Ode ao jornalismo

10/mai/2012

É duro acreditar, mas há quem associe a vida do jornalista a uma rotina de glamour e status. Ledo engano. A constante convivência com esferas do poder cultural, político, social e econômico de um país não transforma o jornalista, seja ele do meio impresso ou digital, em uma celebridade. Não somos atores ou coisa parecida. Ainda lembro-me de uma inconveniente vizinha perturbando a minha mãe para saber quando eu apareceria na TV afinal. Sim, jornalista para ela e para muitos outros deve aparecer única e exclusivamente na telinha. Doce ilusão.  Julgamo-nos bem mais nobres que isso. Sim, somos arrogantes. Acreditamos que o jornalismo inebria bem mais pela sua aura de bravura e nobreza do que pelo salário ou coisa que o valha. “É a melhor profissão do mundo”, anunciou Gabriel Garcia Marques.

Nossos heróis são mártires da resistência à Ditadura Militar e não moças do tempo. Admiramos jornalistas do timbre do saudoso Vladimir Herzog, assassinado durante o regime ditatorial brasileiro e considerado um estopim para manifestações públicas de repúdio ao status quo de então. Se naquele tempo de amarga repressão, a liberdade de imprensa não se sustentava, o que dizer do atual “cálice” que está se instaurando nas redações por medo de represálias fatais em plena democracia. Já são quatro jornalistas mortos desde o início do ano no país. O último a integrar a famigerada lista “Marcados para morrer” foi Décio Sá, assassinado com cinco tiros pelas costas em São Luís, e já aviso, não adianta ler a notícia e cantarolar “Que país é este?”. O ataque aos jornalistas ocorre em toda parte do mundo, haja vista o caso recente do jornalista capturado pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e tantos outros em coberturas de guerra, denúncias de tráfico, investigações políticas etc.

Há pouco, o alto comissariado da ONU exprimiu sua preocupação com a liberdade de imprensa brasileira e cobrou repreensão imediata aos responsáveis pelos crimes, na tentativa de proteger profissionais tão essenciais à preservação dos direitos humanos.

Enquanto o desfecho destes crimes não se anuncia, nos resta lamentar o retrocesso do país ao cercear a liberdade de expressão, já que a morte de um jornalista nestas circunstâncias é, em verdade, o silenciar de uma parcela da sociedade.

Inté!

13 respostas para “Ode ao jornalismo”

  1. Cléverton disse:

    Adorei o texto Regina! Já se foi a época do torturoso e sangrento Regime Limitar. Hoje, ao invés da falta da “liberdade de imprensa” temos a “LIBERDADE DE EMPRESA” – Ou seja, a maioria dos veículos não publicam determinados assuntos por causa de anuciantes e políticos (isso quando não são os políticos donos dos veículos). Sou estudante de jornalismo, AMO e ADMIRO a profissão que pretendi seguir para minha vida … Triste saber que hoje em dia muitos acreditam que “NÃO PRECISA DE DIPLOMA PARA SER JORNALISTA”.

    • Regina Tavares disse:

      Eu agradeço a sua colaboração. A não-obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão vai na contramão desta vida peculiar, e por que não dizer perigosa, que o jornalista leva. Um abraço.

  2. Rebeca Candido disse:

    Definitivamente, para ser jornalista, é preciso REALMENTE amar a profissão. E não ter medo de morrer, ter familiares ameaçados, de deadlines, de ganhar pouco, da queda do diploma … e por aí vai!

  3. Elizabeth disse:

    Sempre quis ser jornalista p/ salvar o mundo, sindrome de Clark Kent… rsrsrs
    Mas conhecendo mais sobre a profissão descobri q ñ podia salvar o mundo, mas podia ajudar a melhorá-lo!!
    Vladmir foi o cara q tentou melhorar pelo menos o seu país e morreu tentando…
    Ser jornalista é ter força de vontade, não ter medo, correr riscos!!!
    Amo a profissão q escolhi p/ exercer!

  4. danilo cardoso disse:

    Hoje percebo que o jornalista forma opinião mais molda o caráter no telespectador/ouvinte/leitor de dedução e interpretar da maneira que ele achara melhor a informação assim transmitida, que na minha opinião é uma profissão nobre assim como lecionar e pesquisar, jornalistas como o Vladimir Herzog entendeu isso.

  5. Regina Tavares disse:

    Olá, nem dá para perceber que os autores das mensagens acima são jornalistas… rssss. Sei do amor que vocês nutrem pelo jornalismo, mas confesso ter gostado de vê-lo traduzido em palavras. Um forte abraço!!!

  6. João Pontaltti disse:

    Doce ilusão … minha tia me viu esses dias e disse para minha mãe: “nossa, ele tem cara de repórter, né? Não vejo a hora de ver ele apresentando o JN”. Só soube depois. Aí penso, será que ela sabe que quem trabalha em impresso tbm é repórter?

    Outro ponto que eu acho muita ignorância é a ilusão de jornalistas formados quanto à ideia de glamour. Muitos só são preocupados com a carcaça e realmente só querem aparecer. Aí você pergunta: Quem são seus heróis? Com certeza, a resposta não será esses citados no texto.

    Lindo texto – é a melhor profissão do mundo!

    Saudades!

    • Regina Tavares disse:

      Oi, João. Pelo visto você também foi alvo de expectativas televisivas como eu fui ainda na graduação, não é?! rsss O bom é que a consciência do significado de nossa profissão já está em ascensão. Obrigada pelo comentário oportuno. Um grande abraço e até breve!

  7. Larissa disse:

    Acho que as pessoas associam a imagem do jornalista com o que é passado na televisão. Não diferenciam muito o jornalista do ator, por exemplo. Mas essas confusões são normais partindo do senso comum.

    Não sou jornalista, mas imagino o quão é difícil ser um em meio a tantas dificuldades impostas seja elas indireta ou diretamente.
    Mas imagina se houvesse jornalistas no mundo! Como seria transmitidas as informações? E de manhã no carro, como seria minha vida sem ouvir as notícias pelo rádio? Rsrs.

    Parabéns aos jornalistas!: )

  8. Bruno Dionisio da Silva disse:

    Realmente a nossa sociedade como um todo deveria olhar de outra forma para os jornalistas. A profundidade da profissão não se limita a ser visto na televisão, o jornalista tem que estar na rua, no congresso, nas favelas.
    O jornalista tem em mãos a díficil tarefa de ser plural, e de se fazer compreender em mundo que só preza a aparência física, e os interesses de alguns grupos políticos.
    O jornalismo e a sociedade tem que andar de mãos dadas, afinal ambos desejam o bem comum. No momento em que olharmos para esses profissionais como aliados na busca por um mundo melhor, realista, compreenderemos o verdadeiro significado do que é ser um Jornalista.

  9. Camila Creace disse:

    “Nossos heróis são mártires da resistência à Ditadura Militar e não moças do tempo.” Essa frase diz tudo! Ser jornalista vai além de aparecer na televisão ou coisa assim. Ser jornalista é amar escrever e passar a informação, correr atrás dos fatos,sentir a adrenalina de buscar as fontes, ligar e insistir quantas vezes for necessario até conseguir a informação desejada, sentar-se em frente ao computador (ou rabiscar em uma folha mesmo) é jogar tudo aquilo que juntou, transformar tudo em uma matéria e ver no final aquela bela lauda repleta de palavras recheadas de conhecimento e informação, e saber que essas palavras serão lidas e compreendidas. Amar o que é faz é mais que essencial!

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