Relativamente próxima à antiga Mesopotâmia (atual Iraque), a Capadócia é uma região na Turquia que também pode ser conisderada como o berço da civilização humana. Artefatos e peças cerâmicas da Antiguidade resgatam os primórdios do desenvolvimento humano neste planeta.

O terreno é geologicamente formado pela sobreposição de solos vulcânicos e formações cristalinas mais resistentes. Esse tipo único de terreno permitiu, desde a Idade do Bronze (~ 8.000 A.C.), que os humanos construíssem cidades subterrâneas, pela facilidade em esculpir e cavar buracos neste terreno. Estas habitações serviram de refúgio para muitos povos, entre eles os hititas (2.000 A.C.), os persas e até mesmo os cristãos, durante a dominação local pelo Império Romano. Uma das habitações mais impressionantes se localiza em Kaymakli, Anatolia. Os labirintos verticais de Kaymakli possuem 8 pavimentos sobrepostos, todos comunicados por estreitas vielas e passagens extremamente baixas (algumas exigem passar agachado). Há um inacreditável sistema de ventilação que garante ar fresco a qualquer um dos 8 pavimentos. Estima-se que cerca de 3500 pessoas (!) viveram naquelas habitações. Todos os salões esculpidos na rocha possuem orifícios para a passagem de itens entre os salões e pavimentos (comida, instrumentos,etc), mas também servem para a importante comunicação visual entre as pessoas em diferentes níveis.

Mas, por que aqueles povos decidiram viver em, literalmente, buracos na terra em condições aparentemente sub-humanas? Resposta: proteção. Após a grande conquista do Oriente, nem mesmo o grande general grego, Alexandre, o Grande, conseguiu dominar a região. Seus soldados foram dizimados pelos habitantes locais (persas, na época) que se escondiam e os tocaiavam naqueles labirintos. Do mesmo modo, os soldados não conseguiam destreza para usar suas armas ou se movimentar naquelas vielas estreitas e baixas, apesar de seu qualificado treinamento. Ao mesmo tempo, eram atacados com lanças através dos orifícios cavados nos salões. A grande estratégia dos persas era, simplesmente, conhecer plenamente o terreno de combate.

Caro leitor, caso você ainda não tenha percebido, o título da matéria remete a história da Capadócia antiga ao que exatamente acontece nas favelas do Rio de Janeiro! Os traficantes tocaiados naquele labirinto de barracos tornam o controle da região praticamente impossível. Há cerca de 1 ano, um cerco teoricamente intransponível foi estabelecido pela polícia do Rio de Janeiro/BOPE no morro do Alemão. Apesar da captura de muitos bandidos, os líderes do tráfico naquela região aparentemente escaparam por uma rede de esgoto desconhecida. Podemos, assim dizer, que a dominação deste poder paralelo ainda persiste.

Temos que aprender algumas lições com a História e com suas famosas estratégias de batalha. Para refletir: Alexandre, o Grande, estendeu o domínio grego até a Pérsia por volta do século IV A.C., com exceção desta pequena região da Capadócia, que permaneceu sob controle do aristocrata persa Ariarathes, proclamado rei da Capadócia! Não gostaria do mesmo final para a Cidade Maravilhosa…

2 respostas para “Tá dominado, tá tudo (quase) dominado… aprenda com a História!”

  1. Anderson Barros disse:

    Caro professor,
    Parabéns pelo artigo, realmente está muito bom, simples, claro e direto. Após a leitura do artigo, é inevitável falar de educação.
    É realmente muito muito intrigante o fato da história se repetir através do tempo e, mais intrigante ainda é o nosso total despreparo perante as situações estratégicas já vivenciadas pelos antigos, por assim dizer, e até contemporâneos. Mediante isso, fica impossível não associar o fato ao despreparo educacional decorrente de um ensino fundamental e médio, na grande maioria bem abaixo da média.
    Aproveito o espaço para reproduzir a seguinte frase: “Nada do que é currículo em escola é fundamental. Você tem que aprender a pensar. A escola deve ser inspiradora, estimular a criatividade e não a repetição, os testes de memória” (Bruna Lombardi, atriz, em entrevista à revista TRIP). Temos sorte da Universidade cumprir com este papel e colaborar no processo de formação de pensadores, pesquisadores, estrategistas, cientistas e sobre tudo cidadãos. Parabéns!!!

    • Marcelo Paes de Barros disse:

      Olá Anderson!
      Concordo contigo. Educação significa transmitir conhecimento as novas gerações conforme experiências prgressas. Significa, portanto, aprender com a história e experiências.
      Eu também lamento muito que o Brasil AINDA não atentou ao fato – ou os governantes não querem (aumentar o senso crítico da população seria perigoso) – de que Educação é a chave para o desenvolvimento geral de um País. Inclusive para eles, os próprios governantes. Veja a Coréia do Sul. Estava em situação sócio-econômica idêntica ao Brasil há 25 anos. Promoveu grandes investimentos em educação e veja onde eles estão hoje. E nós… abrç

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