E aí, dotô?

16/set/2011

Meus amigos, esta matéria aventurar-se-á (mesóclise, faz tempo que não a uso!) em um  curioso universo de vaidades, de prepotência, mas também de dedicação. Quem é, efetivamente, Doutor? Antes de responder, quero deixar claro que não defendo a atribuição de título de “Doutor” para este ou aquele profissional, antes que vocês venham querendo me queimar na fogueira! Em uma rápida busca na internet, li inúmeras frases radicais e infladas como: “Doutor é quem fez doutorado”, “Respeite sempre o Dr. Advogado” e por aí afora.

Dá para imaginar a controvérsia gerada: enquanto uns se baseiam em emendas federais de órgãos de saúde, outros citam decretos imperiais de mil oitocentos e bolinha e outrém se alicerça na própria força do hábito. Na verdade, o questionamento de quem realmente é “Doutor” vem desde a época de fundação das mais primórdias universidades medievais (estamos falando do séc. XI!).

No Brasil, a designação de “Doutor” é mais que deturpada, graças à herança serviçal deixada pelos portugueses desde a época colonial. Se você perceber bem, o manobrista de qualquer restaurante te chama de doutor, sem sequer você mencionar sua especialidade ou formação. O mesmo tratamento é utilizado pelo ascensorista do seu prédio, por exemplo. Até em novelas (sic!), sempre há um tal Dr. Almeida, empresário impetuoso e agressivo vestido com alinhadíssimos ternos italianos e gravatas de seda javanesa. Como se isso (a bonança) fosse o pré-requisito para tal designação/título.

Sempre foi uma fogueira de vaidades. Originalmente, com base nas instituições européias, existiam somente quatro tipos de títulos: bacharel (B.Sc.), licenciado (L.Sc.), mestre (M.Sc.) e doutor (em Ciências Filosóficas, Ph.D., incluindo Química, Astronomia, Física, Filosofia, etc). Contudo, com a grande força da Igreja e o avanço das ciências médicas impulsionaram a criação de outros títulos: Divinitatis Doctor (D.D.), doutor em Teologia, e Medicinæ Doctor (M.D.), o Doutor em Medicina. Com o crescente desmembramento das ciências humanas, biológicas e exatas, as instituições acadêmicas mais tradicionais e conceituadas estabelecem hoje mais de 50 títulos diferentes, conforme a formação em Graduação concluída e os títulos obtidos na pós-graduação. Por exemplo, um dentista formado que também concluiu seu mestrado e doutorado, deveria oficialmente assinar: Fulano de Tal, DDS, M.Sc., Ph.D. Tais designações são poucas vezes respeitadas no Brasil, gerando tanta confusão. E digo mais, oficialmente só é Professor (no sentido estrito da palavra, o “Herr Professor” na Alemanha, por exemplo), quem concluiu a Livre-Docência, último título acadêmico possível. Curiosamente, ouve-se com certa frequência, por exemplo: “Meu professor de tênis” (e não, instrutor, como deveria ser).

Quero concluir a matéria com uma boa história de um amigo que concluiu seu curso de doutorado em Física e voltou para sua cidade no interior da Bahia para uma grande “festa” com familiares e amigos. Ele disse que até a banda da cidade tocava na sua chegada! Ao interagir com os cidadãos, depois de tanto tempo de ausência (média de conclusão de um Doutorado = 5,2 anos!), não sabia como responder à recorrente pergunta: “Afinal, Toninho, você é Doutor de quê? De cadeia, de ponte ou de doença?”

8 respostas para “E aí, dotô?”

  1. Carol disse:

    Realmente isso é um assunto que gera polêmica. Acho isso irrelevante, vendo que nos dias de hoje, na saúde pública, por exemplo, basta uma pessoa estar vestida de branco e com um jaleco que as pessoas já chama de Doutor, cansei de passar por situações assim.. até a tia que faz o café do posto, que veste um avental branco é chamada de Doutora pelos pacientes, rs.
    Vai do conhecimento e da consciência de cada um exigir em sua rotina que esta denominação seja utilizada.
    Tenho ciência que quando estiver formada, terei em meu CRF o título de Dra. Mas sei que meus conhecimentos e a manutenção dos mesmos que irão fazer a diferença na minha carreira, não um simples DR, na frente do nome.!!!
    Bjo.!!!

    • Marcelo Paes de Barros disse:

      Olá Carol! Na minha percepção, é uma questão de pura vaidade. Lembro de um caso no Rio de Janeiro em que um jurista (não pergunte se era advogado, juiz, promotor, etc) entrou com um processo contra um funcionário de seu condomínio por que ele não o “reverenciava” com o nobre título de doutor. Patético… bj

  2. Tati disse:

    Por mais que eu queira o título de Ph.D, eu entendo que o termo “Doutor” assim como o termo “Professor” já foi banalizado. Devemos lembrar que a lingüística estuda a evolução da língua e afirma que a mesma eh um “organismo” vivo em constante mudança, portanto acho que deveríamos encontrar novos termos, adaptá-los ou desenvolver novos títulos, pois não podemos nem devemos controlar o que ou como as pessoas falam, pois elas são livres (liberdade poética?Rs) para se comunicarem como quiserem. Isso significa que se para o porteiro ou o manobrista vc eh doutor simplesmente pq eles estão lhe servindo, então a definição de doutor atual eh “aquele que tem dinheiro para demandar serviços”. Fazer o que? Por mais que queiramos manter as tradições o mundo mud …prefiro termos menos deturpados como “Pesquisador” e “Cientista”.

    • Marcelo Paes de Barros disse:

      Olá Tati. Acredito que, no fundo, todos buscam notoriedade para sair daquele meio comum. È a busca de uma identidade diferenciada, das características próprias, etc. Alguns que tiveram maior oportunidade de estudo e/ou dedicação tentam tal reconhecimento através do título de “doutor” (reconhecido ou não, não importa, rs). BJ

  3. Cris Vardaris disse:

    Iria comentar justamente o caso do RJ… é um absurdo usar de meios legais (no caso uma Liminar Judicial) para uma ostentação e ego que “obriga” as pessoas a tratá-lo por Vossa Excelência, Meritíssimo e etc. O engraçado é que para este tipo de bobagem a Justiça é super eficiente…

    • Marcelo Paes de Barros disse:

      No fundo, todos os animais – no sentido de instinto animal – buscam destaque no bando, algo que os caracetrize como únicos, como especiais. Isso garantiria condições melhores de sobreviviência, maiores chances de proliferação de seus genes e perpetuação da sua espécie através de uma prole mais vindoura. Na espécie humana, esse aspecto envolve também as relações sociais, civilidade, cidadania, etc. Em suma, todos os indivíduos buscam destaque no “bando” para responder a estas necessidades instintivas. Contudo, muitos (como seu exemplo) ultrapassam as barreiras sociais aceitáveis do convívio humano e, literalmente, se tornam prepotentes e arrogantes nessa busca desenfreada pela notoriedade.
      Bj

  4. Renato disse:

    Eu acredito que a palavra Doutor está deturpada não por causa dos ególatras, mas sim, por causa do desconhecimento (ou nenhum conhecimento) das pessoas que tratam essa palavra como uma formalidade. Acredito que você tem razão quando diz que essa deturpação advém dos serviçais deixados de herança pelos portugueses. Ao remeter meu pensamento a época da colonização, quase posso ver a imagem de negros cabisbaixos proferindo as palavras “Senhô”, “Dotô”, depois de uma cessão de açoite. Ao pensar nos dias de hoje parece que muita coisa ainda não mudou, a empregada domestica negra (em sua grande maioria) ainda continua a tratar seu empregador como “Dotô”, os faxineiros, ascensoristas, manobristas, engraxate, e todos os outros das escalas mais baixas do trabalho (negros em sua grande maioria) idem. A culpa são dos negros “professô”? A Tati foi genial quando fez um análogo dessa deturpação ao fenômeno linguístico, converse com o “Professô” Carlos Augusto Andrade, caso ele acredite e credite que isso seja um fenômeno sócio-linguístico logo ele dará razão a quem profere tal sacrilégio, pois o que é um “Dotô” pra quem diz “nós pega os peixe”? Nos dias atuais, coloque os Classes E, D, C, brancos, negros pobres como farinha do mesmo saco, todos dizem “Dotô” a Advogados, Dentistas, Enfermeiras, Médicos (inclusive seus estudantes) e etc. Algum o outro egocêntrico eventualmente goze desse título, mas pior que essa pequenez são aqueles que quando tentam nos transmitir algo (ou falado ou escrito) usam e abusam do “eu”, é um “eu” desmedido, e empáfio de dar dó, “eu fiz”, “eu sou”, “eu fui”. O “Santo” vai falar sobre iniciação cientifica logo coloca o “eu” ao protagonismo, ao falar de futebol lá estava o “eu” ao lado dos “grandes times”, a pessoa ao falar de economia lá estava o “eu” na Europa (e isso é muito chique), no gibi estava o “eu” e o seus preconceitos, ao falar do término do ciclo estudantil universitário logo quem estava lá? o “eu” é claro e na foto decorativa só gente branca (é o m”eu” mundo perfeito), ao falar de cinema logo esta “eu” “eu mesmo” e a morena, na feira de ciência era “eu… O observador” e o relevante da feira fora (sucintas) reservadas cinco linhas quase no rodapé. Pôh… até parece que gosta de me ver passar vergonha entre meus amigos de outras Universidades, pois quando começa a sessão bullying são sempre as mesmas piadas… – “E aeh Renato… e hoje a aula é com o professor que vai direto e reto para Europa?”, ou “E aeh Renato, já tirou seu passaporte para ter um minimo de dignidade na sua facul”? Ou “Não vou estudar na sua facul não Renato, ainda não consegui grana pra sair de São Paulo”.
    Eu entendo que não há problema algum com essa tratativa, é coisa tão pouca que quase não acredito que há alguém que se infle de ego por ouvi-la. Ou sou eu que não faço juízo de valores corretamente sobre essa problemática, pois chamar as pessoas de “Dotô” quando não são é coisa muito séria. Ou talvez eu entenda isso de forma branda por eu ser “herança serviçal” dos portugueses. Talvez seja não é mesmo, “Professô”? Ou prefere que lhe chame de “Dotô”?

    • Marcelo Paes de Barros disse:

      Olá Renato! Hahahaha, tenho que te confessar que há uma grande comoção entre nós, editores, quando você se manifesta! Fico feliz que mesmo sem prestar seus valiosos comentários em minhas matérias, você as leu uma a uma! Meu objetivo primordial foi concretizado: tenho mais um leitor fiel! Obrigado.
      Se você perceber bem, tenter omitir o pronome de 1a. pessoa de todo o texto, já que te ofende tanto. Optei por frases com sujeito oculto, em consideração a você. Contudo, você há de convir que é bem difícil tecer comentários sobre a opinião ou observação dos outros já que AINDA não consigo ler a mente das pessoas (prepotente, não?). Assim sendo, tenho que infelizmente me limitar à interpretação cognitiva dos estímulos sensoriais que recebo do mundo exterior. Me desculpe por isso.
      Uma vez que ainda não obtive o título de Livre-Docente, se for de sua vontade (já que não faço questão) pode me tratar de “dotô”. Quanto a minha santidade, temos que esperar um pouco: o Vaticano ainda está analisando minha canonização…
      Achei incrível como você conseguiu encaminhar uma discussão de títulos acadêmicos para um contexto de desigualdade social (embora, confesso, meu texto possa encaminhar a tal) e, subsequentemente, sobre etnias.
      Nesta perspectiva, relendo seus comentários anteriores nas minhas e nas matérias dos outros editores, colhendo as evidências deixadas pelo seu ponto de vista em seus comentários e fazendo um curto exercício de memória (método científico), tenho uma hipótese bastante plausível sobre com quem estou me comunicando. Nas respostas abaixo, vou deixar alguns indícios que, acredito eu (ops, me desculpe, 1a. pessoa), podem te caracterizar Renato, para provar minha teoria. Acho que vcê é inteligente o bastante para perceber essas nuances.
      Se você reler minha auto-definição na lista de Editores, verá que eu (de novo? estou perdendo a compostura) acredito muito no trinômio Desafio-dedicação-conquista. Sempre estudei em escolas públicas (1º e 2ºgrau) e só consegui fazer cursinho – minha família não tinha condições – por que ganhei uma bolsa em um exame de Matemática oferecido aos “bons” alunos da minha escola. Também sofria muito bullying na época, já que era o CDF da turma (atualmente conhecido como nerd). Infelizmente, não havia cotas ou ProUni na minha época e tive que brigar pelo meu filão de igual-para-igual com outros garotos que tiveram condições bem mais vantajosas. Trabalhei durante a faculdade e acho que fui bastante sensato, já que optei por utilizar o conhecimento adquirido para trabalhar em centros de acompanhamento para alunos de cursinho e do ensino médio (justamente aqueles que tinham maiores vantagens) e também com aulas particulares. Meu primeiro carro foi um VW 1969, mais conhecido como Zé-do-caixão e só foi herdado no final da faculdade com o falecimento de um parente. Minha primeira viagem internacional só no meio/final do Doutorado, com verba financiada pelo meu orientador.
      Assim sendo, não pense que você tem aqui, do outro lado da tela, alguém que sempre teve um tapete vermelho estendido para seguir seu rumo na vida: tudo foi (muito) brigado e, portanto, posso falar com conhecimento de causa. Minha etnia não pode ser usada para traçar esse seu pré-conceito sobre meu perfil ou meu histórico.
      Há um conceito acadêmico importante que diz que um professor (ou ainda Dr., como no meu caso) deve sempre formar alunos melhores do que ele mesmo foi. Nesse aspecto, acho que tenho feito um bom trabalho. Sabe por quê? Por que ao invés de ficarem se lamentando pelas mazelas e as dificuldades que passaram ou ainda passam, esses caras e essas garotas boas-de-briga entenderam a mensagem de dedicação e conquista e lutam dia-a-dia pelo seu espaço. No meu grupo de pesquisa, tive/tenho alunos ProUni (vários), bolsistas por mérito no vestibular, mães, pais de família, negros, asiáticos, homossexuais, deficientes, ex-dependentes químicos, biólogos, veterinários, e várias outras categorias antropométricas que você queira escolher para rotulá-los. Eles avançam na vida – e me orgulho MUITO deles! – por que lutam pelo que querem. Eles captaram a mensagem, meu amigo… Fale isso para seus colegas.
      Um abraço

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