Com o fim do regime do ditador líbio Muamar Kadafi, a comunidade internacional começa a se perguntar: quem o substituirá? O desejo é que a transição política se consolide em bases democráticas. Porém, os rebeldes que derrubaram Kadafi com o apoio da OTAN não têm liderança, são formados por diferentes grupos tribais e políticos. É possível que, assim que desapareça a causa comum que os une, iniciem um novo conflito por seus interesses particulares, em vez de compor um governo democrático. Mesmo no Egito, com as Forças Armadas obrigando Mubarak a deixar o poder e prometendo eleições para setembro, há dúvidas se a democracia prevalecerá. Outros países atingidos pela “Primavera Árabe”, tais como Irã, Síria e Arábia Saudita, ainda conseguem manter suas ditaduras.

Mas por que é tão difícil estabelecer uma democracia em países do Oriente Médio ou do Norte da África? Segundo os professores Stephen Haber, da Universidade de Stanford, e Victor Menaldo, da Universidade de Washington, a culpa é da geografia. Mais precisamente, da falta de chuva. Os pesquisadores descobriram que em lugares com baixo índice pluviométrico (menos de 50 centímetros de precipitação média anual), persistem as ditaduras. Já nos países com níveis moderados de precipitação (entre 50 e 100 centímetros), as democracias predominam.

E não se trata de escassez de água, uma vez que estas regiões são banhadas por rios importantes, tais como Tigre, Eufrates e Nilo. Afinal, o povoamento, a colonização e a civilização acompanham o curso dos rios, que transportam a água e garantem solo fértil para o cultivo de alimentos. A questão é outra: os políticos não mandam na chuva. Ao longo dos rios, a produção de alimentos pode ser controlada por aqueles que detêm o curso da água e dos canais por ele abastecidos. Já a chuva cai do céu e permite que habitantes das diversas partes possam produzir e armazenar seus cultivos de forma independente. Mesmo depois de abandonar a agricultura e se mudar para as cidades, estes indivíduos preservaram os valores que sustentam uma sociedade estável e democrática: o império da lei e o direito à propriedade.

Seria um erro, entretanto, ver a geografia como destino. Seu significado pode ser reduzido ou evitado, embora imponha um certo preço. Educação, ciência e tecnologia são as chaves. Quanto mais se dispõe de conhecimento, mais se pode fazer para evitar o autoritarismo e fornecer melhores condições de vida e trabalho às populações. Um exemplo de democracia em área desértica é Israel. Mas, em favor dos pesquisadores, pode-se argumentar que os imigrantes que povoaram Israel vieram de países europeus e, portanto, já vieram imbuídos dos nobres ideais democráticos.

13 respostas para “A CULPA É DA GEOGRAFIA”

  1. Gemeriane Pereira disse:

    A culpa é da geografia ou da ambição dos EUA pelo

    petróleo daquela região?

    • Renato Padovese disse:

      Cara Gemeriane, não tenho a resposta. O que posso dizer que o Egito é uma ditadura desde muito antes do descobrimento da América ou mesmo da criação do islamismo. Um abraço, Renato.

  2. dhbt disse:

    Existe uma estorinha contada nos primeiros anos do ensino fundamental, que pode fazer-nos refletir sobre os conflitos do Norte da África, Oriente Médio e a percepção geográfica destes professores estadunidenses. Eis resumidamente a narrativa: Um dos caçadores da tribo indígena pergunta ao Pajé se teriam que cortar mais lenha para se aquecerem durante o inverno que se iniciava. Por sua vez, o Pajé sem saber ao certo o que dizer ao índio, recomendou que cortasse mais lenha para aquecer a tribo. Feito o trabalho, o índio volta ao Pajé, mais lenha? Titubeante, o Pajé diz ter que consultar os espíritos, e que no dia seguinte daria a resposta.
    O Pajé faz uma ligação para o centro meteorológico e pergunta se o inverno será rigoroso. A resposta que recebe é sim, o inverno será rigoroso. Mais que rapidamente o líder pede aos índios cortarem lenha. Ao término deste, questionaram se deveriam cortar mais lenha. Nova ligação ao sistema de previsão climática:
    - Vai ser rigoroso o inverno?
    - Sim será um dos mais frios…
    O Pajé volta e orienta que cortem toda a lenha que conseguirem, feito o trabalho, perguntam: chega de lenha? Para confirmar o veredito, pede a informação a meteorologia: Fará muito frio?
    - Sim, fará muito frio, como nunca antes acontecido nesta região.
    - Mas porque fará tanto frio este ano? Indagou o Pajé.
    A resposta que recebeu o deixou confuso:
    - É que os índios ficaram loucos, estão desmatando como nunca o fizeram antes!
    E a culpa é da Geografia…

  3. Irineu Gimenes disse:

    O determinismo geográfico aventado pelos Professores, como um simples dado isolado pode e em uma análise rápida chamar a atenção, porém a identidade cultural enraizada desde milênios, aonde as condições de sobrevivência que eram basicamente oriundas dos recursos naturais e a defesa e uso exclusivo, determinavam a sobrevivência e a força de um povo é de difícil mudança.
    A proliferação do conhecimento, sem dúvida torna a vida mais democrática, é muito mais saudável viver em harmonia do que ter que defender-se o tempo todo, vide os constantes crimes de sequestro ocorridos em nossos dias em nosso país, trazendo intranquilidade a casse mais abastada.
    A democracia é em tese a “fina flor” da convivência em Estado de Direito, porém democracia e o sistema capitalista sem a intervenção do Estado como mediador justo, torna-se cruel e desumana.
    Quero demonstrar minha satisfação em ter lido seu artigo com um assunto tão relevante ao mundo no qual a Geografia pode ajudar a discutir.

  4. Renato Padovese disse:

    Caro Irineu, concordo com sua opinião. Acho que vamos começar a assistir o florescimento da democracia naquela região. Mas, como uma vontade do povo e não o desejo de terceiros. Um abraço, Renato.

  5. Denise Lopes disse:

    Preocupante saber que as universidades Stanford e de Washington gastam tempo e recursos para manter o determinismo geográfico. Mas, pensemos, que isso é bem conveniente para o berço destas universidades, os EUA… e quão conveniente é associar a ditadura ao clima desértico.
    O mais ingênuo dos humanos já sabe que debaixo mesmos solos, onde a falta de democracia predomina, também existem riquezas minerais e petróleo e que as principais economias capitalistas (sobretudo os EUA) necessitam de mais e mais recursos para manterem sua escala de produção.
    E claro que ao levar os ideais democráticos, civilizados aos bárbaros do mundo, estão na verdade abrindo mais uma frente em seu mercado de consumidores. Levar os ideais democráticos significa levar um modo de pensar o mundo, influenciar culturalmente e criar novos hábitos.
    Será que ainda nos falta maturidade para perceber que o episódio 11 de setembro foi extremamente rentável à política estadunidense para justificar invasões e plantar mais confusão e ódio, fragmentando culturas e levando os valores “do modo de vida americano”?
    Não vi nada de democrático na intervenção estadunidense no Vietnã, no Kwuait, no Afeganistão, no Iraque, nem ao sul do México (Chiapas), onde se encontra 80% da planta petroquímica do país. Isso só para mencionar alguns poucos eventos.
    Também vale lembrar que a maior parte das ditaduras implantadas no Oriente Médio (assim como o foi na América Latina) foram financiadas pelos próprios Estados Unidos, sob o pretexto de combater o comunismo.
    Também é bastante curioso que a opressão política na Arábia Saudita não desperte os ideais democráticos dos EUA. Aliás, não é nada curioso… é óbvio. Ali as boas relações econômicas e estratégicas entre o governo saudita e estadunidense sobrepõem-se à ditadura. E enquanto for assim (como foi até 2003 no governo Saddam), os ideais democráticos ficarão no plano dos desejos do povo saudita, que terá de enfrentar com os próprios punhos a falta de liberdade.
    Enquanto os pesquisadores da Stanford e da Universidade de Washington gastam fosfato e recurso para esse tipo de serviços, sugiro que façamos leituras lúcidas da realidade, lendo os trabalhos de Yves Lacoste, Noam Chomsky, Manuel Castells e tantos outros autores que não foram cooptados pelo discurso hegemônico norte-americano.
    Quanto a Israel, apenas acrescento que os valores democráticos israelenses são muito semelhantes aos estadunidenses… que democracia é esta que levanta muros quilométricos para isolar os diminutos territórios palestinos, expropriados e marginalizados em seu próprio berço?
    Lembremos que o discurso contra a barbárie e o terror islâmico esconde interesses estratégicos importantíssimos. Façamos nossas leituras e continuemos alertas.
    Abraços a todos.

  6. Sérgio Luiz Mazzi disse:

    Poderíamos ter mais dados à respeito desta tese, que à meu ver tem sim seus méritos, temos de ter os devidos cuidados ao culpar agentes políticos externos ou a atual conjuntura econômica mundial (o que já virou lugar comum), precisamos estudar com mais perspicácia o que acontece nestes lugares, seus costumes e relações diversas, sua história política pré e pós colonial, e demais.

    Ou senão, segundo os professores Stephen Haber, da Universidade de Stanford, e Victor Menaldo, da Universidade de Washington, teremos de esperar que chova no deserto, para que a democracia floresça?

  7. alice cristina santos siegrist disse:

    Os professores das universidades descobriram q onde chove menos o regime da ditadura impera…Por que?Nao nos deram esta resposta,podemos apenas supor q obviamente ,a populacao sofrida daquelas regioes tem pouquissimo acesso a educacao q é o gatilho p um povo ter voz ativa,entra-se num ciclo vicioso de pouca cultura e conhecimento , de povo oprimido,q perdura ,persiste ao longo de anos e anos… e q nao conseguem,nao sabem e q muitos nem imaginam q poderia ser diferente.Espero sinceramente q os lideres derrubados sejam substituidos por bases democraticas,e q haja tempo p ser plantada uma semente democratica antes de brigas por interesses particulares comecem,e q no final da historia tem sim ligacao com a geografia,clima,temperatura local, riquezas do solo ou subsolo, enfim ,quem ou o que sera ou serao os culpados ! ?

  8. musicas disse:

    sinceramente na minha opnião é mais problema cultural,
    tem lugar ruim pra caramba eo pais é super rico e as vezes um outro do lado menos rico eo seguinte menos rico e assim por diante por culturas diferentes,

  9. Adriana Furlan disse:

    Caro Renato, parabéns por mais este artigo tão bem elaborado e sempre instigante tão instigante às polêmicas.
    Concordo que os rebeldes que destituem ditadores ou mesmo colonizadores acabam por não ter uma liderança estável. É possível sim que, assim que desapareça a causa comum que os une, iniciem um novo conflito por seus interesses particulares, em vez de compor um governo que atenda às necessidades dos grupos envolvidos. Na realidade o conflito será, de uma forma ou de outra, instaurado, pois o que lhes foi imposto por longo tempo não é sinônimo de “democracia” e eles não conhecem outra forma de comando. Por outro lado, vão querer recuperar o “tempo perdido”, no qual foram destituídos de direitos, de acesso a bens materiais, educação e exercícios políticos. Foi assim em muitos (para não dizer quase todos) países africanos após suas lutas pela independência; conflitos que se estendem até hoje.
    A história nos mostra que a humanidade evoluiu seguindo líderes e Hobbes já dizia em seu Leviatã que é necessário um líder para que o sentido de justiça impere e o equilíbrio de forças seja mantido. Acredito que, diferente da opinião dos professores das Universidades de Stanford e de Washington, a culpa é não é da geografia e sim da história, pois esta se construiu (em partes) com base nesses líderes e heróis que se tornam tão necessários para guiar seu povo!
    Pode ter a água que tiver ou ser o maior deserto, o que vai estabelecer este ou aquele regime socioeconômico e político, o qual definirá as relações sociais deste ou daquele grupo, será a forma com que os grupos se constituem historicamente e como estas relações sociais são estabelecidas, pois isto definirá de que forma o outro, o diferente, será encarado.
    A questão do determinismo geográfico, como explicitado muito bem pelo Irineu e pela Denise, “cabe como uma luva” para explicações que se mantenham somente na aparência dos fenômenos e acaba sendo uma forma muito convincente para se camuflar os motivos que realmente são a essência destes fenômenos. Este determinismo geográfico é um tanto perigoso, pois a partir dele se constrói um discurso que estimula a submissão de um povo à outro e legitima a subjugação destes mesmos povos por aqueles que naturalmente são mais aptos ou inteligentes (entenda-se europeus de clima temperado). Neste discurso ouvimos: “os países de clima tropical são subdesenvolvido porque o clima quente torna os homens mais preguiçosos e menos dispostos para o trabalho”…então o “atraso” está justificado! Simples assim!
    De qualquer forma tenho dúvidas sobre o que seja a democracia… esta acabou com as injustiças sociais e interesses particulares de grupos que acabam por assumir alguma forma de poder?
    Um abraço!
    Adriana

    • Renato Padovese disse:

      Cara Adriana, é muito gratificante escrever no blog, principalmente, pelos comentários sempre pertinentes e bem fundamentados que são publicados. Acho que a democracia tem muitos defeitos, especialmente a nossa, que conta com um sistema eleitoral em que você vota em uma pessoa e elege outra, por exemplo. Embora possa não ter acabado com as injustiças sociais, não vejo outro regime que preserve o que acho fundamental: as liberdades individuais, o direito à propriedade, o império da lei.
      Enfim, só nos resta continuar tentando construir uma democracia mais justa!
      Um abraço,

  10. é uma abordagem interessante,mas admitir a existencia de um “behaviorismo-social” constitui uma explicação muito simplista para explicar a complexa dinâmica das sociedades.Se as variáveis pluviométricas ditassem o caminhar dos povos então, o Amazonas seria a maior das democracias e o Atacama a maior das ditaduras na America.
    A crise energética se aproxima, os grandes recursos ainda estão no oriente médio, as democracias capitalistas precisam deles pra sobreviver. O choque era inevitável. A democracia ocidental mais que querer levar a “luz” para o oriente médio, procura não deixar que se apague a própria.

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