Acaba de chegar às livrarias de todo o país “A última entrevista de John Lennon e Yoko Ono” pela editora Nova Fronteira. O livro é uma prova cabal das agruras vividas por um repórter na busca incansável por um furo invejável: uma entrevista exclusiva com o beatle dissidente e sua musa inspiradora. Para realizar àquela que seria a última entrevista do casal “paz e amor”, o repórter David Sheff da Playboy buscou informações com todos que cercavam os ídolos: do taxista ao contador. Valia tudo para descobrir o caminho das pedras. O resultado não poderia ser melhor. Ao ler o livro é possível se deliciar com histórias intimistas dos entrevistados e suas sandices. Além de conferir o olhar de observadores privilegiados do casal, o leitor divaga sobre as vinte horas de entrevista concedidas pelo casal símbolo do século XX. A batalha travada por Sheff para obter depoimentos tão ilustres me fez recordar outra missão “quase impossível”: a saga de outro repórter na busca por uma entrevista com nada mais nada menos que Frank Sinatra. Em 1966, Gay Talese publicou um perfil do cantor na revista Esquire, apesar de nunca tê-lo entrevistado. Foram meses de recusa e o jeito foi traçar um perfil do artista a partir de observadores do seu cotidiano. Talese atirou para todos os lados e no meio do caminho encontrou strippers, motoristas, garçons, assessores, amigos e até a ex-mulher. No final da investigação, topou com um fato bombástico: a estrela maior da constelação norte-americana estava gripada, para desespero geral de uma nação. Parafraseando Talese “Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país”. Em 2003, a matéria de Talese “Frank Sinatra has a cold” foi eleita a melhor já publicada na revista Esquire.

Direto do túnel do tempo, leia trechos deste primoroso perfil sobre Sinatra e entenda o motivo pelo qual este texto se tornou um marco para o fenômeno setentinha conhecido como New Journalism:

“Frank Sinatra, segurando um copo de Bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava num canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele. Mas ele não diria nada; passara boa parte da noite calado; só que agora, naquele clube particular em Beverly Hills, parecia ainda mais distante, fitando, através da fumaça e da meia-lua um largo salão depois do balcão, onde dezenas de casais se espremiam em volta de pequenas mesas ou dançavam no meio da pista ao som trepidante do folk rock que vinha do estéreo. As duas loiras sabiam, como também sabiam os quatro amigos de Sinatra que estavam por perto, que não era boa ideia forçar uma conversa com ele quando ele mergulhava num silêncio soturno, disposição nada rara em Sinatra naquela primeira semana de novembro, um mês antes de seu quinquagésimo aniversário”.

(…)

“Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível só que pior. Porque um resfriado comum despoja Sinatra de uma joia que não dá para pôr no seguro—a voz dele—, mina as bases de sua confiança e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece provocar também uma espécie de contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país”.



8 respostas para “Missão “quase” impossível”

  1. Roziane disse:

    Oi Rê!
    Como sempre, mais uma bela e curiosa matéria para nós leitores de seus textos.
    Muito bom!
    Esse livro parece ser realmente interessante.

  2. Ah, como faz falta esse bom e velho “New Journalism”.

  3. Walace T. disse:

    Adorei, eu já pensava em comprar este livro com a entrevista para ler nas férias…agora tb quero ler o perfil feito pelo Talese!

  4. danilo cardoso disse:

    Falar da matéria do Gay Talese sobre o Frank Sinatra é o mesmo que citar uma conhecida expressão, ” Dormir… talvez… sonhar” é como posso definir o new journalism criado por Gay Talese uma forma singela e franca de expressar o trabalho do repórter incansável pela melhor notícia

  5. Kaká disse:

    Olha, eu não conhecia este tipo de texto, mas confesso ter adorado o que eu li sobre o Sinatra. Não parece nada com o que leio por aí nos jornais ou revistas. As pessoas não têm mais tempo para apreciar um texto rebuscado como esse, não é mesmo?! Valeu!!!!!!!!!!!!!!

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