Por Claudio Brites

O que é violência? Há muito tempo sabemos que violentar vai além da agressão física, não é mesmo? A agressão moral pode ser tão devastadora quanto um soco. Na verdade, algumas vezes, o valor simbólico do soco tem mais poder de destruição do que o dano físico em si.

O pensador francês Pierre Bourdieu, juntamente com sociólogo Jean-Claude Passeron cunharam o conceito de Violência Simbólica. O termo, em linhas gerais, serve para descrever o abuso da imposição de um sistema simbólico (no caso, o sistema da classe dominante) sobre outra estrutura simbólica. Essa determinação, em sua maioria dissimulada, obriga que toda uma sociedade aceite certo “pacote cultural”, perigando à marginalidade para aqueles que buscarem alternativas. Na maioria das vezes, contudo, a “vítima” não se opõe a seu agressor, pois tudo é colocado de forma natural, ao modo dos passivos suspiros “as coisas são assim”, “é disto que se fala”, “é isto que está correto”; a vítima, ao contrário, acaba se culpando pelo seu “desvio” à regra, por pensar ou sentir diferente do que lhe foi imposto.

Confesso que, mesmo vítima constante do bullyng durante o colégio, nunca pensei nessa questão até assistir, lá pelo segundo ano da Graduação em Jornalismo, uma palestra sobre o assunto. Sempre me senti culpado por ser diferente (autoestereotipado como nerd, gordo, o cara que não gosta de futebol), ou melhor, por me considerarem diferente. Nessa “sinuca”, eu questionava: “o que está errado comigo? Por que sou assim e não daquela outra forma?”. Contudo, nessa palestra, percebi que ser “diferente” é o “normal”, que o desvio é regra e quem se acredita “padrão” está, tão somente, respondendo positivamente para o grupo opressor que determina os estabelecimentos culturais (você deve gostar de futebol, necessita viajar nas férias, precisa ter uma carreira de sucesso etc.); trata-se sim de um grande irmão, como diria Orwell, que nos assiste e exige que sejamos uniformes, aproveitando o trocadilho, seja ela – a carapuça – do nosso número ou não.

Os valores determinados por essa elite simbólica mudam, pois o poder troca de lugar, ou ele é pulverizado, dividido entre diferentes aparelhos de repressão (religião, mídia, Estado…); mas essa mudança ocorre também porque, às vezes, o poder precisa “devorar” certo “costume” desenvolvido na base, para que o alicerce continue aceitando-o como regulador, uma forma de agradar os “mandados”, para que permaneçam crédulos às ordens do que realmente importasse. O entretenimento, nesse pacote, é o mais maleável: é “tolerável” que suas regras e gostos mudem conforme a suposta “vontade da maioria”, para que, enquanto isso (na Sala da Justiça), os olhos não se concentrem em questões políticas e sociais.

Assim, há interesses econômicos e políticos que fazem hoje, por exemplo, você correr para a fila do lançamento do novo iPhone e desfilar como o felizardo primeiro comprador (!) do mais novo gadget da moda; você é colocado como um tipo de herói, pois aguentou horas em espera para “poder comprar primeiro”, e a impressa o coloca como “o mais atualizado”, o “mais antenado”; e, já diriam as máquinas, como é bom se atualizar, não é mesmo?!

E por que estou escrevendo sobre isto? Só porque, despeitado, não tive grana para o novo iPhone? Também. Mas a questão principal é outra, de ordem mais prática e imediata, principalmente se você estuda nesta Universidade: carros e seus sons; ou eu deveria dizer… sons e seus carros? Porque se antes se colocava um som no carro, hoje se instala um carro ao redor do som. Eu não vou discutir o tipo de música, costumo dizer para minha esposa que se meu vizinho quiser colocar Bachas 3 horas da manhã de um domingo, terá meu chamado ao PSIU como resposta, tanto quanto se sua opção for por McCatra.

A discussão aqui é a imposição, o que faz um indivíduo, ou um grupo, achar que tem o direito de impor sua vontade, seu gosto, para outras pessoas? Eu me sinto Alex, embora as circunstâncias sejam outras, em Laranja Mecânica, com os olhos impedidos de piscar e os braços amarrados enquanto me fazem olhar e ouvir algo que eu não quero. Sejamos sinceros, eles não aumentam o som para que o grupo, ao redor ou dentro do carro, possa ter melhor percepção auditiva a respeito da música que toca; na verdade, o grupo que está mais próximo mal consegue ouvir, o som é para os outros, a missão é “causar” e tomar atenções alheias. A polícia me diz: não há o que fazer, são como formigas. O vizinho me enfrenta: pare de ser chato, seu neném de oito meses pode dormir amanhã, durante o dia.

“Uma forma de protesto contra a cultura dominante”, dizem alguns; “afinal, existem várias pessoas que não podem cursar uma faculdade”. Isso teria validade em outro contexto e se, principalmente, instalar um som em um carro e, mais do que isso, ter um carro não fosse algo que exigisse, ao menos, certa condição financeira. Não, quem está fazendo isso não está politicamente engajado, não enfrenta o sistema, está, sim, aderindo a um comportamento validado por um grupo, círculo dominante que devorou o que começou, lá no início talvez, como uma forma de protesto (veja mais aqui).

Não somos cidadãos, ou indivíduos, tornamo-nos consumidores, e como consumidores queremos ter: sexo, dinheiro, bens terrenos e, para alguns, milagres na Terra e um lugar no céu; consumindo, “podendo ter”, eu tenho poder e posso impor aos outros, uma comunidade inteira até, o que penso gosto, quero. E isso não acontece só aqui, claro, no meu bairro, no seu, morando em prédio ou em casa, você é rodeado por esse mar que determina que o som deve ser para os outros, que curtir uma música significa “compartilhar” (maldito bordão social e virtual), impor, essa música para todos e que, no geral, o “negócio é causar”. Como diz o som: “nóis incomoda”, mas eu pergunto: qual é a razão de querer incomodar? Ela existe?! E eu temo, ao lembrar do Coringa, antagonista do herói Batman, quando o vilão afirma: há pessoas que só querem ver o circo pegar fogo.

O leitor (sim, você) deve ter percebido que eu me rodeio de porquês, mas não me ocorre a resposta, nem a saída (se é que existe alguma); talvez a Universidade como espaço pensante e democrático que deve ser, possa me ajudar na busca por essas respostas e, principalmente, por soluções. Talvez isso faça você exigir mudança, ou ir à rua e aderir à micareta, ao bonde…

PS: sentiu empatia por este registro de incomodo ao status quo? Então vá para a “fase dois”, ouvindo um podcast sobre o mesmo assunto neste link aqui

Claudio Brites é colaborador do Blog de extensão da Cruzeiro do Sul e formado em Letras e Mestre em Linguística pela Universidade Cruzeiro do Sul. Atualmente é editor chefe da Terracota editora. Como escritor, já organizou coletâneas e publicou textos esparsos, além de um romance em coautoria, A Tríade. Seu romance, Talvez, foi contemplado pelo Programa de Ação Cultural – ProAC 2011 – da Secretaria Estadual de Cultura.

5 respostas para “Um pancadão na nossa cara”

  1. David disse:

    faz tempo que não leio um texto tão bem escrito

    • Thiago disse:

      Parabéns pelo excelente artigo e pela excelência do contexto abordado.

      Atualmente as pessoas desprezaram a capacidade de pensar e agem simplesmente por extinto, seguindo tendencias totalmente irracionais.

      Mulheres dançam músicas sensuais, na qual difamam de forma esdruxula ela própria, homens que mal tem onde caírem morto, andam pra lá e pra cá tocando músicas que fazem apologia a ostentação da riqueza.

      Pessoas de ambos os sexos, quando não partem pro crime, passam o mês todo trabalhando pra poder pagar a parcela de um óculos que na verdade foi desenhado para pescadores e não para o espaço urbano, e tudo isso simplesmente porque é “moda”?

      Será que isso não é apenas o reflexo da má educação, da irracionalidade de massa, da alienação da mídia ou involução humana?

      Definitivamente, não consigo entender o real motivo do qual a humanidade vem regredindo tanto, visto que estamos na era da informação e nunca antes se teve tanta facilidade em encontrar documentações que favorecem o conhecimento e a ciência!

  2. Keliane disse:

    Adorei seu texto, está muito bem escrito e esclarece muito sobre a violência simbólica. Parabéns! :)

  3. meirehelenmarcolino reicco montanari disse:

    Parabéns, você conseguiu em um texto de real valor, mostrar o que eu também sinto em relação aos pancadões.
    Não somos não obrigados a fazer parte de uma coisa tão imoral quanto esta, tenho vergonha de ter que escutar esse tipo de “música” e saber que a democracia só existe para eles. E a minha democracia onde foi parar?

  4. Bruno Costa disse:

    Claudio, ótimo texto e obrigado por colocar o link do Cinéfilos. Fico muito agradecido, e que bom que você gostou do podcast.
    Grande Abraço

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