Imagine a situação: você está tranquilo no trânsito de São Paulo (se é que em algum momento ficamos assim nesta megalópole) pois, como de costume, se programou com as recomendadas 1,5 h de antecedência para um determinado compromisso. Mesmo sob o frequente fluxo intenso de automóveis, está ainda relaxado pois tudo segue sua programação normal. De repente, um imenso mar de luzes vermelhas de freio se acende onde, normalmente, não se deveria observar tal fenômeno. Uma descarga de adrenalina sobe sua espinha vertebral e você imediatamente percebe que chegará atrasado! Mas o que ocorreu?

Imediatamente, você troca a estação de rádio de músicas New Age e baladinhas relax para aquela que só informa as condições do trânsito na vã esperança de descobrir uma rota alternativa – de preferência, exclusiva para você – que te tire daquele transtorno e faça com que você cumpra seu compromisso no horário. Um acidente te espera logo ali à frente. São apenas 800m até o ocorrido, mas que te consumirão, pelo menos, 30 min. Aha! Um motoqueiro se acidentou! Você não se surpreende já que, apesar de muitos motoqueiros cumprirem à risca as leis do trânsito, talvéz um número igual de transgressores cruza o seu caminho diariamente.

Falta só um trechinho… você fica ansioso pois já vê alguns carros desviando à frente, acionando seus pisca-piscas. Calma, só mais um pouco para se desvençilhar daquele tormento. Quando você chega ao local do acidente, sua indignação (associada a um estresse ainda maior) vence qualquer paciência de monge zen-budista: o acidente é na pista DO OUTRO LADO! Sim, meu amigo, o acidente aconteceu no fluxo contrário mas os curiosos – malditos sejam – diminuem a velocidade de seus automóveis para analisar o ocorrido. Há também alguns motoboys que se aglomeram para defender o motoqueiro acidentado enquanto outros filmam o fato com seus celulares para tentar conseguir um dinheiro extra com a venda das imagens para os veículos de mídia. Todos querem ver sangue! De preferência, massa encefálica espalhada e fritando no asfalto quente! Assim como crianças quando encontram um pombo morto no pátio da escola, esses “curiosos” também gostariam de cutucar com um galho o corpo moribundo jogado ao meio-fio. Tudo isso para acrescentar algo mais nas discussões noturnas domiciliares, as quais incluem também o quanto a protagonista da novela das oito sofre nas mãos daquele crápula, o doutor Adamastor.

Você passa aquele enrosco e amaldiçoa (novamente) todos aqueles cretinos curiosos. Quando finalmente chega ao seu compromisso, você está esbaforido, vermelho, suado e nervoso. Todos perguntam sobre o que aconteceu e você responde: “Ah, um motoboy caiu na Avenida. Meus amigos, vocês tinham que ver: o cara estava desmaiado e com a tíbia partida ao meio. Tinha sangue por todo lado. Que eu tenha visto, a atendente do SAMU ficou, pelo menos, uns 30 segundos fazendo respiração boca-a-boca no cara…”

7 respostas para “Sanguessugas do asfalto”

  1. Michele disse:

    Muito bom…é realmente um fato isso….

    • Oi Michele,
      Agradeço seu comentário. Como cientista, também refiz minha análise e achoque tenho uma nova perspectiva.
      Nessa pressa toda em que nos locomovemos nesta cidade, sempre reclamamos daqueles “lerdos” do trânsito que deixam espaços enormes para os veículos da frente. COntudo, me ocorreu algo: se todos fossem “espertos” como nós nos julgamos, na frente de quem entraríamos?
      (Auto-crítica, rs). Abrç

  2. Há ainda um detalhe: neste final de ano, deve-se ainda somar aos morosos do trânsito, os curiosos de decorações natalinas! Filas de carros quilométricas na Av. Paulista e na Av. Pedro Álvares Cabral (frente ao parque do Ibirapuera)! Haja…

  3. Cris Vardaris disse:

    A curiosidade, no caso do acidente de trânsito, é nojenta. Parar para ver sangue e desgraça alheia é atitude de gente que (literalmente) não tem o que fazer. Por outro lado, passar pelas avenidas enfeitadas, com crianças no carro e não dar uma diminuida na velocidade para ver as luzes de Natal é uma maldade com os pimpolhos…

    • Oi Cris, obrigado pelos comentários.
      Posso sugerir algo em relação à visitação das luzes de NAtal? Que tal estacionar o veículo e apreciá-las com muito mais calma? Aposto que as crianças vão aproveitar muito mais. Tem umas sorveterias otimas por ali! Bj

  4. Carlos disse:

    É realmente lamentável isso. Um fato visto não apenas nas ruas de grandes metrópoles, mas em rodovias. A curiosidade humana é magnifica, em alguns casos, em outros, mostra a incapacidade social do ser humano.

  5. Lais disse:

    Realmente o que tem de curioso não está escrito, o que só complica um bucadinho o transito.

Deixe uma resposta

ASSINE O FEED RSS

Acompanhe nosso blog pelo feed

O BLOG

O objetivo central do veículo é estimular o senso crítico e o poder de reflexão de seus leitores sobre temas que transitam entre conhecimentos científico e de caráter geral.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

TAGS