quem acompanha o blog há tempos sabe que sou uma defensora ferrenha das novas tecnologias. Sua crítica, nesse sentido, é infundada. No texto acima, assim como nas referências bibliográficas mencionadas, há uma crítica ao deslumbramento em relação à era digital, algo oposto à negação de seus benefícios. Cuidado. Cada palavra tem seu peso e medida, assim como o emprego equivocado de ‘reacionário’ e ‘dinossauro’ no seu texto também. Abs…

  2. elizabeth disse:

    Sobre o museu do Ipiranga o legal dele é a forma como ele conta a história de uma forma simples e real… seria muito chato entrar e perceber q ele ficou igual ao museu do futebol ( que tem sim sua mágia ligada a sua tecnologia, mas porque é um museu de esporte)… e sobre os namoros interativos acho muito estranho prefiro o contato, imagina sentir saudade e ter q se contentar com algumas palavras escritas nas redes sociais… tudo que é muito interativo se torna chato!

  3. Fabi disse:

    Sempre me pego pensando nisso Prof, onde vamos com a interatividade?
    Acho incrível Museus como o do Futebol, é fascinante a tecnologia, tanto que não nos sentimentos dentro de um Museu e sim dentro de uma ” Feira de tecnologia de Futebol”.
    Mas, penso, será que todos os Museus tem que ser assim? Creio que não. História é passado, se fosse presente estaríamos vivendo hoje. Sei que é clichê mas é a verdade, Museus como do Ipiranga não podem virar Museus do Futebol, acredito que temos que respeitar as épocas, respeitar as histórias e o jeito que elas foram vividas.
    É maravilhoso entrar no Ipiranga e sentir aquele cheiro de ” passado”, é uma volta a história é ir para uma época antiga e viver um pouco dela.
    Se encontrarmos led e computadores lá, talvez essa nostalgia se acabe, não vamos mais voltar no tempo e um Museu com tanta história vai perder seu cheiro de passado.
    Eu adoro tecnologia, mas não aceito que ela venha desvalorizar aquilo que já temos. Não troco um livro por um Tablet, não troco o prazer de estar com um amigo para falar com ele por Skype, não troco a magia de revelar fotos e fazer álbuns para criar álbuns no facebook.
    Enfim, eu gosto das coisas como são das tecnologias etc, mas sinto prazer em viver coisas como elas eram : simples!
    A ostentação por um mundo cheio de grandezas pode destruir muitos valores, valores da nossa historia, do nosso passado, nas nossas raízes!

    Enfim, o texto foi ótimo.
    Da um puxão de orelha na gente, faz pensar!
    Parabéns!

    Bjs

  4. Samantha Henzel disse:

    Acho interessante a questão de tornar lugares “digitáveis”, “touchscreen”, tecnológicos etc…
    Mas “namoro” tem que ser “olho no olho”, “pele com pele”… A tecnologia é fantástica, sem dúvidas. Mas nada se compara ao real, por mais moderno e tecnologicamente avançado que seja a plataforma digital, nunca será REAL.

    Na banca sobre TV 3D, da Viviane, ontem, ouvi ela deferir com bastante conhecimento sobre o tema, e por fim, ela citou o holograma. Acho que, de todo esse universo tridimensional, o holograma é a última palavra em “sensação de realidade”, mas ainda assim será apenas uma sensação…

    Eu necessito ver, tocar, cheirar, saborear, sentir o real… A tecnologia é bem vinda, mas a realidade é insubstituível. Certas coisas devem permanecer como estão, plataforma digital nenhuma poderá causar as sensações que um bom e velho livro impresso pode causar. Assim admirar por horas a fio uma inda tela de Di Cavalcanti, por exemplo…

  5. Gustavo Oliveira disse:

    Nos namoros atuais, mesmo com “interatividade”, o que vemos é a extinção do sentimento puro. Na arte é igual, afinal, arte está ligada ao sentimento. O modernismo e a técnologia nos faz perder o real valor da arte.
    Ótimo texto e adorei o tema!

  6. Ricardo disse:

    Adorei o texto. A principio chama apenas a atenção ao descaso que foi contemplado de forma clara ao nosso grande monumento histórico, o Museu do Ipiranga. Fico admirado com o grande Museu localizado na região central – o da Língua Portuguesa – que propicia interatividade por meio da tecnologia e interação quando nos permite ficar horas e horas abstraindo sobre uma carta da Clarice Lispector, por exemplo. Saindo um pouco do Brasil vou me referir ao Museu do Vaticano, em especial, à Capela Sistina; onde estive em visita e pude apreciar a interatividade da obra de arte entre as pessoas e aquele espaço monumental naquele momento. E revivê-lo ao acessar o próprio site do museu do Vaticano. Sendo assim, encontrei interatividades diferentes presencialmente e no site. Agora, confesso, nada como o contato corpo-a-corpo entre, tanto entre obra e indivíduo, como entre namorados.
    Acompanho o blog frequentemente e sempre me admiro com os temas abordados, de todos os colaboradores, que estão de parabéns na minha opinião. Em sua essência, são claros e objetivos, não abrindo dúvidas apenas reflexões.

    • Ambrocio disse:

      Pior que a mediocridade e9 a mniuqseharia. “O orgulho, a arroge2ncia e a glf3ria enchem a imaginae7e3o de domednio”. Por muito pouco, ou nada, as pessoas dissimulam, subestimam a inteligeancia alheia e ainda repetem tais comportamentos ate9 virarem he1bitos, padrf5es e trae7os de personalidade. O bom das novas tecnologias e9 que as imposturas intelectuais e e9ticas se3o registradas com mais facilidade. Na rede e9 muito mais fe1cil aplicar “o nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, mas revelar a fonte continua sendo de bom tom. Fiz uma conexe3o mental enquanto ouvia o que Nepf4 dizia: o Darwinismo tambe9m existe na rede. Ainda bem! A teoria da evolue7e3o e o mecanismo de selee7e3o natural foram atualizados pela ciberne9tica e pela cieancia da computae7e3o. Na aparente terra de ningue9m eletrf4nica da Internet, as ide9ias fateis, originais, genuednas, boas, verdadeiras e nobres tere3o mais fore7a para emergir, permanecer e criar o novo do que as ide9ias dos que continuam tentando apenas enganar e “se dar bem” enquanto for possedvel e a qualquer pree7o.

  7. Larissa disse:

    Primeiro: gostaria de realizar uma crítica CONSTRUTIVA ao intitulado “Critico da porta do banheiro”.

    Acho realmente deplorável sua posição de ataque ao texto. Sua crítica é realmente infundada, tola e sem argumentos. Aconselho a não dizer o que não se sabe, o que não se conhece afundo.

    Segundo: o Sr. “Critico da porta do banheiro”, demonstrou sua falta de habilidade com compreensão de texto o que gerou uma errada interpretação.

    Veja o que está no texto: “Devemos refletir sobre a distinção entre interatividade e interação”. Em algum momento foi dito que a tecnologia é maléfica sob todos os efeitos? Obviamente não.

    Terceiro: se a professora é dinossaura porque então ela estaria escrevendo num blog?- isso comprova o quão errôneo foi sua crítica (se é que podemos denomina-la como tal).

    Quarto: Reflexão é Evolução. No texto usa-se a expressão “Devemos refletir”. A leitura do texto busca a reflexão do quanto deixamos de lado situações que não são substituídas pelo digital, simplesmente pelo computador. A comtemplação de uma obra de arte com certeza é uma delas. Ou será que ver pessoalmente uma obra do Picasso é o mesmo que vê-la no Google?
    A sensação é a mesma?

    Quanto a professora, parabéns pelo texto. Sem dúvida, nos levou a reflexão e, obviamente, de quem sabe interpretar textos.

    • Critico da porta do banheiro disse:

      Larissa

      Primeiro: Você deprecia meu comentário, e diz que gostaria de fazer uma crítica construtiva. Notou o paradoxo? O que seu professor anda-lhe ensinando? Dissimulação? Está na grade curricular? Qual que é? :D

      Segundo: Acredito ter compreendido muito bem esse texto reacionário. Porque não necessariamente a interação exclui a interatividade, nem tal como a interatividade exclui a interação. São correlatas.

      Se isso não é compreensível, devemos então refletir sobre o genoma do macaco-prego e não refletir sobre interatividade versus interação. Neste caso negar a critica feita pelo autor a tecnologia e sua inevitável a mutação com a arte do passado, é a mesma coisa que dizer que vou fazer uma critica “CONSTRUTIVA” à um determinado texto e no corpo e essência do meu argumento eu “DEPRECIAR” o autor. Depreciar é uma coisa, construir é outra.

      Terceiro: Será que no mundo de hoje um jornalista reacionário/dinossauro consegue viver sem a rede de internet? Se o jornalista reacionário/dinossauro não engolir a seco vai passar fome. Desculpa mas é uma guerra perdida, ele não tem escolha. Infelizmente aos reacionários, eu lamento.

      Quarto: Reflexão é parte da evolução, e não a evolução em si. A evolução do ser humano é um complexo de atos ao qual a reflexão é parte. Não nego sua importância, mas não se resume a isso. Concordo que existem sensações que são insubstituíveis, que são próprias, e só existem vividas de uma única forma. No entanto é possível sim a arte coexistir com a tecnologia. Não é a mesma coisa ver uma obra de Pablo Picasso pela internet, mas não a diminui em nada coexistir em meio a tecnologia.

      Quanto a professora, ótimo texto reacionário, conseguiu plantar uma semente ortodoxa na mente daqueles que não sabe compreender texto, tecnologia e a evolução.

  8. Antonio disse:

    Acho triste alguém tentar discutir algo com alguém que conhece o assunto afundo (falo isso porque sou aluno da professora e sei que a mesma conhece e muito o assunto).

    Ao nosso colega que comentou no blog (Crítico de porta), gostaria de informar que você não sabe realmente da trajetória da autora do texto. A professora sempre defendeu a questãqo digital, porém, sempre nos mostrou que devemos refletir sobre tudo – seja o que chamam de “comunitário”, de digital…

    outra: concordo com os outros comentaristas, eu não troco o contato da minha namorada por uma simples mensagem dela no celular ou vê-la no skype. KKKK!

    • Critico da porta do banheiro disse:

      Antonio
      Graças a Deus a professora conheça e muito do assunto, pois a mesma é jornalista, e pelo que sei os jornalistas dependerão disso.Você diz que ela sempre defendeu a questão digital, porém, no que tange a esse post em especifico a tecnologia em relação a arte do passado é coisa do satanás.
      Cara, você está completamente, absurdamente correto quanto a relação amorosa. Eu também não troco nenhum segundo dos meus momento particulares com a minha namorada por qualquer outra coisa que seja. E justamente agora que estou de namorada nova, meu Deus, parece que só vivo pra ela e por ela. Entretanto, com o advento da tecnologia os momentos a dois ganhou um extra. Mas…….. “na casa do Senhor, não existe satanás, xô satanás, xô satanás.”

  9. RAFAEL PAZIN disse:

    Caberia uma sequencia de textos sobre este assunto. Muito boa a reflexão, e pertinente.

  10. Daniel Nolde disse:

    Parabéns pelo texto, adorei a conclusão. Devemos tomar muito cuidado para não confundir interatividade com interação. O deslumbramento digital nos faz perder randes experiências.

  11. Viagens disse:

    Concordo com o Rafael, Caberia uma sequencia de textos sobre este assunto. Muito boa a reflexão, e pertinente.

  12. Mega Sena disse:

    nossa, o museu ficou bem bonito, gostaria muito de um dia poder conhece-lo! interatividade e inovação andando lado a lado deve ser bem legal!

  13. Paulo Arquiteto disse:

    Este assunto é muito interessante, espero que tenha mais sobre ele futuramente.

    Devemos tomar muito cuidado para não confundir interatividade com interação.

    Parabéns, abraço!

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