OBRIGADO, DIABETE

02/abr/2012

Em seu último post, o colega blogueiro Carlos Andrade utilizou seu próprio exemplo para propagar os cuidados com a alimentação e a prática de atividade física como forma de preservar uma boa saúde. A mudança de hábitos foi recomendada por seu médico após a constatação de que alguns sinais não estavam bem, tais como o tamanho da circunferência abdominal e a glicemia elevada (“240 de glicose”). Estes sinais estão associados a um problema no metabolismo que faz com que o açúcar não seja transportado adequadamente aos tecidos após uma refeição, acumulando no sangue. A alta concentração de glicose sanguínea leva a uma doença grave chamada diabete, que aumenta os riscos de a pessoa sofrer ataque cardíaco, insuficiência renal, cegueira e infecções. Há dois tipos de diabetes, o tipo 1 em que o corpo para de produzir insulina, hormônio responsável pelo transporte da glicose para os tecidos, e o tipo 2 em que a insulina pode estar até presente, mas o organismo desenvolve uma resistência à ação do hormônio.

As causas desta doença ainda são desconhecidas, mas acredita-se que a herança genética leva a uma predisposição que pode ser desencadeada por fatores ambientais, alimentação, vírus, entre outros. O diabetes tipo 2 está intimamente associado ao sedentarismo e aos hábitos alimentares, uma vez que 85% das pessoas que desenvolvem este tipo são obesas. As mudanças no estilo de vida decorrentes do desenvolvimento econômico das nações transformaram a diabete numa verdadeira epidemia global. Estudos indicam que quase 10% da população mundial adulta sofrem atualmente da doença.

Se fosse apenas isso, seria muito mau. Mas, felizmente, “nada é só isso”. Pode existir um “lado bom” em se ter taxas elevadas de açúcar no sangue. Segundo o doutor Sharon Moalem, em seu livro “A sobrevivência dos mais doentes”, quando uma doença é causada pelo menos em parte pela genética, é bem provável que algum aspecto desta doença tenha ajudado os antepassados dos doentes de hoje a sobreviver lá trás na linha da evolução. Em outras palavras, o que hoje é um flagelo, no passado pode ter sido um fator determinante para a sobrevivência. E pode ser este o caso da diabete, conforme relata o pesquisador.

Há muito tempo, coisa de 14 mil anos atrás, nosso planeta Terra sofreu uma abrupta e violenta mudança climática, instaurando uma era glacial em poucos anos. As temperaturas médias anuais na Europa despencaram quase 30 graus e pode-se imaginar o impacto devastador nas populações que habitavam a região. Certamente, milhares de seres humanos morreram de frio ou de fome. Mas, é certo também que outros resistiram ao frio extremo, graças a características especiais.  E uma destas características pode ter sido a “capacidade” de manter alta a glicemia. A presença do açúcar em altas concentrações teria reduzido o ponto de congelamento do sangue e preservado as extremidades do corpo contra os efeitos das baixas temperaturas, como ulcerações e gangrena, aumentando as chances de sobrevivência.

A diabete tipo 1 é muito mais comum em descendentes do norte da Europa. A Finlândia tem a maior taxa deste tipo de diabete do mundo, seguido por Suécia, Reino Unido e Noruega. Ou seja, justamente os povos que mais sofreram com a última era glacial. Quanto mais ao sul, mais a incidência cai. Esta multidão que hoje se vê obrigada a evitar doces, comer muita salada, fazer esteira e musculação, tomar injeções de insulina ou victoza, descende de um pequeno grupo de pessoas que, com sua reação diferente ao frio, venceu o desafio da natureza, enquanto outros ficaram pelo caminho.  Graças à diabete!

8 respostas para “OBRIGADO, DIABETE”

  1. Fabio Takeo Sato disse:

    Interessante a hipótese do doutor Sharon Moalem. Posso estar errado, entretanto, pelo livro chamado: Paleopathology at the Origins of Agriculture, dos autores Mark Nathan Cohen e George J. Armelagos, os seres humanos dominaram a agricultura no período mesolítico, por volta de 10 mil ano a.C. e até esse período a dieta era essencialmente feita de gorduras e proteínas e muito esporadicamente vegetais, fica difícil acreditar em uma vantagem de pessoas diabéticas se havia pouca quantidade de glicose no sangue. o período em que o diabético teria uma desvantagem, seria com o advento da agricultura e posteriormente a criação da farinha e do açúcar. Esse período de desvantagem é bem mais recente do que o citado Era glacial.

    • Renato Padovese disse:

      Excelente ponto, Fábio Takeo Sato. Na verdade, o Dr. Moalem utiliza esta mesma argumentação, só que a favor da sua teoria. A alimentação proveniente da caça e da coleta, rica em gorduras e proteínas (similar à dieta do Dr. Atikins), não deixaria que os níveis de glicose atingissem níveis perigosamente altos, provocando cetoacidose. Ou seja, os diabéticos do passado tinham um nível de glicemia que os favoreceu na resistência ao frio, porém, não tão alto a ponto de causar morte prematura. Um abraço, Renato.

    • Fabio Takeo Sato disse:

      Vou colocar esse livro na minha lista de leitura. hahaha. Obrigado pela resposta.

  2. alice cristina santos siegrist disse:

    No mínimo curioso,interessante e inusitado; o que salvou no passado ,hoje é motivo de preocupação,a ponto de qualquer simples check up nos solicitarem um exame para saber a taxa de glicemia,motivo também de muito sofrimento devido a reeducação alimentar e disciplina que a doença requer, as várias e graves consequencias que a doença se não tratada pode ocasionar.Existe um ditado que diz que nada é por acaso,cada vez mais isso parece ser verdade!

    • Renato Padovese disse:

      Cara Alice, obrigado por sua mensagem. Um aspecto positivo, por um lado, pode ser negativo, por outro. Veja as belíssimas penas do pavão. Se o tornam mais atraente para as fêmeas, atraem também a atenção dos predadores. Um abraço, Renato.

  3. Wilson Roberto Freire disse:

    É bom saber um pouco mais sobre o assunto. Ainda mais que provavelmente também serei acometido por esse problema no futuro (genética), pois meu pai também é diabético. Por enquanto vou continuar praticando atividades físicas e tentar manter a circunferência abdominal longe de atrair outros corpos celestes.

  4. fernando carvalho disse:

    Alguns autores como Atkins e outros no afã de culpar os carboidratos pelas doenças modernas, elegeram a revolução agrícola como o momento fundante. Mas alimentos integrais derivados de trigo, aveia,etc. nunca causaram mal à raça humana. Os povos da Ásia sempre foram chamados pelos europeus de “povos comedores de arroz”. Os carboidratos se tornaram fonte de doenças, começando pelas cáries dentárias depois que o açúcar chegou à mesa. Portanto a gênese das doenças crõnicas, metabólicas e degenerativas não teve origem há dez mil anos, mas há pouco mais de 500 anos com a massificação do consumo de açúcar. Escrevi um livro sobre isso. O trabalho tem duas versões um pdf grátis (o livro negro do açúcar) e uma versão nas livrarias (açúcar o perigo doce, editora Alaúde).

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